07 agosto 2026


O meu tesouro!

                Enquanto preparava o convívio que vai reunir os colegas da minha escola primária, cinquenta anos depois de termos começado a escrever a nossa história, abri uma caixa antiga. Procurava fotografias, talvez um caderno, quem sabe um boletim escolar. Encontrei muito mais do que isso.

                Encontrei o meu primeiro tesouro.

                Chamava-se, precisamente, "O Meu Tesouro". Era o livro da primeira classe. A capa, já gasta pelo tempo, guardava um baú aberto cheio de moedas. Na altura, eu pensava que o tesouro eram aquelas tampinhas douradas desenhadas na ilustração. Hoje percebo que o verdadeiro tesouro estava escondido entre as páginas.

                Folheei-o devagar, quase com receio de acordar o menino que fui. E logo na primeira lição apareceu ela: "menina".

                Foi a primeira palavra que aprendi a escrever.

                "Me... ni... na."

                Quantas vezes terei repetido aquelas sílabas? Quantas vezes o saudoso professor Norberto nos pediu para as copiar, uma linha atrás da outra, até a mão aprender o caminho que os olhos ainda procuravam?

                Naquela página não está apenas uma palavra. Está o primeiro passo de uma viagem que ainda hoje continua. Porque aprender a escrever não foi apenas juntar letras. Foi descobrir que as palavras nos permitem guardar pessoas, lugares, alegrias e saudades. Foi ali que começou, sem que eu soubesse, a possibilidade de um dia escrever estas memórias.

                Olho para aquela menina desenhada e imagino a sala de aula. As carteiras de madeira, o cheiro dos livros novos misturado com o do giz, os lápis cuidadosamente afiados, o silêncio interrompido pela voz do professor e pelas gargalhadas que teimavam em escapar.

                É curioso como um pedaço de papel consegue vencer quase meio século. As páginas amareleceram, as capas perderam o brilho, mas bastou abri-las para voltar a ouvir vozes que julgava esquecidas. Os rostos dos colegas apareceram um a um, como se nunca tivessem saído daquela sala.

                Este ano completamos cinquenta anos de vida. Felizmente ainda cá estamos todos. Alguns seguiram caminhos diferentes. Outros ficaram mais perto. Mas todos começámos ali, na mesma sala, diante das mesmas letras, dos mesmos cadernos e dos mesmos sonhos, ainda sem saber o que a vida nos reservaria.

Percebo agora que o título do livro nunca esteve errado. Aquele era, de facto, o meu tesouro.

Não pelas folhas que resistiram ao tempo, mas porque nelas continua guardado o instante em que o mundo deixou de ser apenas ouvido e passou também a poder ser lido e escrito.

                E pensar que tudo começou com uma única palavra.

                Menina.

                Talvez seja esse o verdadeiro milagre da escola. Ensinar-nos que, de palavra em palavra, acabamos por escrever uma vida inteira.


 

27 julho 2026




Os avós que a vida me deu – Alicerces da minha vida.

            Ontem assinalou-se o Dia dos Avós. Uma data que me leva sempre a fazer uma pausa na correria dos dias e a regressar, ainda que por instantes, à infância. Tenho a felicidade de poder dizer que conheci os meus quatro avós, um privilégio que muitos não tiveram. Mas há dois que ocupam um lugar muito especial no meu coração. Os meus avós maternos, Valentina e Adélio.

            São eles que aparecem neste retrato. Uma fotografia tirada numa época em que os retratos eram preparados com cuidado, vestidos domingueiros e um ar sério, quase solene. Mas por detrás daqueles rostos havia muito mais do que a imagem deixa transparecer. Havia amor, dedicação e uma enorme capacidade de fazer da família o centro de tudo.

            Os meus primeiros anos de vida foram passados na casa deles. Viram-me crescer, deram-me colo, ensinaram-me e, sem o saberem, ajudaram a moldar a pessoa que sou hoje. Para mim nunca foram apenas a avó Valentina e o avô Adélio. Eram a "Mãezinha" e o "Paizinho", nomes carinhosos por que todos os netos os tratavam e que ainda hoje me saem naturalmente quando penso neles.

            A Mãezinha partiu cedo demais. Eu tinha apenas sete anos, mas a memória que guardo dela continua surpreendentemente viva. Apesar das limitações físicas que a impediam de andar, estava sempre disponível para mim. Nunca lhe faltava um sorriso, uma palavra meiga ou paciência para as minhas brincadeiras. Gostava especialmente de jogar cartas comigo. Curiosamente, eu ganhava sempre. Hoje percebo que aquelas vitórias eram oferecidas com um amor imenso, embora ela fizesse questão de parecer que lhe tinham custado muito. Era a forma mais bonita de fazer um neto sentir-se campeão.

            O Paizinho era diferente. Mais austero, de poucas palavras, mas de princípios inabaláveis. Foi com ele que aprendi algumas das maiores lições da vida. Ensinou-me o valor da integridade, do respeito pelos outros e da honestidade. Não precisava de grandes discursos. Bastava observá-lo para perceber como um homem deve viver.

            A família era o seu maior património. Fazia questão de reunir todos durante a tradicional matança do porco. E éramos muitos, dez filhos e mais de vinte netos. Eram dias de trabalho, mas também de convívio, de risos e de histórias que hoje fazem parte das nossas melhores recordações.

