O Professor que nos ensinou mais do que a
escola!
Uma conversa recente com um
amigo de infância, daqueles amigos que o tempo afasta mas nunca apaga,
levou-nos numa viagem inesperada até aos nossos primeiros anos de escola. Entre
memórias soltas, nomes esquecidos e episódios que ainda nos fazem rir, houve uma
figura que surgiu naturalmente na conversa, quase como se ainda estivesse ali
diante de nós. O nosso professor Norberto.
Lembro-me
bem do espanto dos adultos quando souberam que o novo professor da escola
primária era um homem. Até então, a escola da aldeia só conhecera professoras,
e a novidade despertou alguma desconfiança na comunidade. Mas bastaram poucas
semanas para tudo mudar. Os pais começaram a reparar no entusiasmo com que
íamos para a escola, quase ansiosos que chegasse a manhã seguinte. E isso dizia
tudo.
O
professor Norberto era um homem alto, de barba, rosto de faces rosadas e voz
calma. Fumava, algo muito comum naquele tempo, mas curiosamente fazia sempre
questão de nos dizer para nunca seguirmos esse exemplo. Havia nisso uma
honestidade simples que ainda hoje recordo com simpatia.
Aparecia
sempre no seu inseparável Citroën 2 Cavalos, um carro tão peculiar quanto ele.
Pelo caminho, dava boleia aos miúdos que encontrava a pé. Às vezes o carro
teimava em não pegar e lá íamos nós, uma pequena multidão de crianças felizes,
empurrando o carro estrada fora entre gargalhadas e gritos de incentivo. Hoje
penso nisso e percebo como eram simples as coisas que nos faziam felizes.
Tinha
métodos muito à frente do seu tempo. Enquanto outras salas ainda conheciam a
régua como castigo, ele preferia premiar em vez de punir. Não havia medo nas
suas aulas, havia motivação. Se nos portássemos bem e a aula corresse como
planeado, levava-nos para o recreio jogar futebol com ele. E jogava a sério,
com entusiasmo de miúdo. Algumas vezes era preciso as outras professoras irem
avisá-lo de que o recreio já tinha acabado, tal era a animação do jogo.
Quando
percebeu que a turma dava demasiados erros nos ditados, inventou outra forma de
nos incentivar. Passou a oferecer pequenos calendários de bolso aos alunos com
menos erros. Eram calendários do Mundial de Futebol do México de 1986, um
acontecimento especial porque contava com a presença de Portugal apenas pela
segunda vez. Sem saber, o professor Norberto deu início à minha primeira
coleção.
Dizia-nos muitas vezes uma frase que ainda hoje me acompanha: -“Escreve bem quem muito lê.” Talvez tenha sido aí que percebi que os livros podiam abrir portas invisíveis. Também nunca esquecerei o dia em que nos levou ao pavilhão municipal para vermos hóquei em patins. Em Barcelos era uma modalidade forte, mas para nós, miúdos da aldeia, era praticamente um mundo desconhecido. Tudo aquilo parecia enorme. O recinto, a velocidade do jogo, o barulho dos patins no chão. Ele tinha essa capacidade rara de nos mostrar que havia sempre mais mundo para lá da nossa aldeia.
Foram
quatro anos, da 1.ª à 4.ª classe como se dizia antigamente, feitos de
aprendizagem, descobertas e das primeiras amizades que a vida nos oferece. Mas,
acima de tudo, foram anos marcados por um homem que deixou uma marca numa
geração inteira e, arrisco dizer, em toda a comunidade.
Posso
afirmar sem hesitar que foi o melhor professor que tive.
E
talvez por isso me emocione sempre que passo pela rotunda dedicada ao
“Professor Primário”, numa das entradas de Barcelos
(foto acima). Uma justa e bonita homenagem da minha cidade a todos
aqueles que dedicam a vida à nobre missão de ensinar. Porque me lembra que algumas das maiores mudanças
na nossa vida foram feitas por pessoas que nunca precisaram de levantar a voz
para serem inesquecíveis.
Gostava muito de voltar a
encontrar o professor Norberto. Nem que fosse apenas para lhe dizer aquilo que
talvez nunca lhe tenhamos dito na altura:
- OBRIGADO!
