As máquinas de lavar de
antigamente.
Há lugares
que resistem teimosamente à passagem do tempo. Já quase não cumprem a função
para a qual foram construídos, mas continuam por lá, como testemunhas
silenciosas de uma época em que a vida decorria a um ritmo diferente. Os
lavadouros públicos são um desses exemplos.
Ainda
subsistem alguns na minha aldeia, talvez mais por uma questão de preservação da
memória do que propriamente pela necessidade de os utilizar. Hoje, olhamos para
eles com alguma nostalgia, mas nem sempre nos lembramos de que, durante muitos
anos, foram uma extensão da casa de muitas mulheres. Era ali que se lavava a
roupa, se esfregavam as nódoas mais difíceis e se passavam horas debruçadas
sobre a pedra, com as mãos mergulhadas na água e as costas a pagar o preço de
uma tarefa que pouco tinha de leve.
Mas os
lavadouros eram muito mais do que simples lugares para lavar roupa. Eram também
espaços de encontro e de convívio. Entre uma peça de roupa e outra, punha-se a
conversa em dia, partilhavam-se novidades, trocavam-se conselhos e, certamente,
também se comentava a vida alheia. Afinal, não havia redes sociais, mas havia
sempre uma boa rede de vizinhas! E, ao que parece, a informação circulava com
uma eficácia que faria inveja a muita tecnologia dos nossos dias.
Lavar a
roupa era uma das muitas tarefas domésticas que ocupavam boa parte do dia das
mulheres de então. Não existiam máquinas de lavar roupa, programas rápidos nem
centrifugações milagrosas. Havia água, sabão, pedra e muita força de braços. E,
no meio de tanto trabalho, aqueles momentos de conversa eram também uma forma
de aliviar o peso das lides domésticas.
Curiosamente, não me lembro de a minha família ter o hábito de frequentar o lavadouro público. Talvez porque, na casa onde nasci, existia um tanque que servia para várias finalidades. Para além de funcionar como reservatório de água para a rega dos campos, era também o lugar onde a minha mãe e as minhas tias lavavam a roupa da família. E não era pouca! Por ali passavam lençóis, toalhas, camisas e todas aquelas peças que, numa casa de família, pareciam multiplicar-se sem descanso. Até os paninhos dos bebés da família eram lavados naquele tanque, numa época em que as fraldas descartáveis ainda não faziam parte do quotidiano. Tudo se lavava, tudo se aproveitava e tudo exigia tempo e trabalho.
Mas aquele
tanque tinha uma particularidade que, para mim, o tornava muito mais
interessante do que qualquer lavadouro público. Quando as tarefas domésticas
davam tréguas e chegava a hora de brincar, a água deixava de ser apenas água
para se transformar num imenso oceano.
Eu e o meu
primo, munidos de barcos improvisados no banco de carpinteiro do meu avô,
travávamos ali grandes batalhas navais. Na nossa imaginação, aquele tanque não
tinha limites. Os barcos navegavam por mares desconhecidos, enfrentavam
tempestades e combatiam inimigos imaginários. Bastava um pouco de água e muita
vontade de brincar para transformar um simples tanque num mundo inteiro de
aventuras.
Hoje, quando
penso nesses tempos, percebo como os mesmos lugares podiam ter significados tão
diferentes. Para a minha mãe e para as minhas tias, aquele tanque era sobretudo
um instrumento de trabalho. Para mim e para o meu primo, era um oceano de
descobertas e brincadeiras.
Talvez seja essa a magia das memórias. Os lugares permanecem, mas cada geração guarda deles uma história diferente. Os lavadouros continuam por aí, alguns já silenciosos, sem o ruído da água, das roupas a serem esfregadas ou das conversas que outrora lhes davam vida. São pequenas marcas de um passado que não devemos deixar desaparecer, porque também contam a história das nossas aldeias e, sobretudo, das pessoas que nelas viveram.
E se hoje
temos máquinas que lavam a roupa quase sem darmos por isso, talvez devêssemos
recordar, de vez em quando, aquelas mulheres que, à força de braços e de
conversa, mantinham a roupa limpa e a vida da aldeia em movimento.
Quanto ao
meu tanque, esse continua guardado na memória como um lugar especial. Foi
reservatório de água, lavadouro e, durante a minha infância, um oceano sem fim.
E tenho a certeza de que, se os barcos do meu primo e os meus ainda por lá
navegassem, continuariam a encontrar mares onde as nossas aventuras nunca
teriam fim.