            Era um homem extremamente poupado. Tinha uma frase que repetia muitas vezes e que nunca esqueci: "Quem guarda o que não presta, tem sempre o que precisa." Na altura parecia apenas um ditado antigo, hoje percebo toda a sabedoria que encerrava.

Mas essa poupança nunca significou falta de generosidade. Aos domingos, quando os netos o visitavam, havia sempre uma guloseima à nossa espera. E no dia do seu aniversário fazia questão de juntar toda a família à mesa e oferecer uma nota de mil escudos (!!!) a cada neto. Era um gesto que nos fazia sentir especiais, pois apesar de ser ele o aniversariante nós é que eramos contemplados com uma prenda!

            Tinha ainda umas mãos extraordinárias. Consertava tudo o que parecia não ter arranjo e era um carpinteiro de enorme habilidade. A oficina era quase um mundo mágico para mim. Deixava-me mexer nas ferramentas, ensinava-me a utilizá-las e transmitia, sem o dizer, o prazer de criar e reparar em vez de deitar fora.

            Também foi um homem muito respeitado pela comunidade. Depois do 25 de Abril, tornou-se o primeiro presidente da Junta de Freguesia da nossa terra, cargo que desempenhou com o mesmo sentido de serviço e honestidade que pautava a sua vida.

            Hoje, ao olhar para este retrato, não vejo apenas os meus avós. Vejo as raízes da minha história. Vejo duas pessoas simples que, sem grandes estudos nem riqueza, me deixaram uma herança muito mais valiosa. O exemplo.

O tempo levou-os, mas não levou aquilo que me ensinaram. Continuam presentes nas pequenas coisas, nos valores que procuro transmitir aos meus filhos e na forma como olho para a família.

            Ao longo da vida vamos percebendo que ninguém se faz sozinho. Somos o resultado das histórias que vivemos, dos exemplos que recebemos e do amor com que fomos criados. Os meus avós deixaram em mim muito mais do que memórias. Deixaram valores, princípios e uma forma de olhar para a vida que ainda hoje me acompanha. Talvez seja por isso que me revejo tanto na canção “Quem me vê” de Luís Trigacheiro quando canta: "(…)Sou um pouco da essência de tanta gente, sou mistura de tanta coisa diferente.(…)" É exatamente isso que sinto. Há muito deles em mim. E enquanto eu guardar estas memórias e procurar viver os valores que me transmitiram, eles continuarão, de alguma forma, a caminhar ao meu lado


 

20 julho 2026


Ainda continuo lá...

Um ano depois

            Há precisamente um ano abri este espaço com o “rabisco” de uma porta.

            À primeira vista era apenas uma velha porta de madeira, marcada pelo tempo, pelo sol, pela chuva e pelas mãos de quem a empurrou durante tantos anos. Para mim, porém, nunca foi apenas uma porta. Era o lugar onde tudo começou.

            Naquele dia escrevi que ainda morava lá.

            Hoje, passados doze meses, quarenta e sete crónicas e mais de vinte mil visitas depois, percebo que essa frase continua a ser tão verdadeira como no primeiro instante em que a escrevi.

            Continuo lá.

            Não na casa de pedra onde nasci, porque as casas envelhecem, fecham portas e aprendem a viver em silêncio. Continuo lá porque há lugares que deixam de existir no mapa para passarem a existir dentro de nós.

            A memória faz esse milagre.

            Basta uma fotografia, um cheiro a madeira antiga ou o ranger imaginário daquela porta para que eu volte a ser a criança que corria pelo quintal sem relógio, que esperava pelos tios aos domingos, que via a cozinha encher-se de vozes e acreditava que as tardes nunca acabariam.

            Aquela porta conheceu tudo de mim antes de eu conhecer o mundo. Viu os primeiros passos, as primeiras quedas, os primeiros medos e os primeiros sonhos. Assistiu a despedidas que, na altura, pareciam pequenas e a regressos que sabiam a festa. Foi testemunha silenciosa da vida de uma família inteira.

            Hoje permanece fechada. Mas as portas nunca se fecham verdadeiramente quando continuam abertas na memória de alguém. Talvez seja essa a razão deste blog existir. Cada texto que aqui publiquei durante este último ano foi uma maneira de voltar a casa. Não para mudar o passado, mas para lhe agradecer. Para lhe dar voz antes que o tempo apagasse os detalhes que fazem uma vida.

            Escrever tornou-se uma forma de abrir aquela porta vezes sem conta.

            E, para minha surpresa, descobri que do outro lado também havia quem quisesse entrar. Pessoas que encontraram nas minhas memórias um pedaço das suas. Porque, no fundo, todos guardamos uma porta antiga, uma rua, um quintal, uma mesa ou um abraço onde continuamos a morar, mesmo depois de termos partido.

            Vinte mil visitas podem parecer apenas um número. Para mim, são as vezes que alguém parou por instantes para caminhar comigo pelas ruas da minha infância.

            Não podia pedir melhor companhia. Por isso hoje volto à mesma imagem. Não por nostalgia, mas porque ela continua a lembrar-me de onde venho. E enquanto souber de onde venho, nunca me perderei completamente.

            Há quem diga que não se pode voltar atrás. Talvez tenham razão. Mas há um lugar onde sempre regressamos. À memória! E é por isso que, um ano depois, posso escrever a mesma frase sem mudar uma única palavra.

