25 setembro 2026

                      Foto gentilmente cedida pela autora 
                           do blog "O cantinho da Janita"


O ninho e as coisas que ficam!

            Há fotografias que ficam guardadas durante algum tempo, à espera do momento certo para encontrarem uma história que as acompanhe. Esta é uma delas.

            Há já algum tempo, encontrei num blogue amigo a fotografia de um ninho de pássaros. Gostei dela logo à primeira vista, talvez porque um ninho seja daquelas coisas simples que dizem muito sem precisarem de palavras. Pedi à autora autorização para, um dia, utilizar a fotografia numa das minhas crónicas e ela, com a generosidade de quem gosta de partilhar aquilo que vai encontrando pelo caminho, disse-me que sim. A fotografia ficou guardada e o tempo foi passando.

            Entretanto, fiz umas pequenas “férias” da blogosfera. Quando voltei a percorrer alguns dos blogues que costumava visitar, reparei que aquele “cantinho” amigo também tinha ficado em silêncio. A autora informava que tinha interrompido, por tempo indeterminado, a sua participação neste mundo dos blogues.

            Fiquei com a fotografia e, curiosamente, fiquei também a pensar no ninho. Talvez porque um ninho vazio tenha muito mais histórias dentro dele do que aquilo que os nossos olhos conseguem ver.

            Foi assim que a imagem me levou para muito longe no tempo, até aos meus tempos de menino, quando andar aos ninhos fazia parte das aventuras da infância.

            Naqueles anos não havia telemóveis, tablets nem consolas para nos prenderem dentro de casa. Bastava sair pela porta e havia um mundo inteiro à nossa espera. Os campos, os muros, as árvores, as silvas, os caminhos de terra e os pequenos bosques eram o nosso recreio, e os pássaros faziam naturalmente parte dessa paisagem.

            Andávamos aos ninhos com uma curiosidade que hoje me faz sorrir. Um dos amigos dizia ter visto um melro entrar numa determinada árvore, outro garantia conhecer um ninho escondido no meio das silvas e, pouco depois, lá íamos todos, tentando descobrir o nosso pequeno tesouro. Trepar a uma árvore era uma aventura e encontrar um ninho entre os ramos dava-nos aquela sensação de termos descoberto um segredo que a natureza guardara especialmente para nós.

            Por vezes encontrávamos apenas um ninho vazio. Outras vezes havia ovos pequeninos, tão perfeitos que pareciam feitos à mão. Quando tínhamos mais sorte, lá estavam as crias, ainda sem penas e de bico aberto, à espera que a mãe regressasse com alimento.

            Hoje, olhando para trás, percebo que nem sempre éramos os visitantes mais cuidadosos. Fazíamos aquilo que as crianças daqueles tempos faziam, muitas vezes sem compreender que aquela pequena construção de ramos, ervas e musgo era, para um pássaro, aquilo que uma casa representa para nós.

            Eram outros tempos, com menos conhecimento e, sobretudo, com menos consciência do impacto das nossas brincadeiras. A natureza estava ali tão perto que quase parecia fazer parte da nossa casa. Aprendíamos com ela sem nos darmos conta de que estávamos a aprender.

            Hoje já não vejo crianças a andar aos ninhos como nós andávamos, e talvez seja melhor assim. Os tempos mudaram, as crianças têm outras formas de brincar e felizmente também aprendemos muito mais sobre a importância de respeitar a vida selvagem. Ainda assim, quando penso nesses anos, tenho por vezes a sensação de que perdemos alguma coisa pelo caminho. Aquela capacidade de ficar simplesmente a olhar para uma árvore porque ouvimos um pássaro cantar, de reparar num melro a saltitar pela erva, de distinguir ao longe o voo de uma rola ou de reconhecer um gaio pelo seu chamamento.

            Curiosamente, tenho a impressão de que hoje vejo mais melros, rolas, gaios e pegas do que via antigamente. Talvez algumas destas espécies tenham encontrado melhores condições para viver por aqui. Ou talvez seja apenas a memória de um menino que guarda os campos de outros tempos com outras cores, outros sons e outra dimensão.

            A memória também tem destas coisas. Às vezes acrescenta pássaros onde eles talvez não existissem tantos e outras vezes apaga aqueles que estavam mesmo lá. Mas há uma coisa de que tenho a certeza, antigamente olhávamos muito mais para cima. Hoje olhamos muito mais para baixo.

            Talvez por isso esta fotografia me tenha ficado tanto tempo na cabeça.

