24 agosto 2025


 
Emigrantes vs Imigrantes

        Agosto está a chegar ao seu final e, com ele, regressa um sentimento que só nós sabemos traduzir numa palavra: - saudade. É a saudade das conversas à mesa, dos almoços de família que ficam mais pequenos, das festas populares que perdem rostos conhecidos. Para muitos de nós, agosto é o mês dos regressos temporários, das malas cheias de lembranças e dos abraços que tentam compensar um ano inteiro de distância.

Não me posso esconder das minhas origens. O meu pai foi obrigado a emigrar, como tantos outros da sua geração, porque o país não lhe dava condições para sonhar. Hoje é o meu filho quem segue o mesmo caminho. Também ele fez a mala, levou e deixou saudade. Mudam-se os tempos, repetem-se as partidas.

É uma realidade que atravessa gerações: somos um país de emigrantes. Sempre fomos. Está inscrito na nossa história, na nossa memória coletiva, nos apelidos que se espalham pelo mundo. Então como é possível que um país feito de partidas se mostre, tantas vezes, intolerante com aqueles que aqui chegam em busca da mesma dignidade que um dia nós procurámos lá fora? Porque é que muitos de nós escolhem ser duros e intolerantes com quem aqui chega. Esquecemo-nos depressa que já fomos nós a atravessar fronteiras, a enfrentar olhares desconfiados, a carregar no peito a saudade.

Afinal, o que distingue o nosso emigrante do imigrante que hoje cruza fronteiras para trabalhar e viver entre nós? Ambos carregam a saudade, ambos enfrentam o medo do desconhecido, ambos deixam para trás família, amigos e raízes. Ambos apenas querem uma oportunidade.

Se há algo que deveríamos ter aprendido com a nossa própria história, é a importância da empatia. Porque a dor da separação não tem nacionalidade. A esperança de uma vida melhor também não. E o sentimento saudade também não me parece que tenha bandeira.

Talvez agosto, com os seus regressos e despedidas, seja o mês ideal para nos lembrarmos disso: que a saudade que sentimos é a mesma que vivem aqueles que escolhem Portugal como casa. E que, em vez de erguer muros de intolerância, poderíamos construir pontes de compreensão.

17 agosto 2025




O meu primeiro Livro!

        Agosto, um mês que tradicionalmente todos associamos a férias. Para mim isso significa também mais tempo dedicado à leitura, de revisitar livros e de descobrir outros. Hoje veio-me à memória o meu primeiro livro: “Os Cinco e o Circo”, de Enid Blyton. Foi uma aquisição na longínqua década de oitenta do século passado(!!!), quando ainda frequentava o 5º ano. Foi numa visita da Biblioteca Municipal à minha escola. Foi a primeira vez que estive em contacto com livros sem ser os de estudo. Era uma sensação de ter um “tesouro” nas mãos. Recordo-me de o ter lido várias vezes, sempre com entusiasmo, como se fosse a primeira vez. O curioso é que, embora a história fosse sempre a mesma, as imagens e os cenários que surgiam na minha imaginação nunca se repetiam. Talvez esteja aí a magia da leitura, talvez seja isso que torna a leitura tão especial. Permitir-nos viajar sem sair do lugar, e ainda assim nunca percorrer exatamente o mesmo caminho. 

        E vocês, lembram-se qual foi o vosso primeiro livro? Aquele que despertou a curiosidade, a imaginação ou simplesmente o prazer da leitura. Façam uma visita ao vosso “baú de memórias” e encontrem esse “tesouro”!


08 agosto 2025


 









A minha Escola Primária

Quando penso na minha infância, uma das primeira imagens que me vem à cabeça é o portão da minha escola primária. Era ali que, todos os dias, eu começava novas aventuras - algumas com lápis e cadernos, outras com bola e muitas brincadeiras no recreio. Aquela escola foi mais do que um lugar de aprendizagem, foi o meu primeiro mundo fora de casa.