            Ainda continuo lá.

 

10 julho 2026


O feriado que ainda está por decretar!


            Passaram dez anos. Parece impossível.

            Naquela noite, Portugal enfrentava a França, em Paris. Perdemos Cristiano Ronaldo cedo e todos pensávamos que o sonho acabava ali. Mas a Seleção fez aquilo que tantas vezes se exige aos portugueses. Resistiu, acreditou e nunca desistiu.

            Até que, aos 109 minutos, um nome que poucos esperavam se tornou eterno.

            Éder.

            Quis o destino que fosse precisamente o mais improvável a escrever a página mais importante da história do futebol português. Éder não era a maior estrela, aliás nem era uma estrela sequer! Não era o jogador de quem todos esperavam o momento decisivo. Mas foi dele o remate que fez explodir um país inteiro de alegria. Talvez seja essa uma das maiores lições que a vida nos dá. Nem sempre são os favoritos que mudam a história. Muitas vezes, são aqueles em quem poucos acreditam, aqueles que trabalham em silêncio e esperam pela sua oportunidade. A vida, tal como o futebol, tem o estranho hábito de surpreender e de mostrar que basta um único momento para transformar um homem comum em inesquecível.

            A frase ficou para a história: "Hoje é feriado cara…!!!" E a verdade é que, dez anos depois, continuo a achar que sim.

            Porque naquele instante não foi apenas uma bola que entrou na baliza. Foi um país inteiro que explodiu de alegria. Um povo habituado a sofrer viu, finalmente, o sonho tornar-se realidade.

            Guardo uma memória muito especial dessa noite. Assim que o árbitro apitou para o fim do jogo, saímos para a rua. Eu, a minha mulher e os meus filhos. Entrámos no carro e fomos para as ruas de Barcelos, a buzinar sem parar, misturados com centenas de outras pessoas que faziam exatamente o mesmo. Bandeiras nas janelas, sorrisos estampados nos rostos, abraços entre desconhecidos, crianças ao colo dos pais, idosos emocionados. Durante algumas horas não havia diferenças, nem preocupações, nem problemas. Havia apenas um sentimento comum. O orgulho de sermos Portugueses.

            Ainda hoje, quando oiço o relato daquele golo ou revejo as imagens, volto imediatamente a essa noite. Consigo quase ouvir novamente as buzinas, sentir a alegria contagiante das ruas e recordar os olhos dos meus filhos, felizes por estarem a viver um momento que sabiam ser histórico.

            Nem todos gostam de futebol. E isso é perfeitamente natural. Mas acredito que aquele dia ultrapassou o desporto. Foi um raro momento em que um país inteiro celebrou unido. Um momento em que nos sentimos capazes de tudo.

            Dez anos passaram. Algumas coisas mudaram. Os miúdos cresceram, a vida seguiu o seu caminho, surgiram novas alegrias e também novas dificuldades. Mas há memórias que o tempo não consegue apagar.

            A noite em que Éder calou a França.

            A noite em que Portugal foi campeão da Europa.

            Por isso, sempre que chegar o dia 10 de julho, faço questão de sorrir ao recordar tudo isto. Porque há datas que pertencem aos livros da História. E há outras que pertencem ao coração.

            Esta pertence aos dois.

            E, convenhamos... o Éder tinha razão.

            Este dia devia mesmo ser feriado.


 

03 julho 2026


O Justiceiro voltou... e trouxe a adolescência com dele!

            Esta semana deparei-me com uma notícia que me fez sorrir de imediato. Uma réplica do famoso carro da série O Justiceiro (Knight Rider) vai estar em exposição num bar perto de minha casa.

            Foi daquelas notícias que nos fazem viajar no tempo sem pedir licença. De repente, deixei de estar em 2026 e voltei aos finais das tardes de domingo da minha adolescência A notícia era pequena, mas bastou ler aquelas poucas linhas para ser transportado quarenta anos para trás. Era quase um ritual. O domingo estava a chegar ao fim, a escola esperava-nos na segunda-feira, mas havia sempre um momento reservado para acompanhar as aventuras de Michael Knight e do inseparável KITT. Naquela altura, não havia streaming, gravações automáticas ou a possibilidade de ver os episódios quando nos apetecesse. Se perdíamos um episódio... estava perdido. Por isso, quando chegava a hora, a televisão era dona da sala e ninguém me arrancava dali.

            Naquela época, tudo aquilo parecia pura ficção científica. Um carro que conduzia sozinho? Impossível. Um homem que falava com o relógio para comunicar com o carro? Ainda mais impossível. Na nossa imaginação, aquele era o futuro. Um futuro distante, quase inalcançável.

            E, no entanto, cá estamos e percebemos que muitas dessas ideias deixaram de ser ficção.

            Os relógios já não servem só para nos indicar as horas, permitem-nos fazer chamadas, responder a mensagens, consultar mapas ou controlar equipamentos em casa. Os carros estão cada vez mais inteligentes, conseguem estacionar praticamente sem ajuda, manter-se na faixa de rodagem e alguns já percorrem quilómetros quase sem intervenção do condutor. Ainda não temos um KITT exatamente igual ao da televisão, mas estamos muito mais perto dele do que alguma vez imaginámos enquanto víamos a série numa televisão que mais parecia uma caixa de madeira com vidro na frente.