            Um simples ninho, construído pacientemente com pequenos ramos, ervas e tudo aquilo que o pássaro foi encontrando pelo caminho, é uma pequena obra de engenharia da natureza. Com materiais aparentemente sem valor, constrói-se uma casa onde haverá ovos, crias, alimento e, um dia, asas prontas para partir.

            Também os blogues são um pouco assim. Vamos juntando palavras, fotografias, recordações, pensamentos e pequenos pedaços da nossa vida e, sem grande consciência disso, acabamos por construir um lugar onde outros podem entrar, ler, deixar uma palavra e seguir caminho.

            Depois, um dia, paramos. Às vezes porque precisamos, outras porque a vida muda e, noutras ocasiões, simplesmente porque já não encontramos as palavras certas para continuar. O blogue fica então em silêncio, como um ninho depois de as crias terem ganho asas.

            Mas um ninho vazio não significa necessariamente abandono. Significa que alguma coisa aconteceu ali. Houve vida, houve movimento, houve alguém que construiu, cuidou e partiu. Talvez aconteça o mesmo com os blogues. Mesmo quando ficam silenciosos, continuam a guardar aquilo que lá deixámos e há sempre alguém que, anos depois, volta a passar por lá e encontra uma fotografia, um texto ou uma frase que lhe desperta uma memória.

            Foi o que me aconteceu com esta fotografia.

            Um ninho que encontrei há tempos num blogue amigo acabou por me levar de volta aos campos da minha infância, aos amigos, às árvores e às aventuras de quando andar aos ninhos era uma coisa tão natural como hoje pegar num telemóvel. E acabou também por me lembrar que, neste mundo dos blogues, há pessoas que entram nas nossas vidas sem nunca termos apertado a mão umas às outras. Conhecemo-nos através das palavras, partilhamos memórias e trocamos comentários, criando laços que o tempo e a distância nem sempre conseguem apagar.

            Quando alguém decide fazer uma pausa, alguma coisa dessa pessoa continua por cá. Ficam as palavras, ficam as fotografias e ficam as memórias de quem por ali passou. Neste caso, ficou também um ninho que esperei algum tempo para utilizar. Talvez tenha sido preciso esperar até que a sua história encontrasse a minha. E quem sabe se, um dia, aquela porta não volta a abrir-se. A natureza ensina-nos que o silêncio também faz parte da vida e que um ninho aparentemente vazio pode voltar a ter movimento quando menos esperamos.

            Por isso, não digo adeus à minha amiga da blogosfera, uma das primeiras seguidoras deste meu espaço. Prefiro pensar que ela apenas voou por algum tempo para outro lugar. E que, quando entender regressar, encontrará o ninho no mesmo sítio, à espera de novas histórias.


 

18 setembro 2026



Vindimas. A teimosia de quem não deixa morrer as tradições.

             Há tradições que teimam em não morrer. Mesmo quando o tempo passa, os hábitos mudam e as dificuldades se acumulam, há quem continue a fazer as coisas como aprendeu, como viu fazer aos seus pais e avós. As vindimas são uma dessas tradições. Uma teimosia bonita, feita de trabalho, memórias e amor à terra.

            Longe vão os tempos em que, por esta altura, os campos se enchiam de gente. As vinhas transformavam-se num verdadeiro formigueiro humano, onde cada mão era preciosa e cada cacho de uvas representava o resultado de meses de trabalho e dedicação. Era tempo de vindimar e de preparar aquele precioso néctar que tanto orgulho dava aos lavradores.

            Naqueles tempos, ninguém ficava de fora. Nem mesmo as crianças, que também eram recrutadas para a dura tarefa. Aos mais pequenos, que ainda não tinham tamanho para chegar aos cachos, era-lhes atribuída uma missão muito especial. Apanhar os bagos de uva que caíam ao chão.

            E, para incentivar os pequenos vindimadores, havia sempre uma história que se contava:

            “Uma vez uma velhinha encheu uma pipa de vinho só com os bagos!”

            Nunca soube se tal velhinha existiu ou se alguma pipa chegou a ser enchida daquela maneira. Mas a verdade é que a história cumpria a sua missão. Lá continuávamos nós, de cabeça baixa, à procura de cada bago perdido, convencidos de que também estávamos a contribuir para encher mais uma pipa de vinho.

            Hoje, os tempos são outros. As pessoas têm outros ritmos, outras profissões e outras prioridades. As vindimas já não mobilizam aldeias inteiras, nem se vê aquela azáfama de antigamente. Por esses campos e vinhas, encontram-se sobretudo os que resistem.