Lembro-me da sala, das carteiras inclinadas, do chão de madeira e do cheiro dos livros novos no começo do ano letivo. E aquele campo de futebol que na hora do recreio virava um autentico "Estádio da Luz". O professor Norberto, com o seu Citroen 2CV que tantas vezes empurramos para que pegasse no final das aulas, deixou um marca em mim. Até arrisco a dizer que deixou uma enorme marca na comunidade onde vivia. Com paciência (e com muita criatividade) ensinou-nos o valor das palavras, dos números, da amizade e do respeito.

Os amigos que ali fiz continuam a fazer parte das minhas lembranças. Alguns perderam-se no tempo, outros ainda continuam bem perto. Mas todos me ajudaram a construir quem hoje sou. Naquela altura as amizades nasciam facilmente, Um simples "queres brincar comigo?" era o começo de grandes aventuras. Naquela época as preocupações eram simples: fazer os trabalhos de casa, levar o lanche (um pão barrado com Tulicreme, que luxo), e não esquecer a "pasta dos livros". E claro, torcer para que o professor não me chamasse para ir ao quadro.

Hoje, ao passar em frente daquela escola, sinto uma mistura de saudade e gratidão. A escola primária não foi apenas o lugar onde aprendi a ler e escrever, mas onde aprendi a ser gente.

E vocês também têm  boas memórias da vossa escola primária? Há lugares que moram para sempre dentro de nós e a minha escola é um deles. 

01 agosto 2025

 

       Camilo Castelo Branco eternizou a minha terra!   

        Há lugares que carregam em si memórias, guardam estórias que desafiam o tempo. Creixomil, freguesia do concelho de Barcelos onde nasci, é um desses lugares. Pequena para uns, desconhecida para muitos é para mim um pedaço de mundo onde palpitam memórias, identidade e até…literatura! Trago hoje aqui, com sentimento de grande orgulho, uma das histórias narradas por Camilo Castelo Branco no seu livro Noites de Insónia – capítulo “Voltas ao Mundo”. Um dos maiores nomes da literatura portuguesa, que este ano comemoramos os 200 anos do seu nascimento, menciona a minha pequena aldeia num dos seus livros! Não como cenário de passagem mas como palco principal de um episódio carregado de emoção e simbolismo.

           Estávamos no reinado de D. João III e segundo narra Camilo, Ayres Ferreira, um Senhor da casa de Cavalleiros que morava em Barcelos sentindo-se ofendido na sua honra pelo Abade de Creixomil escreveu ao seu filho primogénito que foi servir para a India, onde “grangeara fama”: “… Ruy Ferreira de Mendonça recebeu em Goa carta de seu pai (…) contava que o abbade de Creixomil, clérigo fidalgo e possante, ousara pôr-lhe as mãos nas barbas. Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe licença para vir ao reino.” Movido de um só propósito: vingar a honra de seu pai, o capitão Ruy Ferreira de Mendonça  atravessou o oceano contrariando ordens superiores s só descansou quando chegou ao Minho.

               (…) S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso, termo de Barcellos. Ali vivia o clérigo que affrontara Ayres Ferreira.

               Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e enviou-lhe o seu nome. O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residência, empunhando a espada de cavaleiro. (…) Travaram-se os dous gládios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes, o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo estas vozes frementes de odio:

               - Perro! Não pozesses as mãos nas barbas de um velho!

               E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas, e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a India. (…)

               A narrativa é “camiliana” em todos os sentidos: dramática, intensa com personagens moldados pelo orgulho, pela honra e pelos códigos de uma época em que a palavra de um homem era um bem maior do que o ouro das caravelas. E no centro desta história está Creixomil. Saber que a minha terra natal inspirou Camilo, e foi por ele eternizada, enche-me de orgulho. É como se cada recanto de Creixomil guardasse ainda ecos dessa narrativa intensa. Esta história, rica em simbolismo e profundamente ligada à nossa terra, merece ser contada na nossa escola, para que as novas gerações compreendam que vivem num lugar que é mencionado na literatura portuguesa. Seria justo que nós, gentes de Creixomil, a homenageássemos, não apenas como curiosidade histórica, mas como parte integrante do nosso património cultural e identitário.