            Talvez seja por isso que esta notícia me tenha despertado tantas recordações.

            Não é apenas um carro em exposição. É um símbolo de uma época em que sonhávamos sem limites. Em que acreditávamos que o futuro seria extraordinário. Em que cada nova tecnologia nos deixava de boca aberta.

            Também me fez pensar em como vivíamos a televisão de forma diferente. As séries eram acontecimentos. Esperávamos uma semana inteira por um novo episódio e, no dia seguinte, falava-se dele na escola, no café ou entre amigos. Todos tinham visto a mesma aventura e todos comentavam a mesma cena. Havia um sentimento de partilha que hoje, com centenas de canais e plataformas, se foi perdendo por completo.

            Para nós, miúdos daquela época, não era apenas uma série. Era a capacidade que tinha de nos fazer sonhar. Fazia-nos acreditar que um dia a tecnologia ultrapassaria tudo o que conhecíamos. E isso para um miúdo naqueles anos 80 era fascinante.

            Quando for ver aquela réplica do KITT, sei que vou admirar todos os detalhes. A carroçaria preta impecável, a luz vermelha a deslizar de um lado para o outro na frente do carro, o interior repleto de botões e ecrãs que, na altura, pareciam saídos do longínquo século XXI.

            Mas, acima de tudo, vou estar a olhar para um pedaço da minha própria história.

            Vou lembrar-me das tardes de domingo, da música inesquecível da abertura, da ansiedade de esperar mais uma semana pelo episódio seguinte e das conversas com os amigos sobre as proezas daquele carro "inteligente". Vou recordar uma época em que ainda não existia Internet, telemóveis ou redes sociais, mas em que a imaginação fazia o resto.

            Há quem diga que nunca devemos olhar para trás. Eu discordo. Tal como quando conduzimos, também na vida o retrovisor tem a sua utilidade. As memórias ajudam-nos a perceber de onde vimos, mas é em frente que o futuro nos espera.


 

26 junho 2026

Histórias de um quadro.

            Há objetos que passam anos pendurados numa parede sem que lhes demos grande importância. Depois, um dia, basta voltar a encontrá-los para percebermos que, afinal, guardavam uma parte da nossa história.

            Este quadro acompanhou os meus primeiros anos de vida. Estava na sala da casa dos meus avós, o lugar onde a minha mãe e eu dormíamos enquanto o meu pai trabalhava emigrado em França, como tantos milhares de portugueses naquele tempo. Curiosamente, passadas tantas décadas, a emigração continua a fazer parte da vida de muitas famílias. Mudam os destinos, mudam as circunstâncias, mas a saudade continua a ser a mesma.

            O quadro retrata o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga. Durante anos, para mim, não era um santuário nem um monumento. Era apenas uma paisagem mágica, cheia de escadarias, árvores, igrejas e pequenos recantos onde a minha imaginação passeava sem sair do lugar.

            Lembro-me especialmente dos dias em que estava doente. O apetite era pouco e a paciência da minha mãe era infinita. Sentava-me em frente àquele quadro e, colher após colher, ela inventava histórias inspiradas na imagem. Cada escadaria levava a um castelo encantado. O elevador escondia passageiros misteriosos. As capelas eram casas de personagens que só existiam naquelas tardes. Enquanto eu ouvia, quase sem dar por isso, a sopa desaparecia do prato.

            Na semana passada, muitos anos depois, fui ao Bom Jesus com a minha mulher e a minha filha. Fizemos um piquenique entre as árvores, passeámos sem pressa e deixei-me ficar a olhar para a escadaria que tantas vezes percorri apenas com a imaginação.

            Foi então que me lembrei do quadro.

            Percebi que, antes de conhecer aquele lugar com os meus próprios pés, já o conhecia com os olhos de uma criança. A minha primeira visita ao Bom Jesus não aconteceu em Braga. Aconteceu na sala dos meus avós, sentado à mesa, enquanto a minha mãe fazia o impossível para convencer um miúdo sem apetite a comer mais uma colher.

            Há memórias que vivem em fotografias. Outras vivem em cheiros ou em músicas. As minhas, por vezes, vivem em quadros pendurados numa parede antiga.

            Hoje, quando olho para esta imagem, já não vejo apenas o Santuário do Bom Jesus do Monte. Vejo a dedicação de uma mãe, a ausência necessária de um pai que procurava um futuro melhor, o carinho dos meus avós e uma infância simples, onde a imaginação conseguia transformar uma gravura numa aventura sem fim.

            Talvez seja isso que torna certos objetos tão valiosos. Não pelo que mostram, mas por tudo aquilo que nos devolvem.

 

 

19 junho 2026



Os calendários do México 86.

            Hoje, quando o futebol volta a dominar conversas, jornais e redes sociais, e quando crianças e adultos parecem ter sido novamente "infetados" pela epidemia dos cromos, não consigo evitar uma viagem ao passado. Há memórias que regressam sem aviso. Basta uma fotografia, um cheiro, uma música ou, neste caso, um punhado de pequenos calendários espalhados sobre uma mesa.