            Os meus pais, já na casa dos oitenta anos, continuam a fazer as vindimas e a fabricar o seu próprio vinho. Ano após ano, lá estão eles, a repetir os gestos que aprenderam com os seus antepassados, como se o tempo não tivesse passado.

            É impossível não sentir admiração por esta persistência. Mas também alguma tristeza ao perceber que são, cada vez mais, os idosos que mantêm viva esta tradição. Aqueles que já carregam muitas vindimas nas costas e que, apesar dos anos e do cansaço, continuam a cuidar da terra e a colher os seus frutos.

Não sei quantas vindimas mais os meus pais conseguirão fazer. Mas sei que, enquanto continuarem, haverá sempre qualquer coisa de profundamente nosso a acontecer naqueles campos.

            E talvez um dia alguém volte a contar às crianças a história da velhinha que encheu uma pipa de vinho só com os bagos caídos no chão.

            Talvez já ninguém acredite. Mas espero que alguém lhes explique que houve um tempo em que cada bago contava, cada mão fazia falta e cada vindima era muito mais do que uma colheita.

            Era a vida da aldeia a acontecer.

            Porque há tradições que não sobrevivem por serem fáceis de manter. Sobrevivem porque há quem não consiga deixar de as amar.


 

11 setembro 2026


 

11 de Setembro — Entre a memória e a esperança


            Depois de uma pausa motivada pelas férias, regresso a este espaço de memórias. E não encontrei melhor forma de voltar do que recordar um daqueles dias que, apesar de terem acontecido há tantos anos, continuam presentes na memória de todos nós.

            Há dias que passam. Há outros que ficam. O 11 de Setembro é, sem dúvida, um deles.

            Ainda hoje me lembro do ar aterrador do meu colega quando entrou no escritório. Trazia no rosto uma expressão de perplexidade, quase de incredulidade, e disse-nos, meio atordoado: “Estão a atacar os Estados Unidos.”

            Como era possível? Como podia estar a acontecer um ataque daquela dimensão? Pouco depois chegaram as imagens. As torres, o fumo, os aviões, as pessoas a correr, a confusão. E nós, diante dos ecrãs, tentávamos compreender aquilo que estávamos a ver.

            O medo instalou-se. Pela primeira vez, para muitos de nós, a sensação de segurança que dávamos como garantida pareceu desaparecer. O mundo que conhecíamos parecia ter mudado diante dos nossos olhos. Viajar, entrar num aeroporto ou ver um avião no céu, pequenos gestos do quotidiano passaram a ser vistos de outra maneira.

            Mas talvez seja isso que torna o 11 de Setembro tão marcante. Não são apenas as imagens que ficaram nos livros de História. Somos nós que continuamos a carregar aquela memória.

            Todos nos lembramos onde estávamos, o que estávamos a fazer, com quem estávamos e o que pensamos naquele momento. Eu lembro-me daquele escritório, do rosto assustado do meu colega e da sensação de que, a partir dali, nunca mais olharíamos para o mundo da mesma forma.

            Passaram-se anos. A vida continuou, como sempre continua. Vieram outras preocupações, outros acontecimentos, momentos felizes e momentos difíceis. Mas há memórias que não envelhecem. Basta chegar o 11 de Setembro para que regressem, quase intactas.

            E há ainda uma razão muito pessoal para esta data ter um significado especial para mim No meu caso, quero lembrar-me que, logo depois de um dos dias mais sombrios que guardo na memória, a vida quis oferecer-me uma das suas maiores razões para sorrir.

            A minha filha.

            Para mim o 11 de Setembro é a véspera do aniversário da minha filha.

            É curioso pensar que, depois de um dos dias mais sombrios que guardamos na memória, chega o dia seguinte para nos lembrar precisamente do contrário.

             A Vida.

            O nascimento de uma criança traz sempre esperança. É um novo começo, uma promessa de futuro, uma razão para acreditar que, apesar de todas as tempestades, haverá sempre um novo dia.

            Por isso, quando o 11 de Setembro regressa ao calendário, não quero lembrar apenas o medo e a tragédia. Quero lembrar também aquilo que veio depois. A vida que continuou, os sonhos que nasceram e a esperança que nunca devemos perder.

            Amanhã, quando celebrar o aniversário da minha filha, vou lembrar-me inevitavelmente deste dia. Mas a minha memória não terminará no medo.

            Terminará num sorriso.

