22 maio 2026


Memórias da fonte da aldeia.

 

            Há lugares que guardam silêncio há tantos anos que parecem já fazer parte da própria montanha. Esta velha mina de água, escondida entre o musgo e a pedra húmida dos montes da minha aldeia, é um desses lugares. Olho para ela e imagino as mãos calejadas dos homens de outros tempos, dobrados sobre a rocha dura, escavando pacientemente a terra com ferramentas rudimentares, guiados apenas pela esperança de encontrar água. Não trabalhavam para si apenas. Trabalhavam para todos.

            Ninguém sabe ao certo quantos anos tem esta mina. Talvez porque certas obras deixam de pertencer ao tempo e passam a pertencer à memória coletiva. Foi aberta numa época em que não existia água canalizada nas casas, quando cada gota tinha um valor quase sagrado. A água que daqui nascia seguia por canais e regos, atravessava campos, alimentava culturas, matava a sede dos animais e sustentava vidas inteiras. Era o coração escondido da aldeia.

            Hoje, habituados à facilidade de abrir uma torneira, esquecemo-nos muitas vezes do esforço que existia por detrás de algo tão simples. Mas estes homens sabiam que a sobrevivência de uma comunidade dependia da entreajuda e do bem comum. Escavavam centenas de metros montanha adentro, em condições duras, húmidas e escuras, para trazer à superfície aquilo que consideravam o bem mais precioso de todos. A água, fonte de vida.

            Há qualquer coisa de profundamente humano nestas minas antigas. Não têm o brilho das grandes obras nem o reconhecimento dos monumentos famosos, mas carregam dentro delas a dignidade silenciosa de quem trabalhou para deixar um futuro melhor aos outros. Cada pedra molhada parece guardar ecos de vozes antigas, conversas perdidas no interior da terra, passos lentos de homens cansados que regressavam a casa sabendo que tinham cumprido a sua missão.

            Talvez seja por isso que gosto tanto de voltar a este lugar. Porque aqui ainda se sente a humildade de um tempo em que as pessoas tinham pouco, mas compreendiam o valor de tudo. E entre o verde do musgo, o murmúrio da água e a escuridão da mina, permanece viva a memória daqueles que fizeram da terra um gesto de partilha.


 

15 maio 2026


O silêncio do velho tear.

 

            Havia um tempo em que as casas respiravam trabalho desde o nascer do sol até ao seu crepúsculo. As mãos nunca estavam quietas e cada canto guardava uma tarefa, uma obrigação, uma história. Há objetos que envelhecem connosco. Ficam esquecidos em cantos escuros, cobertos de pó e silêncio, mas continuam vivos dentro da nossa memória. Este velho tear é um deles. Quando olho para ele, cansado pelo peso dos anos, coberto de pó e silêncio, custa-me acreditar que daqui nasceram tantas mantas cheias de vida, calor e dedicação.

            As minhas tias ainda eram meninas quando aprenderam a dominar este emaranhado de paus, tábuas, pedais e fios. Para quem vê agora, parece impossível compreender como dali podia sair alguma coisa bonita. Mas saía. E saía arte. Entre o ranger da madeira e o bater ritmado do tear, iam crescendo mantas grossas, muitas vezes em tons coloridos, feitas para vender e ajudar nas despesas da casa, mas também para aquecer as camas antigas, onde os colchões ainda eram de palha e os invernos pareciam mais frios do que hoje.

            Naquele tempo, a vida nas aldeias não dava espaço para preguiças nem grandes sonhos. As raparigas aprendiam cedo o peso das responsabilidades. Teciam, lavravam, tratavam dos animais, cozinhavam e ainda encontravam maneira de cantar enquanto lidavam com essas tarefas. O tear fazia parte desse mundo duro, mas também simples e verdadeiro.

            Hoje resta esta estrutura quase em ruínas, esquecida num canto, como se o tempo tivesse levado consigo o saber das pessoas que lhe davam vida. Já ninguém sabe ao certo como funcionava este engenho de outros tempos. As mãos capazes de entender cada fio, cada nó e cada movimento foram desaparecendo devagar, levando consigo um conhecimento que nunca chegou aos livros.

            Ainda assim, algumas dessas mantas sobrevivem em casa dos meus pais. Sempre que lhes toco, sinto que não são apenas cobertores antigos. São pedaços de memória tecidos fio a fio. São o esforço silencioso de mulheres da minha família que trabalharam toda a vida sem nunca esperar reconhecimento. Eram saberes que passavam naturalmente de geração em geração, sem escolas nem manuais. Aprendia-se olhando, repetindo e errando. E saiam obras de arte feitas sem assinatura.

            Na minha aldeia, este tear não era raro. Em muitas casas de lavradores existiam engenhos parecidas, porque quase tudo se fazia em casa, com o que havia e com o saber passado de geração em geração. Hoje sobra o silêncio, a madeira gasta e uma certa tristeza por ver desaparecer um mundo inteiro que parecia eterno.

            Talvez seja isso a memória. Tentar salvar, através das palavras, aquilo que o tempo insiste em destruir.


 

08 maio 2026


O Professor que nos ensinou mais do que a escola!

            Uma conversa recente com um amigo de infância, daqueles amigos que o tempo afasta mas nunca apaga, levou-nos numa viagem inesperada até aos nossos primeiros anos de escola. Entre memórias soltas, nomes esquecidos e episódios que ainda nos fazem rir, houve uma figura que surgiu naturalmente na conversa, quase como se ainda estivesse ali diante de nós. O nosso professor Norberto.