            Esta fotografia leva-me diretamente a 1986. Faz agora cerca de quarenta anos. Portugal preparava-se para disputar o seu segundo Campeonato do Mundo de Futebol, vinte anos depois da histórica participação em Inglaterra, e o país voltava a sonhar com os grandes palcos do futebol internacional. Para mim, porém, esse Mundial representou muito mais do que futebol. Foi também o ponto de partida para a descoberta de uma nova paixão, o colecionismo.

            Os protagonistas desta história são estes calendários dedicados ao Mundial do México 86. Pequenos pedaços de cartolina que mostravam jogadores, seleções e imagens que alimentavam a imaginação de qualquer criança apaixonada pelo desporto-rei. Mas o verdadeiro responsável por eu ter começado a guardá-los não foi nenhum jogador famoso nem qualquer campanha publicitária. O "culpado" tinha um nome bem conhecido e já retratado numa crónica neste meu “rabiscos d’estórias”. O meu professor da escola primária, o Sr. Professor Norberto.

            Com uma simplicidade que hoje parece quase ingénua, mas que na época era de uma eficácia extraordinária, o Professor Norberto encontrou uma forma de nos motivar a melhorar a escrita. Os alunos que dessem menos erros nos ditados recebiam calendários como prémio. Não havia troféus nem medalhas. Havia apenas aqueles pequenos cartões coloridos que, para nós, tinham um valor imenso.

            Lembro-me da expectativa antes de cada ditado. O silêncio na sala de aula, a concentração em cada palavra e a esperança de conquistar mais um calendário para a coleção. Cada prémio era uma vitória pessoal. E, sem que eu me apercebesse, aqueles calendários foram-se acumulando, transformando-se na minha primeira coleção.

            O curioso é que, olhando para eles hoje, percebo que guardam muito mais do que imagens do Mundial do México. Guardam recordações de uma escola diferente, de professores que sabiam despertar o entusiasmo dos alunos com recursos simples, de uma infância em que as pequenas conquistas tinham um sabor especial. Guardam também a memória de um país que voltava a sonhar com a Seleção Nacional e de um rapaz que descobria o prazer de colecionar, organizar e preservar objetos que contavam histórias.

            Passaram quatro décadas. Os jogadores retratados nestes calendários já pertencem à história do futebol e algumas das seleções aqui representadas pertencem, elas próprias, a países que já desapareceram dos mapas. A União Soviética e a R.F.A. existem apenas na memória e nos livros de História. O Mundial de 1986 ficou para trás, tal como um mundo muito diferente daquele que conhecemos hoje. Mas estes pequenos calendários continuam aqui, resistentes ao tempo, como testemunhas silenciosas de uma época feliz, preservando não apenas recordações desportivas, mas também a memória de nações, bandeiras e momentos que o passar dos anos transformou em História.

            E sempre que o mundo volta a girar em torno de um Campeonato do Mundo, entre álbuns de cromos, trocas de repetidos e conversas sobre futebol, volto a lembrar-me do Professor Norberto, dos ditados da escola primária e daqueles calendários que, sem eu saber, marcaram o início de uma paixão que ainda hoje me acompanha.

            Às vezes, os grandes hobbies da nossa vida começam precisamente assim. Com um simples prémio escolar entregue pelas mãos de um professor que soube transformar palavras bem escritas em memórias para toda a vida.

 

09 junho 2026


Hoje faço 50 anos!

            Metade de um século. Escrever esta frase faz-me sorrir, porque durante muitos anos essa idade parecia tão distante que quase pertencia a outra vida. E, de certa forma, pertence mesmo.

            Ao olhar para trás, vejo muito mais do que datas, fotografias ou acontecimentos. Vejo pessoas que deixaram marcas, caminhos que escolhi e outros que deixei por percorrer. Vejo erros que, na altura, pareciam derrotas e que acabaram por se transformar em lições valiosas. Vejo sonhos concretizados e outros que mudaram de forma ao longo do tempo.

            Aos 50 anos percebo que a vida não é uma corrida para chegar primeiro a algum lugar. É uma coleção de momentos, de encontros, de despedidas, de recomeços e de pequenas alegrias que muitas vezes só reconhecemos quando olhamos para trás.

            Aprendi que o tempo é o bem mais precioso que possuímos. Aprendi a valorizar mais as pessoas do que as coisas, mais as experiências do que as aparências. Aprendi que nem tudo está sob o nosso controlo e que aceitar isso traz uma paz que a juventude raramente conhece.

            Também aprendi que nunca é tarde para começar algo novo. A idade não fecha portas, apenas nos ensina a escolher melhor quais vale a pena abrir.

            Hoje agradeço. À família, aos amigos, aos que ficaram e aos que partiram deixando ensinamentos. Agradeço pelos dias fáceis e pelos difíceis, porque todos contribuíram para a pessoa que sou agora.

            Mas quando olho para esta fotografia, vejo mais do que um retrato de infância. Vejo o menino que sonhava sem limites, que descobria o mundo com espanto e que acreditava que tudo era possível.

            Esse menino nunca desapareceu. Continua aqui em mim. Continua a emocionar-se com as pequenas coisas, a sonhar novos caminhos, a rir, a sorrir, a aprender e a acreditar na beleza da vida.

            Aos 50 anos, carrego comigo a experiência do homem que me tornei, mas também a esperança e a vontade de viver daquele menino que um dia fui e que teimosamente continuo a querer ser.