            Porque depois da tempestade vem a bonança. E, por vezes, a bonança chega da forma mais bonita que existe. O nascimento de uma criança.

            Porque, apesar de todas as tragédias, de todas as incertezas e de tudo aquilo que não podemos controlar, há uma coisa que a vida nos continua a ensinar:

            - Enquanto houver vida, haverá sempre esperança.

14 agosto 2026


Férias para Repor Memórias


            Chegou aquele momento do ano em que até as memórias precisam de férias.

            Depois de tantas histórias partilhadas, de tantas lembranças revisitadas e de tantos momentos guardados neste cantinho, sinto que está na hora de fazer uma pequena pausa. Vou de férias, não para esquecer as memórias, mas precisamente para repor o stock delas!

            Afinal, um blog de memórias vive de experiências, de lugares, de encontros, de pequenos detalhes e daqueles momentos simples que, mais tarde, se transformam em histórias que gostamos de recordar. Por isso, estas férias serão também uma oportunidade para viver novas experiências, descobrir novos lugares e, quem sabe, trazer comigo algumas memórias fresquinhas para partilhar quando regressar.

            Mas não pensem que vou desaparecer por completo! Mesmo de férias, continuarei a fazer as minhas visitas, a espreitar os blogs amigos, a ler as vossas histórias e a deixar, sempre que possível, uma palavra amiga. Porque as boas amizades não entram de férias.

            A todos os visitantes deste meu cantinho de memórias, desejo umas excelentes férias, cheias de sol, alegria, descanso, passeios, encontros e muitos momentos bonitos para guardar no coração.

            Eu vou ali carregar as baterias… e, sobretudo, encher a mala de novas memórias.

            Até breve, com novas histórias para contar!


 

07 agosto 2026


O meu tesouro!

                Enquanto preparava o convívio que vai reunir os colegas da minha escola primária, cinquenta anos depois de termos começado a escrever a nossa história, abri uma caixa antiga. Procurava fotografias, talvez um caderno, quem sabe um boletim escolar. Encontrei muito mais do que isso.

                Encontrei o meu primeiro tesouro.

                Chamava-se, precisamente, "O Meu Tesouro". Era o livro da primeira classe. A capa, já gasta pelo tempo, guardava um baú aberto cheio de moedas. Na altura, eu pensava que o tesouro eram aquelas tampinhas douradas desenhadas na ilustração. Hoje percebo que o verdadeiro tesouro estava escondido entre as páginas.

                Folheei-o devagar, quase com receio de acordar o menino que fui. E logo na primeira lição apareceu ela: "menina".

                Foi a primeira palavra que aprendi a escrever.

                "Me... ni... na."

                Quantas vezes terei repetido aquelas sílabas? Quantas vezes o saudoso professor Norberto nos pediu para as copiar, uma linha atrás da outra, até a mão aprender o caminho que os olhos ainda procuravam?

                Naquela página não está apenas uma palavra. Está o primeiro passo de uma viagem que ainda hoje continua. Porque aprender a escrever não foi apenas juntar letras. Foi descobrir que as palavras nos permitem guardar pessoas, lugares, alegrias e saudades. Foi ali que começou, sem que eu soubesse, a possibilidade de um dia escrever estas memórias.

                Olho para aquela menina desenhada e imagino a sala de aula. As carteiras de madeira, o cheiro dos livros novos misturado com o do giz, os lápis cuidadosamente afiados, o silêncio interrompido pela voz do professor e pelas gargalhadas que teimavam em escapar.

                É curioso como um pedaço de papel consegue vencer quase meio século. As páginas amareleceram, as capas perderam o brilho, mas bastou abri-las para voltar a ouvir vozes que julgava esquecidas. Os rostos dos colegas apareceram um a um, como se nunca tivessem saído daquela sala.

                Este ano completamos cinquenta anos de vida. Felizmente ainda cá estamos todos. Alguns seguiram caminhos diferentes. Outros ficaram mais perto. Mas todos começámos ali, na mesma sala, diante das mesmas letras, dos mesmos cadernos e dos mesmos sonhos, ainda sem saber o que a vida nos reservaria.

Percebo agora que o título do livro nunca esteve errado. Aquele era, de facto, o meu tesouro.

Não pelas folhas que resistiram ao tempo, mas porque nelas continua guardado o instante em que o mundo deixou de ser apenas ouvido e passou também a poder ser lido e escrito.

                E pensar que tudo começou com uma única palavra.

                Menina.

