07 agosto 2026


O meu tesouro!

                Enquanto preparava o convívio que vai reunir os colegas da minha escola primária, cinquenta anos depois de termos começado a escrever a nossa história, abri uma caixa antiga. Procurava fotografias, talvez um caderno, quem sabe um boletim escolar. Encontrei muito mais do que isso.

                Encontrei o meu primeiro tesouro.

                Chamava-se, precisamente, "O Meu Tesouro". Era o livro da primeira classe. A capa, já gasta pelo tempo, guardava um baú aberto cheio de moedas. Na altura, eu pensava que o tesouro eram aquelas tampinhas douradas desenhadas na ilustração. Hoje percebo que o verdadeiro tesouro estava escondido entre as páginas.

                Folheei-o devagar, quase com receio de acordar o menino que fui. E logo na primeira lição apareceu ela: "menina".

                Foi a primeira palavra que aprendi a escrever.

                "Me... ni... na."

                Quantas vezes terei repetido aquelas sílabas? Quantas vezes o saudoso professor Norberto nos pediu para as copiar, uma linha atrás da outra, até a mão aprender o caminho que os olhos ainda procuravam?

                Naquela página não está apenas uma palavra. Está o primeiro passo de uma viagem que ainda hoje continua. Porque aprender a escrever não foi apenas juntar letras. Foi descobrir que as palavras nos permitem guardar pessoas, lugares, alegrias e saudades. Foi ali que começou, sem que eu soubesse, a possibilidade de um dia escrever estas memórias.

                Olho para aquela menina desenhada e imagino a sala de aula. As carteiras de madeira, o cheiro dos livros novos misturado com o do giz, os lápis cuidadosamente afiados, o silêncio interrompido pela voz do professor e pelas gargalhadas que teimavam em escapar.

                É curioso como um pedaço de papel consegue vencer quase meio século. As páginas amareleceram, as capas perderam o brilho, mas bastou abri-las para voltar a ouvir vozes que julgava esquecidas. Os rostos dos colegas apareceram um a um, como se nunca tivessem saído daquela sala.

                Este ano completamos cinquenta anos de vida. Felizmente ainda cá estamos todos. Alguns seguiram caminhos diferentes. Outros ficaram mais perto. Mas todos começámos ali, na mesma sala, diante das mesmas letras, dos mesmos cadernos e dos mesmos sonhos, ainda sem saber o que a vida nos reservaria.

Percebo agora que o título do livro nunca esteve errado. Aquele era, de facto, o meu tesouro.

Não pelas folhas que resistiram ao tempo, mas porque nelas continua guardado o instante em que o mundo deixou de ser apenas ouvido e passou também a poder ser lido e escrito.

                E pensar que tudo começou com uma única palavra.

                Menina.

                Talvez seja esse o verdadeiro milagre da escola. Ensinar-nos que, de palavra em palavra, acabamos por escrever uma vida inteira.