            Porque envelhecer não é perder a criança que existe em nós. É aprender a caminhar com ela, valorizá-la e permitir que continue a iluminar o caminho.

            Os 50 anos não são um ponto de chegada. São apenas mais uma página de uma história que ainda está a ser escrita.

            E que privilégio é poder continuar a escrevê-la.

            Obrigado Vida!


 

05 junho 2026


A Caixa de Sortido do Cavalinho

            Hoje, durante a pausa da manhã no trabalho, aconteceu uma daquelas coisas simples que nos transportam para longe sem precisarmos de sair do lugar.

            Um dos meus colegas estava a comer umas bolachas. Nada de extraordinário, à primeira vista. Mas bastou olhar para elas para que uma porta se abrisse na minha memória. De repente, já não estava na sala de convívio da empresa. Estava de volta à minha infância.

            Lembrei-me imediatamente do meu avô.

            O meu avô tinha sempre uma caixa de sortido que guardava para os netos. Era quase uma tradição sagrada das tardes de domingo. Nessa altura, eu ainda vivia em casa dele e, como era habitual, os meus primos apareciam para a visita semanal. Eram muitos. A casa enchia-se de vozes, gargalhadas e da energia inesgotável que só as crianças conseguem trazer.

            Primeiro, reuníamo-nos em frente à televisão. Era uma televisão a preto e branco, sem comando, bem diferente das que hoje ocupam as nossas salas. Ali assistíamos aos desenhos animados da Disney, completamente fascinados por um mundo que, embora sem cor no ecrã, era colorido na nossa imaginação.

Depois vinham as brincadeiras. Corríamos pelo quintal, inventávamos aventuras, discutíamos regras que ninguém cumpria e fazíamos as pazes minutos depois. As tardes pareciam intermináveis.

            Mas havia um momento que todos aguardávamos. Quando a hora da despedida se aproximava, surgia o meu avô.

            Nas mãos trazia a famosa caixa de sortido. Ainda hoje a consigo ver com uma nitidez impressionante. Era uma caixa vermelha, decorada com uma pintura que representava uma cena de caça, com cavalos, cavaleiros e cães. Talvez fosse apenas uma embalagem comum para os adultos, mas para nós tinha algo de mágico. Era a caixa das bolachas do cavalinho como nós lhe chamávamos.

            A tampa abria-se e revelava um pequeno tesouro. Bolachas de todas as formas e sabores. Cada um escolhia a sua favorita, enquanto o avô se certificava de que ninguém ficava sem a sua parte. Não era apenas a distribuição das bolachas. Era um gesto de carinho. Uma forma simples de nos fazer sentir especiais.

            Curiosamente, não me recordo do sabor exato de muitas dessas bolachas. O que ficou guardado foi algo muito mais importante. A imagem do meu avô, o convívio dos primos, as tardes de domingo e a felicidade genuína daqueles momentos.

É estranho como a memória funciona. Às vezes, anos e anos de vida ficam adormecidos num canto qualquer da nossa mente. Depois basta uma simples bolacha, numa pausa de trabalho, para trazer tudo de volta.

            Enquanto o meu colega terminava as suas bolachas, eu regressava devagar ao presente. Sorri para mim mesmo. Há memórias que não precisam de fotografias para sobreviver. Basta o sabor de uma bolacha para que voltem a abrir-se, como a tampa daquela velha caixa vermelha nas tardes de domingo da minha infância.

 

01 junho 2026


O Dia da Criança Mora na Memória.

            Há datas que passam pelo calendário como qualquer outra. E há aquelas que chegam carregadas de lembranças, despertando cheiros, sons e imagens que pareciam adormecidos. O Dia da Criança é uma dessas datas.

            Quando penso na infância, não me recordo dos brinquedos mais caros nem dos presentes mais sofisticados. O que permanece vivo na memória são os pequenos momentos. As brincadeiras na rua até ao anoitecer, as corridas sem destino, os joelhos esfolados e as gargalhadas partilhadas com amigos que pareciam ser companheiros para toda a vida.

            Naquele tempo, um pedaço de papel transformava-se num avião, uma caixa de cartão virava castelo e qualquer quintal era um universo inteiro por descobrir. Havia uma magia especial na simplicidade das coisas. A imaginação fazia o trabalho que hoje tantas tecnologias tentam substituir.

            O Dia da Criança tinha um significado simples, mas especial. Naqueles tempos, a celebração acontecia apenas na escola. As aulas davam lugar a brincadeiras, jogos e momentos de convívio que todos aguardávamos com ansiedade. Não esperávamos presentes nem grandes surpresas. Bastava a oportunidade de viver um dia diferente, rodeados de amigos e da despreocupação própria da infância. Era uma pequena pausa na rotina que, para nós, tinha um sabor inesquecível.

            Com o passar dos anos, crescemos. As responsabilidades ocuparam o espaço das brincadeiras e os compromissos substituíram parte da espontaneidade que caracterizava a infância. No entanto, existe sempre uma criança dentro de cada adulto. Ela revela-se quando folheamos um álbum de fotografias antigas, quando contamos histórias dos tempos de escola ou quando sorrimos ao recordar aventuras que pareciam grandiosas aos nossos olhos de criança.