                Talvez seja esse o verdadeiro milagre da escola. Ensinar-nos que, de palavra em palavra, acabamos por escrever uma vida inteira.


 

27 julho 2026




Os avós que a vida me deu – Alicerces da minha vida.

            Ontem assinalou-se o Dia dos Avós. Uma data que me leva sempre a fazer uma pausa na correria dos dias e a regressar, ainda que por instantes, à infância. Tenho a felicidade de poder dizer que conheci os meus quatro avós, um privilégio que muitos não tiveram. Mas há dois que ocupam um lugar muito especial no meu coração. Os meus avós maternos, Valentina e Adélio.

            São eles que aparecem neste retrato. Uma fotografia tirada numa época em que os retratos eram preparados com cuidado, vestidos domingueiros e um ar sério, quase solene. Mas por detrás daqueles rostos havia muito mais do que a imagem deixa transparecer. Havia amor, dedicação e uma enorme capacidade de fazer da família o centro de tudo.

            Os meus primeiros anos de vida foram passados na casa deles. Viram-me crescer, deram-me colo, ensinaram-me e, sem o saberem, ajudaram a moldar a pessoa que sou hoje. Para mim nunca foram apenas a avó Valentina e o avô Adélio. Eram a "Mãezinha" e o "Paizinho", nomes carinhosos por que todos os netos os tratavam e que ainda hoje me saem naturalmente quando penso neles.

            A Mãezinha partiu cedo demais. Eu tinha apenas sete anos, mas a memória que guardo dela continua surpreendentemente viva. Apesar das limitações físicas que a impediam de andar, estava sempre disponível para mim. Nunca lhe faltava um sorriso, uma palavra meiga ou paciência para as minhas brincadeiras. Gostava especialmente de jogar cartas comigo. Curiosamente, eu ganhava sempre. Hoje percebo que aquelas vitórias eram oferecidas com um amor imenso, embora ela fizesse questão de parecer que lhe tinham custado muito. Era a forma mais bonita de fazer um neto sentir-se campeão.

            O Paizinho era diferente. Mais austero, de poucas palavras, mas de princípios inabaláveis. Foi com ele que aprendi algumas das maiores lições da vida. Ensinou-me o valor da integridade, do respeito pelos outros e da honestidade. Não precisava de grandes discursos. Bastava observá-lo para perceber como um homem deve viver.

            A família era o seu maior património. Fazia questão de reunir todos durante a tradicional matança do porco. E éramos muitos, dez filhos e mais de vinte netos. Eram dias de trabalho, mas também de convívio, de risos e de histórias que hoje fazem parte das nossas melhores recordações.

            Era um homem extremamente poupado. Tinha uma frase que repetia muitas vezes e que nunca esqueci: "Quem guarda o que não presta, tem sempre o que precisa." Na altura parecia apenas um ditado antigo, hoje percebo toda a sabedoria que encerrava.

Mas essa poupança nunca significou falta de generosidade. Aos domingos, quando os netos o visitavam, havia sempre uma guloseima à nossa espera. E no dia do seu aniversário fazia questão de juntar toda a família à mesa e oferecer uma nota de mil escudos (!!!) a cada neto. Era um gesto que nos fazia sentir especiais, pois apesar de ser ele o aniversariante nós é que eramos contemplados com uma prenda!

            Tinha ainda umas mãos extraordinárias. Consertava tudo o que parecia não ter arranjo e era um carpinteiro de enorme habilidade. A oficina era quase um mundo mágico para mim. Deixava-me mexer nas ferramentas, ensinava-me a utilizá-las e transmitia, sem o dizer, o prazer de criar e reparar em vez de deitar fora.

            Também foi um homem muito respeitado pela comunidade. Depois do 25 de Abril, tornou-se o primeiro presidente da Junta de Freguesia da nossa terra, cargo que desempenhou com o mesmo sentido de serviço e honestidade que pautava a sua vida.

            Hoje, ao olhar para este retrato, não vejo apenas os meus avós. Vejo as raízes da minha história. Vejo duas pessoas simples que, sem grandes estudos nem riqueza, me deixaram uma herança muito mais valiosa. O exemplo.

O tempo levou-os, mas não levou aquilo que me ensinaram. Continuam presentes nas pequenas coisas, nos valores que procuro transmitir aos meus filhos e na forma como olho para a família.

