04 março 2026


 O gira-discos do meu pai.

 

            Há objetos que não são apenas objetos. São portais. O gira-discos do meu pai era um desses. Veio de França, embrulhado em saudade e esperança, no regresso dos tempos em que ele foi emigrante. Não era apenas um aparelho. Era uma prova de conquista, um pedaço do mundo que ele trouxera consigo. Lembro-me de o ver pousado na sala, com uma dignidade quase solene, como se soubesse que guardava segredos dentro daquela tampa de plástico preto.

            Naquele tempo, e talvez em todos os tempos, a música era refúgio. Hoje, neste tempo louco de homens loucos, precisamos mais do que nunca de serenidade, de paz e de alguma alegria. E é curioso como tudo isso já estava ali, naquela caixa mágica da minha infância. Era com o gira-discos a tocar que a minha mãe dava a papa de Cerelac ao meu irmão. Talvez a música lhe adoçasse a boca, talvez lhe embalasse o choro. As canções enchiam a sala enquanto a colher fazia o seu vaivém paciente. Havia harmonia naquele ritual simples.

            O meu pai ensinou-me a colocar os discos. Primeiro, tirar o vinil da capa com cuidado. Segurá-lo pelas bordas. Pousá-lo no prato. Depois, com uma solenidade quase religiosa, baixar a agulha sem a deixar riscar. Eu prendia a respiração nesse momento. Sentia o peso da responsabilidade. Não só por proteger aquele tesouro, mas também o peso invisível de ser “o mais velho”. Lá em casa ensinava-se cedo o valor das coisas e a confiança era um presente que não se desperdiçava. Foi assim que comecei a conhecer as músicas de outros tempos. Os acordes intemporais dos The Beatles, as melodias contagiantes dos ABBA, a voz profunda e sofrida de Édith Piaf. E tantos outros que faziam parte do gosto e da história do meu pai. Dois temas no lado A, depois virar o disco com cuidado para ouvir mais dois no lado B. Ainda que sem saber, era o DJ lá de casa, à procura da próxima banda sonora para aquela tarde.

            Hoje parece impensável que um adulto deixasse uma criança tão pequena manusear algo tão precioso. Mas talvez fosse isso que fazia a diferença. A confiança, o tempo, a ausência de pressa. Cresci a saber que as coisas valiosas exigem cuidado. Sejam elas os discos, as memórias ou as pessoas.

            Mais tarde, já adolescente, havia um ritual que era só meu. Depois do almoço de domingo, quando a casa ainda cheirava a café acabado de fazer, eu ia para a sala. Escolhia um disco, colocava-o a tocar com o volume quase no máximo e abria as janelas. Queria que a música saísse para a rua, que chegasse aos vizinhos, que invadisse o lugar da minha aldeia (ainda não havia a denominação das ruas) com aquela alegria despreocupada. Era uma espécie de declaração, um “grito” que dizia aqui vive-se, aqui ouve-se música, aqui há vida.

            Tenho saudades desses tempos. Não apenas da infância, mas da leveza. Era mais fácil ouvir música e deixarmo-nos contagiar por coisas alegres. Hoje, são mais as más notícias que entram casa dentro sem pedir licença, instalando-se no sofá como visitas indesejadas. O ruído do mundo parece muitas vezes mais alto do que qualquer canção.

            Talvez por isso volte tantas vezes, em pensamento, ao gira-discos do meu pai. À agulha a descer devagar. Ao som ligeiro do crepitar antes da música começar. À certeza de que, durante aqueles minutos, o mundo podia esperar. Porque no fundo é isso que a arte, e especialmente a música, nos oferece. Um intervalo. Um lugar onde a paz ainda é possível. E, enquanto houver um disco para virar e uma memória para revisitar, talvez nunca estejamos verdadeiramente perdidos.


1 comentário:

  1. Sei bem do que fala pois também tive um gira-discos. Tive e tenho!
    Permanece na mesma estante do móvel verde da sala. A seu lado e ao alto, ainda permanecem os LPs e os singles. Ainda funciona, mas já ninguém ouve discos nesta casa. Apenas o meu filho, quando cá vem, de quando em vez o põe a funcionar.
    Na minha infância e adolescência tínhamos a telefonia somente, e já era tão bom...!

    Como sempre, mais uma Crónica a puxar pelas suas e nossas, recordações mais emocionantes.
    Bem Haja, Amigo Rui!

    Um abraço.

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