            Hoje, o Dia da Criança tem um significado diferente. Já não o vivemos como protagonistas, mas como testemunhas da alegria dos mais novos. Muitos de nós temos agora filhos ou netos e encontramos um prazer especial em vê-los sorrir, brincar e descobrir o mundo com a mesma curiosidade que um dia foi nossa. Ao acompanhá-los nas suas comemorações, revivemos um pouco da nossa própria infância e percebemos que as memórias mais bonitas não se perdem, apenas ganham novas formas.

            Talvez seja essa a verdadeira magia desta data. A capacidade de unir gerações através de momentos simples, feitos de carinho, atenção e presença. E, enquanto observamos os nossos filhos ou netos celebrar o Dia da Criança, descobrimos que a melhor forma de honrar as nossas memórias é ajudar a criar novas recordações que eles guardarão para toda a vida.

            Neste Dia da Criança, deixo também um pequeno desafio a todos os meus leitores. Nunca deixem morrer a criança que existe dentro de vós. Continuem a cultivar a curiosidade, a capacidade de sonhar, o gosto pelas coisas simples e a alegria de sorrir sem motivo especial. A vida torna-se mais leve quando conservamos um pouco desse olhar inocente e genuíno que tínhamos em criança. E, acima de tudo, nunca se esqueçam de que também já foram crianças. As memórias dessa fase da vida são parte da nossa história e ajudam-nos a compreender quem somos hoje. Guardá-las com carinho é uma forma de manter viva a essência que o tempo nunca deveria apagar.


 

22 maio 2026


Memórias da fonte da aldeia.

 

            Há lugares que guardam silêncio há tantos anos que parecem já fazer parte da própria montanha. Esta velha mina de água, escondida entre o musgo e a pedra húmida dos montes da minha aldeia, é um desses lugares. Olho para ela e imagino as mãos calejadas dos homens de outros tempos, dobrados sobre a rocha dura, escavando pacientemente a terra com ferramentas rudimentares, guiados apenas pela esperança de encontrar água. Não trabalhavam para si apenas. Trabalhavam para todos.

            Ninguém sabe ao certo quantos anos tem esta mina. Talvez porque certas obras deixam de pertencer ao tempo e passam a pertencer à memória coletiva. Foi aberta numa época em que não existia água canalizada nas casas, quando cada gota tinha um valor quase sagrado. A água que daqui nascia seguia por canais e regos, atravessava campos, alimentava culturas, matava a sede dos animais e sustentava vidas inteiras. Era o coração escondido da aldeia.

            Hoje, habituados à facilidade de abrir uma torneira, esquecemo-nos muitas vezes do esforço que existia por detrás de algo tão simples. Mas estes homens sabiam que a sobrevivência de uma comunidade dependia da entreajuda e do bem comum. Escavavam centenas de metros montanha adentro, em condições duras, húmidas e escuras, para trazer à superfície aquilo que consideravam o bem mais precioso de todos. A água, fonte de vida.

            Há qualquer coisa de profundamente humano nestas minas antigas. Não têm o brilho das grandes obras nem o reconhecimento dos monumentos famosos, mas carregam dentro delas a dignidade silenciosa de quem trabalhou para deixar um futuro melhor aos outros. Cada pedra molhada parece guardar ecos de vozes antigas, conversas perdidas no interior da terra, passos lentos de homens cansados que regressavam a casa sabendo que tinham cumprido a sua missão.

            Talvez seja por isso que gosto tanto de voltar a este lugar. Porque aqui ainda se sente a humildade de um tempo em que as pessoas tinham pouco, mas compreendiam o valor de tudo. E entre o verde do musgo, o murmúrio da água e a escuridão da mina, permanece viva a memória daqueles que fizeram da terra um gesto de partilha.


 

15 maio 2026


O silêncio do velho tear.

 

            Havia um tempo em que as casas respiravam trabalho desde o nascer do sol até ao seu crepúsculo. As mãos nunca estavam quietas e cada canto guardava uma tarefa, uma obrigação, uma história. Há objetos que envelhecem connosco. Ficam esquecidos em cantos escuros, cobertos de pó e silêncio, mas continuam vivos dentro da nossa memória. Este velho tear é um deles. Quando olho para ele, cansado pelo peso dos anos, coberto de pó e silêncio, custa-me acreditar que daqui nasceram tantas mantas cheias de vida, calor e dedicação.

            As minhas tias ainda eram meninas quando aprenderam a dominar este emaranhado de paus, tábuas, pedais e fios. Para quem vê agora, parece impossível compreender como dali podia sair alguma coisa bonita. Mas saía. E saía arte. Entre o ranger da madeira e o bater ritmado do tear, iam crescendo mantas grossas, muitas vezes em tons coloridos, feitas para vender e ajudar nas despesas da casa, mas também para aquecer as camas antigas, onde os colchões ainda eram de palha e os invernos pareciam mais frios do que hoje.

            Naquele tempo, a vida nas aldeias não dava espaço para preguiças nem grandes sonhos. As raparigas aprendiam cedo o peso das responsabilidades. Teciam, lavravam, tratavam dos animais, cozinhavam e ainda encontravam maneira de cantar enquanto lidavam com essas tarefas. O tear fazia parte desse mundo duro, mas também simples e verdadeiro.