            Ao longo da vida vamos percebendo que ninguém se faz sozinho. Somos o resultado das histórias que vivemos, dos exemplos que recebemos e do amor com que fomos criados. Os meus avós deixaram em mim muito mais do que memórias. Deixaram valores, princípios e uma forma de olhar para a vida que ainda hoje me acompanha. Talvez seja por isso que me revejo tanto na canção “Quem me vê” de Luís Trigacheiro quando canta: "(…)Sou um pouco da essência de tanta gente, sou mistura de tanta coisa diferente.(…)" É exatamente isso que sinto. Há muito deles em mim. E enquanto eu guardar estas memórias e procurar viver os valores que me transmitiram, eles continuarão, de alguma forma, a caminhar ao meu lado


 

20 julho 2026


Ainda continuo lá...

Um ano depois

            Há precisamente um ano abri este espaço com o “rabisco” de uma porta.

            À primeira vista era apenas uma velha porta de madeira, marcada pelo tempo, pelo sol, pela chuva e pelas mãos de quem a empurrou durante tantos anos. Para mim, porém, nunca foi apenas uma porta. Era o lugar onde tudo começou.

            Naquele dia escrevi que ainda morava lá.

            Hoje, passados doze meses, quarenta e sete crónicas e mais de vinte mil visitas depois, percebo que essa frase continua a ser tão verdadeira como no primeiro instante em que a escrevi.

            Continuo lá.

            Não na casa de pedra onde nasci, porque as casas envelhecem, fecham portas e aprendem a viver em silêncio. Continuo lá porque há lugares que deixam de existir no mapa para passarem a existir dentro de nós.

            A memória faz esse milagre.

            Basta uma fotografia, um cheiro a madeira antiga ou o ranger imaginário daquela porta para que eu volte a ser a criança que corria pelo quintal sem relógio, que esperava pelos tios aos domingos, que via a cozinha encher-se de vozes e acreditava que as tardes nunca acabariam.

            Aquela porta conheceu tudo de mim antes de eu conhecer o mundo. Viu os primeiros passos, as primeiras quedas, os primeiros medos e os primeiros sonhos. Assistiu a despedidas que, na altura, pareciam pequenas e a regressos que sabiam a festa. Foi testemunha silenciosa da vida de uma família inteira.

            Hoje permanece fechada. Mas as portas nunca se fecham verdadeiramente quando continuam abertas na memória de alguém. Talvez seja essa a razão deste blog existir. Cada texto que aqui publiquei durante este último ano foi uma maneira de voltar a casa. Não para mudar o passado, mas para lhe agradecer. Para lhe dar voz antes que o tempo apagasse os detalhes que fazem uma vida.

            Escrever tornou-se uma forma de abrir aquela porta vezes sem conta.

            E, para minha surpresa, descobri que do outro lado também havia quem quisesse entrar. Pessoas que encontraram nas minhas memórias um pedaço das suas. Porque, no fundo, todos guardamos uma porta antiga, uma rua, um quintal, uma mesa ou um abraço onde continuamos a morar, mesmo depois de termos partido.

            Vinte mil visitas podem parecer apenas um número. Para mim, são as vezes que alguém parou por instantes para caminhar comigo pelas ruas da minha infância.

            Não podia pedir melhor companhia. Por isso hoje volto à mesma imagem. Não por nostalgia, mas porque ela continua a lembrar-me de onde venho. E enquanto souber de onde venho, nunca me perderei completamente.

            Há quem diga que não se pode voltar atrás. Talvez tenham razão. Mas há um lugar onde sempre regressamos. À memória! E é por isso que, um ano depois, posso escrever a mesma frase sem mudar uma única palavra.

            Ainda continuo lá.

 

10 julho 2026


O feriado que ainda está por decretar!


            Passaram dez anos. Parece impossível.

            Naquela noite, Portugal enfrentava a França, em Paris. Perdemos Cristiano Ronaldo cedo e todos pensávamos que o sonho acabava ali. Mas a Seleção fez aquilo que tantas vezes se exige aos portugueses. Resistiu, acreditou e nunca desistiu.

            Até que, aos 109 minutos, um nome que poucos esperavam se tornou eterno.

            Éder.

            Quis o destino que fosse precisamente o mais improvável a escrever a página mais importante da história do futebol português. Éder não era a maior estrela, aliás nem era uma estrela sequer! Não era o jogador de quem todos esperavam o momento decisivo. Mas foi dele o remate que fez explodir um país inteiro de alegria. Talvez seja essa uma das maiores lições que a vida nos dá. Nem sempre são os favoritos que mudam a história. Muitas vezes, são aqueles em quem poucos acreditam, aqueles que trabalham em silêncio e esperam pela sua oportunidade. A vida, tal como o futebol, tem o estranho hábito de surpreender e de mostrar que basta um único momento para transformar um homem comum em inesquecível.

