14 agosto 2026


Férias para Repor Memórias


            Chegou aquele momento do ano em que até as memórias precisam de férias.

            Depois de tantas histórias partilhadas, de tantas lembranças revisitadas e de tantos momentos guardados neste cantinho, sinto que está na hora de fazer uma pequena pausa. Vou de férias, não para esquecer as memórias, mas precisamente para repor o stock delas!

            Afinal, um blog de memórias vive de experiências, de lugares, de encontros, de pequenos detalhes e daqueles momentos simples que, mais tarde, se transformam em histórias que gostamos de recordar. Por isso, estas férias serão também uma oportunidade para viver novas experiências, descobrir novos lugares e, quem sabe, trazer comigo algumas memórias fresquinhas para partilhar quando regressar.

            Mas não pensem que vou desaparecer por completo! Mesmo de férias, continuarei a fazer as minhas visitas, a espreitar os blogs amigos, a ler as vossas histórias e a deixar, sempre que possível, uma palavra amiga. Porque as boas amizades não entram de férias.

            A todos os visitantes deste meu cantinho de memórias, desejo umas excelentes férias, cheias de sol, alegria, descanso, passeios, encontros e muitos momentos bonitos para guardar no coração.

            Eu vou ali carregar as baterias… e, sobretudo, encher a mala de novas memórias.

            Até breve, com novas histórias para contar!


 

07 agosto 2026


O meu tesouro!

                Enquanto preparava o convívio que vai reunir os colegas da minha escola primária, cinquenta anos depois de termos começado a escrever a nossa história, abri uma caixa antiga. Procurava fotografias, talvez um caderno, quem sabe um boletim escolar. Encontrei muito mais do que isso.

                Encontrei o meu primeiro tesouro.

                Chamava-se, precisamente, "O Meu Tesouro". Era o livro da primeira classe. A capa, já gasta pelo tempo, guardava um baú aberto cheio de moedas. Na altura, eu pensava que o tesouro eram aquelas tampinhas douradas desenhadas na ilustração. Hoje percebo que o verdadeiro tesouro estava escondido entre as páginas.

                Folheei-o devagar, quase com receio de acordar o menino que fui. E logo na primeira lição apareceu ela: "menina".

                Foi a primeira palavra que aprendi a escrever.

                "Me... ni... na."

                Quantas vezes terei repetido aquelas sílabas? Quantas vezes o saudoso professor Norberto nos pediu para as copiar, uma linha atrás da outra, até a mão aprender o caminho que os olhos ainda procuravam?

                Naquela página não está apenas uma palavra. Está o primeiro passo de uma viagem que ainda hoje continua. Porque aprender a escrever não foi apenas juntar letras. Foi descobrir que as palavras nos permitem guardar pessoas, lugares, alegrias e saudades. Foi ali que começou, sem que eu soubesse, a possibilidade de um dia escrever estas memórias.

                Olho para aquela menina desenhada e imagino a sala de aula. As carteiras de madeira, o cheiro dos livros novos misturado com o do giz, os lápis cuidadosamente afiados, o silêncio interrompido pela voz do professor e pelas gargalhadas que teimavam em escapar.

                É curioso como um pedaço de papel consegue vencer quase meio século. As páginas amareleceram, as capas perderam o brilho, mas bastou abri-las para voltar a ouvir vozes que julgava esquecidas. Os rostos dos colegas apareceram um a um, como se nunca tivessem saído daquela sala.

                Este ano completamos cinquenta anos de vida. Felizmente ainda cá estamos todos. Alguns seguiram caminhos diferentes. Outros ficaram mais perto. Mas todos começámos ali, na mesma sala, diante das mesmas letras, dos mesmos cadernos e dos mesmos sonhos, ainda sem saber o que a vida nos reservaria.

Percebo agora que o título do livro nunca esteve errado. Aquele era, de facto, o meu tesouro.

Não pelas folhas que resistiram ao tempo, mas porque nelas continua guardado o instante em que o mundo deixou de ser apenas ouvido e passou também a poder ser lido e escrito.

                E pensar que tudo começou com uma única palavra.

                Menina.

                Talvez seja esse o verdadeiro milagre da escola. Ensinar-nos que, de palavra em palavra, acabamos por escrever uma vida inteira.