            Hoje resta esta estrutura quase em ruínas, esquecida num canto, como se o tempo tivesse levado consigo o saber das pessoas que lhe davam vida. Já ninguém sabe ao certo como funcionava este engenho de outros tempos. As mãos capazes de entender cada fio, cada nó e cada movimento foram desaparecendo devagar, levando consigo um conhecimento que nunca chegou aos livros.

            Ainda assim, algumas dessas mantas sobrevivem em casa dos meus pais. Sempre que lhes toco, sinto que não são apenas cobertores antigos. São pedaços de memória tecidos fio a fio. São o esforço silencioso de mulheres da minha família que trabalharam toda a vida sem nunca esperar reconhecimento. Eram saberes que passavam naturalmente de geração em geração, sem escolas nem manuais. Aprendia-se olhando, repetindo e errando. E saiam obras de arte feitas sem assinatura.

            Na minha aldeia, este tear não era raro. Em muitas casas de lavradores existiam engenhos parecidas, porque quase tudo se fazia em casa, com o que havia e com o saber passado de geração em geração. Hoje sobra o silêncio, a madeira gasta e uma certa tristeza por ver desaparecer um mundo inteiro que parecia eterno.

            Talvez seja isso a memória. Tentar salvar, através das palavras, aquilo que o tempo insiste em destruir.


 

08 maio 2026


O Professor que nos ensinou mais do que a escola!

            Uma conversa recente com um amigo de infância, daqueles amigos que o tempo afasta mas nunca apaga, levou-nos numa viagem inesperada até aos nossos primeiros anos de escola. Entre memórias soltas, nomes esquecidos e episódios que ainda nos fazem rir, houve uma figura que surgiu naturalmente na conversa, quase como se ainda estivesse ali diante de nós. O nosso professor Norberto.

            Lembro-me bem do espanto dos adultos quando souberam que o novo professor da escola primária era um homem. Até então, a escola da aldeia só conhecera professoras, e a novidade despertou alguma desconfiança na comunidade. Mas bastaram poucas semanas para tudo mudar. Os pais começaram a reparar no entusiasmo com que íamos para a escola, quase ansiosos que chegasse a manhã seguinte. E isso dizia tudo.

            O professor Norberto era um homem alto, de barba, rosto de faces rosadas e voz calma. Fumava, algo muito comum naquele tempo, mas curiosamente fazia sempre questão de nos dizer para nunca seguirmos esse exemplo. Havia nisso uma honestidade simples que ainda hoje recordo com simpatia.

            Aparecia sempre no seu inseparável Citroën 2 Cavalos, um carro tão peculiar quanto ele. Pelo caminho, dava boleia aos miúdos que encontrava a pé. Às vezes o carro teimava em não pegar e lá íamos nós, uma pequena multidão de crianças felizes, empurrando o carro estrada fora entre gargalhadas e gritos de incentivo. Hoje penso nisso e percebo como eram simples as coisas que nos faziam felizes.

            Tinha métodos muito à frente do seu tempo. Enquanto outras salas ainda conheciam a régua como castigo, ele preferia premiar em vez de punir. Não havia medo nas suas aulas, havia motivação. Se nos portássemos bem e a aula corresse como planeado, levava-nos para o recreio jogar futebol com ele. E jogava a sério, com entusiasmo de miúdo. Algumas vezes era preciso as outras professoras irem avisá-lo de que o recreio já tinha acabado, tal era a animação do jogo.

Quando percebeu que a turma dava demasiados erros nos ditados, inventou outra forma de nos incentivar. Passou a oferecer pequenos calendários de bolso aos alunos com menos erros. Eram calendários do Mundial de Futebol do México de 1986, um acontecimento especial porque contava com a presença de Portugal apenas pela segunda vez. Sem saber, o professor Norberto deu início à minha primeira coleção.

            Dizia-nos muitas vezes uma frase que ainda hoje me acompanha: -“Escreve bem quem muito lê.” Talvez tenha sido aí que percebi que os livros podiam abrir portas invisíveis. Também nunca esquecerei o dia em que nos levou ao pavilhão municipal para vermos hóquei em patins. Em Barcelos era uma modalidade forte, mas para nós, miúdos da aldeia, era praticamente um mundo desconhecido. Tudo aquilo parecia enorme. O recinto, a velocidade do jogo, o barulho dos patins no chão. Ele tinha essa capacidade rara de nos mostrar que havia sempre mais mundo para lá da nossa aldeia.

            Foram quatro anos, da 1.ª à 4.ª classe como se dizia antigamente, feitos de aprendizagem, descobertas e das primeiras amizades que a vida nos oferece. Mas, acima de tudo, foram anos marcados por um homem que deixou uma marca numa geração inteira e, arrisco dizer, em toda a comunidade.

            Posso afirmar sem hesitar que foi o melhor professor que tive.

            E talvez por isso me emocione sempre que passo pela rotunda dedicada ao “Professor Primário”, numa das entradas de Barcelos (foto acima). Uma justa e bonita homenagem da minha cidade a todos aqueles que dedicam a vida à nobre missão de ensinar. Porque me lembra que algumas das maiores mudanças na nossa vida foram feitas por pessoas que nunca precisaram de levantar a voz para serem inesquecíveis.

            Gostava muito de voltar a encontrar o professor Norberto. Nem que fosse apenas para lhe dizer aquilo que talvez nunca lhe tenhamos dito na altura:

            - OBRIGADO!