            A frase ficou para a história: "Hoje é feriado cara…!!!" E a verdade é que, dez anos depois, continuo a achar que sim.

            Porque naquele instante não foi apenas uma bola que entrou na baliza. Foi um país inteiro que explodiu de alegria. Um povo habituado a sofrer viu, finalmente, o sonho tornar-se realidade.

            Guardo uma memória muito especial dessa noite. Assim que o árbitro apitou para o fim do jogo, saímos para a rua. Eu, a minha mulher e os meus filhos. Entrámos no carro e fomos para as ruas de Barcelos, a buzinar sem parar, misturados com centenas de outras pessoas que faziam exatamente o mesmo. Bandeiras nas janelas, sorrisos estampados nos rostos, abraços entre desconhecidos, crianças ao colo dos pais, idosos emocionados. Durante algumas horas não havia diferenças, nem preocupações, nem problemas. Havia apenas um sentimento comum. O orgulho de sermos Portugueses.

            Ainda hoje, quando oiço o relato daquele golo ou revejo as imagens, volto imediatamente a essa noite. Consigo quase ouvir novamente as buzinas, sentir a alegria contagiante das ruas e recordar os olhos dos meus filhos, felizes por estarem a viver um momento que sabiam ser histórico.

            Nem todos gostam de futebol. E isso é perfeitamente natural. Mas acredito que aquele dia ultrapassou o desporto. Foi um raro momento em que um país inteiro celebrou unido. Um momento em que nos sentimos capazes de tudo.

            Dez anos passaram. Algumas coisas mudaram. Os miúdos cresceram, a vida seguiu o seu caminho, surgiram novas alegrias e também novas dificuldades. Mas há memórias que o tempo não consegue apagar.

            A noite em que Éder calou a França.

            A noite em que Portugal foi campeão da Europa.

            Por isso, sempre que chegar o dia 10 de julho, faço questão de sorrir ao recordar tudo isto. Porque há datas que pertencem aos livros da História. E há outras que pertencem ao coração.

            Esta pertence aos dois.

            E, convenhamos... o Éder tinha razão.

            Este dia devia mesmo ser feriado.


 

03 julho 2026


O Justiceiro voltou... e trouxe a adolescência com dele!

            Esta semana deparei-me com uma notícia que me fez sorrir de imediato. Uma réplica do famoso carro da série O Justiceiro (Knight Rider) vai estar em exposição num bar perto de minha casa.

            Foi daquelas notícias que nos fazem viajar no tempo sem pedir licença. De repente, deixei de estar em 2026 e voltei aos finais das tardes de domingo da minha adolescência A notícia era pequena, mas bastou ler aquelas poucas linhas para ser transportado quarenta anos para trás. Era quase um ritual. O domingo estava a chegar ao fim, a escola esperava-nos na segunda-feira, mas havia sempre um momento reservado para acompanhar as aventuras de Michael Knight e do inseparável KITT. Naquela altura, não havia streaming, gravações automáticas ou a possibilidade de ver os episódios quando nos apetecesse. Se perdíamos um episódio... estava perdido. Por isso, quando chegava a hora, a televisão era dona da sala e ninguém me arrancava dali.

            Naquela época, tudo aquilo parecia pura ficção científica. Um carro que conduzia sozinho? Impossível. Um homem que falava com o relógio para comunicar com o carro? Ainda mais impossível. Na nossa imaginação, aquele era o futuro. Um futuro distante, quase inalcançável.

            E, no entanto, cá estamos e percebemos que muitas dessas ideias deixaram de ser ficção.

            Os relógios já não servem só para nos indicar as horas, permitem-nos fazer chamadas, responder a mensagens, consultar mapas ou controlar equipamentos em casa. Os carros estão cada vez mais inteligentes, conseguem estacionar praticamente sem ajuda, manter-se na faixa de rodagem e alguns já percorrem quilómetros quase sem intervenção do condutor. Ainda não temos um KITT exatamente igual ao da televisão, mas estamos muito mais perto dele do que alguma vez imaginámos enquanto víamos a série numa televisão que mais parecia uma caixa de madeira com vidro na frente.

            Talvez seja por isso que esta notícia me tenha despertado tantas recordações.

