Os avós que a vida me deu –
Alicerces da minha vida.
Ontem
assinalou-se o Dia dos Avós. Uma data que me leva sempre a fazer uma pausa na
correria dos dias e a regressar, ainda que por instantes, à infância. Tenho a
felicidade de poder dizer que conheci os meus quatro avós, um privilégio que
muitos não tiveram. Mas há dois que ocupam um lugar muito especial no meu
coração. Os meus avós maternos, Valentina e Adélio.
São eles que
aparecem neste retrato. Uma fotografia tirada numa época em que os retratos
eram preparados com cuidado, vestidos domingueiros e um ar sério, quase solene.
Mas por detrás daqueles rostos havia muito mais do que a imagem deixa
transparecer. Havia amor, dedicação e uma enorme capacidade de fazer da família
o centro de tudo.
Os meus
primeiros anos de vida foram passados na casa deles. Viram-me crescer, deram-me
colo, ensinaram-me e, sem o saberem, ajudaram a moldar a pessoa que sou hoje.
Para mim nunca foram apenas a avó Valentina e o avô Adélio. Eram a
"Mãezinha" e o "Paizinho", nomes carinhosos por que todos
os netos os tratavam e que ainda hoje me saem naturalmente quando penso neles.
A Mãezinha
partiu cedo demais. Eu tinha apenas sete anos, mas a memória que guardo dela
continua surpreendentemente viva. Apesar das limitações físicas que a impediam
de andar, estava sempre disponível para mim. Nunca lhe faltava um sorriso, uma
palavra meiga ou paciência para as minhas brincadeiras. Gostava especialmente
de jogar cartas comigo. Curiosamente, eu ganhava sempre. Hoje percebo que
aquelas vitórias eram oferecidas com um amor imenso, embora ela fizesse questão
de parecer que lhe tinham custado muito. Era a forma mais bonita de fazer um
neto sentir-se campeão.
O Paizinho
era diferente. Mais austero, de poucas palavras, mas de princípios inabaláveis.
Foi com ele que aprendi algumas das maiores lições da vida. Ensinou-me o valor
da integridade, do respeito pelos outros e da honestidade. Não precisava de
grandes discursos. Bastava observá-lo para perceber como um homem deve viver.
A família
era o seu maior património. Fazia questão de reunir todos durante a tradicional
matança do porco. E éramos muitos, dez filhos e mais de vinte netos. Eram dias
de trabalho, mas também de convívio, de risos e de histórias que hoje fazem
parte das nossas melhores recordações.
Era um homem
extremamente poupado. Tinha uma frase que repetia muitas vezes e que nunca
esqueci: "Quem guarda o que não presta, tem sempre o que precisa."
Na altura parecia apenas um ditado antigo, hoje percebo toda a sabedoria que
encerrava.
Mas essa
poupança nunca significou falta de generosidade. Aos domingos, quando os netos
o visitavam, havia sempre uma guloseima à nossa espera. E no dia do seu
aniversário fazia questão de juntar toda a família à mesa e oferecer uma nota
de mil escudos (!!!) a cada neto. Era um gesto que nos fazia sentir especiais,
pois apesar de ser ele o aniversariante nós é que eramos contemplados com uma
prenda!
Tinha ainda
umas mãos extraordinárias. Consertava tudo o que parecia não ter arranjo e era
um carpinteiro de enorme habilidade. A oficina era quase um mundo mágico para
mim. Deixava-me mexer nas ferramentas, ensinava-me a utilizá-las e transmitia,
sem o dizer, o prazer de criar e reparar em vez de deitar fora.
Também foi
um homem muito respeitado pela comunidade. Depois do 25 de Abril, tornou-se o
primeiro presidente da Junta de Freguesia da nossa terra, cargo que desempenhou
com o mesmo sentido de serviço e honestidade que pautava a sua vida.
Hoje, ao
olhar para este retrato, não vejo apenas os meus avós. Vejo as raízes da minha
história. Vejo duas pessoas simples que, sem grandes estudos nem riqueza, me
deixaram uma herança muito mais valiosa. O exemplo.
O tempo
levou-os, mas não levou aquilo que me ensinaram. Continuam presentes nas
pequenas coisas, nos valores que procuro transmitir aos meus filhos e na forma
como olho para a família.
Ao longo da vida vamos percebendo que ninguém se faz
sozinho. Somos o resultado das histórias que vivemos, dos exemplos que
recebemos e do amor com que fomos criados. Os meus avós deixaram em mim muito
mais do que memórias. Deixaram valores, princípios e uma forma de olhar para a
vida que ainda hoje me acompanha. Talvez seja por isso que me revejo tanto na
canção “Quem me vê” de Luís Trigacheiro quando canta: "(…)Sou um pouco da essência de
tanta gente, sou mistura de tanta coisa diferente.(…)" É
exatamente isso que sinto. Há muito deles em mim. E enquanto eu guardar estas
memórias e procurar viver os valores que me transmitiram, eles continuarão, de
alguma forma, a caminhar ao meu lado

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