O meu tesouro!
Enquanto
preparava o convívio que vai reunir os colegas da minha escola primária,
cinquenta anos depois de termos começado a escrever a nossa história, abri uma
caixa antiga. Procurava fotografias, talvez um caderno, quem sabe um boletim
escolar. Encontrei muito mais do que isso.
Encontrei o
meu primeiro tesouro.
Chamava-se,
precisamente, "O Meu Tesouro". Era o livro da primeira classe.
A capa, já gasta pelo tempo, guardava um baú aberto cheio de moedas. Na altura,
eu pensava que o tesouro eram aquelas tampinhas douradas desenhadas na
ilustração. Hoje percebo que o verdadeiro tesouro estava escondido entre as
páginas.
Folheei-o
devagar, quase com receio de acordar o menino que fui. E logo na primeira lição
apareceu ela: "menina".
Foi a
primeira palavra que aprendi a escrever.
"Me...
ni... na."
Quantas
vezes terei repetido aquelas sílabas? Quantas vezes o saudoso professor
Norberto nos pediu para as copiar, uma linha atrás da outra, até a mão aprender
o caminho que os olhos ainda procuravam?
Naquela
página não está apenas uma palavra. Está o primeiro passo de uma viagem que
ainda hoje continua. Porque aprender a escrever não foi apenas juntar letras.
Foi descobrir que as palavras nos permitem guardar pessoas, lugares, alegrias e
saudades. Foi ali que começou, sem que eu soubesse, a possibilidade de um dia
escrever estas memórias.
Olho para
aquela menina desenhada e imagino a sala de aula. As carteiras de madeira, o
cheiro dos livros novos misturado com o do giz, os lápis cuidadosamente
afiados, o silêncio interrompido pela voz do professor e pelas gargalhadas que
teimavam em escapar.
É curioso
como um pedaço de papel consegue vencer quase meio século. As páginas
amareleceram, as capas perderam o brilho, mas bastou abri-las para voltar a
ouvir vozes que julgava esquecidas. Os rostos dos colegas apareceram um a um,
como se nunca tivessem saído daquela sala.
Este ano
completamos cinquenta anos de vida. Felizmente ainda cá estamos todos. Alguns
seguiram caminhos diferentes. Outros ficaram mais perto. Mas todos começámos
ali, na mesma sala, diante das mesmas letras, dos mesmos cadernos e dos mesmos
sonhos, ainda sem saber o que a vida nos reservaria.
Percebo
agora que o título do livro nunca esteve errado. Aquele era, de facto, o meu
tesouro.
Não pelas
folhas que resistiram ao tempo, mas porque nelas continua guardado o instante
em que o mundo deixou de ser apenas ouvido e passou também a poder ser lido e
escrito.
E pensar que
tudo começou com uma única palavra.
Menina.
Talvez seja
esse o verdadeiro milagre da escola. Ensinar-nos que, de palavra em palavra, acabamos
por escrever uma vida inteira.