            Não é apenas um carro em exposição. É um símbolo de uma época em que sonhávamos sem limites. Em que acreditávamos que o futuro seria extraordinário. Em que cada nova tecnologia nos deixava de boca aberta.

            Também me fez pensar em como vivíamos a televisão de forma diferente. As séries eram acontecimentos. Esperávamos uma semana inteira por um novo episódio e, no dia seguinte, falava-se dele na escola, no café ou entre amigos. Todos tinham visto a mesma aventura e todos comentavam a mesma cena. Havia um sentimento de partilha que hoje, com centenas de canais e plataformas, se foi perdendo por completo.

            Para nós, miúdos daquela época, não era apenas uma série. Era a capacidade que tinha de nos fazer sonhar. Fazia-nos acreditar que um dia a tecnologia ultrapassaria tudo o que conhecíamos. E isso para um miúdo naqueles anos 80 era fascinante.

            Quando for ver aquela réplica do KITT, sei que vou admirar todos os detalhes. A carroçaria preta impecável, a luz vermelha a deslizar de um lado para o outro na frente do carro, o interior repleto de botões e ecrãs que, na altura, pareciam saídos do longínquo século XXI.

            Mas, acima de tudo, vou estar a olhar para um pedaço da minha própria história.

            Vou lembrar-me das tardes de domingo, da música inesquecível da abertura, da ansiedade de esperar mais uma semana pelo episódio seguinte e das conversas com os amigos sobre as proezas daquele carro "inteligente". Vou recordar uma época em que ainda não existia Internet, telemóveis ou redes sociais, mas em que a imaginação fazia o resto.

            Há quem diga que nunca devemos olhar para trás. Eu discordo. Tal como quando conduzimos, também na vida o retrovisor tem a sua utilidade. As memórias ajudam-nos a perceber de onde vimos, mas é em frente que o futuro nos espera.


 

26 junho 2026

Histórias de um quadro.

            Há objetos que passam anos pendurados numa parede sem que lhes demos grande importância. Depois, um dia, basta voltar a encontrá-los para percebermos que, afinal, guardavam uma parte da nossa história.

            Este quadro acompanhou os meus primeiros anos de vida. Estava na sala da casa dos meus avós, o lugar onde a minha mãe e eu dormíamos enquanto o meu pai trabalhava emigrado em França, como tantos milhares de portugueses naquele tempo. Curiosamente, passadas tantas décadas, a emigração continua a fazer parte da vida de muitas famílias. Mudam os destinos, mudam as circunstâncias, mas a saudade continua a ser a mesma.

            O quadro retrata o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga. Durante anos, para mim, não era um santuário nem um monumento. Era apenas uma paisagem mágica, cheia de escadarias, árvores, igrejas e pequenos recantos onde a minha imaginação passeava sem sair do lugar.

            Lembro-me especialmente dos dias em que estava doente. O apetite era pouco e a paciência da minha mãe era infinita. Sentava-me em frente àquele quadro e, colher após colher, ela inventava histórias inspiradas na imagem. Cada escadaria levava a um castelo encantado. O elevador escondia passageiros misteriosos. As capelas eram casas de personagens que só existiam naquelas tardes. Enquanto eu ouvia, quase sem dar por isso, a sopa desaparecia do prato.

            Na semana passada, muitos anos depois, fui ao Bom Jesus com a minha mulher e a minha filha. Fizemos um piquenique entre as árvores, passeámos sem pressa e deixei-me ficar a olhar para a escadaria que tantas vezes percorri apenas com a imaginação.

            Foi então que me lembrei do quadro.

            Percebi que, antes de conhecer aquele lugar com os meus próprios pés, já o conhecia com os olhos de uma criança. A minha primeira visita ao Bom Jesus não aconteceu em Braga. Aconteceu na sala dos meus avós, sentado à mesa, enquanto a minha mãe fazia o impossível para convencer um miúdo sem apetite a comer mais uma colher.

            Há memórias que vivem em fotografias. Outras vivem em cheiros ou em músicas. As minhas, por vezes, vivem em quadros pendurados numa parede antiga.

            Hoje, quando olho para esta imagem, já não vejo apenas o Santuário do Bom Jesus do Monte. Vejo a dedicação de uma mãe, a ausência necessária de um pai que procurava um futuro melhor, o carinho dos meus avós e uma infância simples, onde a imaginação conseguia transformar uma gravura numa aventura sem fim.

            Talvez seja isso que torna certos objetos tão valiosos. Não pelo que mostram, mas por tudo aquilo que nos devolvem.