            Lembro-me bem do espanto dos adultos quando souberam que o novo professor da escola primária era um homem. Até então, a escola da aldeia só conhecera professoras, e a novidade despertou alguma desconfiança na comunidade. Mas bastaram poucas semanas para tudo mudar. Os pais começaram a reparar no entusiasmo com que íamos para a escola, quase ansiosos que chegasse a manhã seguinte. E isso dizia tudo.

            O professor Norberto era um homem alto, de barba, rosto de faces rosadas e voz calma. Fumava, algo muito comum naquele tempo, mas curiosamente fazia sempre questão de nos dizer para nunca seguirmos esse exemplo. Havia nisso uma honestidade simples que ainda hoje recordo com simpatia.

            Aparecia sempre no seu inseparável Citroën 2 Cavalos, um carro tão peculiar quanto ele. Pelo caminho, dava boleia aos miúdos que encontrava a pé. Às vezes o carro teimava em não pegar e lá íamos nós, uma pequena multidão de crianças felizes, empurrando o carro estrada fora entre gargalhadas e gritos de incentivo. Hoje penso nisso e percebo como eram simples as coisas que nos faziam felizes.

            Tinha métodos muito à frente do seu tempo. Enquanto outras salas ainda conheciam a régua como castigo, ele preferia premiar em vez de punir. Não havia medo nas suas aulas, havia motivação. Se nos portássemos bem e a aula corresse como planeado, levava-nos para o recreio jogar futebol com ele. E jogava a sério, com entusiasmo de miúdo. Algumas vezes era preciso as outras professoras irem avisá-lo de que o recreio já tinha acabado, tal era a animação do jogo.

Quando percebeu que a turma dava demasiados erros nos ditados, inventou outra forma de nos incentivar. Passou a oferecer pequenos calendários de bolso aos alunos com menos erros. Eram calendários do Mundial de Futebol do México de 1986, um acontecimento especial porque contava com a presença de Portugal apenas pela segunda vez. Sem saber, o professor Norberto deu início à minha primeira coleção.

            Dizia-nos muitas vezes uma frase que ainda hoje me acompanha: -“Escreve bem quem muito lê.” Talvez tenha sido aí que percebi que os livros podiam abrir portas invisíveis. Também nunca esquecerei o dia em que nos levou ao pavilhão municipal para vermos hóquei em patins. Em Barcelos era uma modalidade forte, mas para nós, miúdos da aldeia, era praticamente um mundo desconhecido. Tudo aquilo parecia enorme. O recinto, a velocidade do jogo, o barulho dos patins no chão. Ele tinha essa capacidade rara de nos mostrar que havia sempre mais mundo para lá da nossa aldeia.

            Foram quatro anos, da 1.ª à 4.ª classe como se dizia antigamente, feitos de aprendizagem, descobertas e das primeiras amizades que a vida nos oferece. Mas, acima de tudo, foram anos marcados por um homem que deixou uma marca numa geração inteira e, arrisco dizer, em toda a comunidade.

            Posso afirmar sem hesitar que foi o melhor professor que tive.

            E talvez por isso me emocione sempre que passo pela rotunda dedicada ao “Professor Primário”, numa das entradas de Barcelos (foto acima). Uma justa e bonita homenagem da minha cidade a todos aqueles que dedicam a vida à nobre missão de ensinar. Porque me lembra que algumas das maiores mudanças na nossa vida foram feitas por pessoas que nunca precisaram de levantar a voz para serem inesquecíveis.

            Gostava muito de voltar a encontrar o professor Norberto. Nem que fosse apenas para lhe dizer aquilo que talvez nunca lhe tenhamos dito na altura:

            - OBRIGADO!


 

30 abril 2026


Festa das Cruzes entre flores e memórias.

           

             Há festas que se vivem, e há festas que vivem em nós por dentro. A Festa das Cruzes é uma dessas raras romarias que não se limitam a ocupar o calendário. Ocupam-nos a memória, o corpo e, sobretudo, o coração.

            Considerada a primeira grande romaria do Minho, a Festa das Cruzes chega todos os anos como uma explosão de cor, tradição e alegria popular, transformando Barcelos num palco vibrante onde o passado e o presente dançam lado a lado. A sua origem remonta ao século XVI, envolta numa lenda que ainda hoje ecoa nas ruas. No longínquo ano de 1504, o sapateiro João Pires, ao regressar da missa, encontrou no chão do Campo da Feira uma cruz negra. O que interpretou como um sinal divino depressa incendiou a devoção popular ao Senhor da Cruz. Devoção essa que viria a materializar-se no imponente Templo do Bom Jesus da Cruz, hoje coração pulsante da festa.

            Durante vários dias, Barcelos deixa de ser apenas cidade e transforma-se num verdadeiro mundo à parte. Tudo começa com a colocação dos tradicionais arcos de romaria. Obras trabalhadas pelas mãos do povo e por isso carregadas de identidade, onde cada freguesia do concelho se faz representar com orgulho e criatividade.

            Mas, para mim, há um dia que brilha mais alto. O primeiro de maio. A famosa Batalha das Flores não é apenas um desfile, é um espetáculo vivo, quase surreal, onde carros alegóricos travam uma guerra delicada feita de pétalas e perfumes. Flores voam pelo ar como se fossem confetes da natureza, e por momentos tudo parece suspenso numa alegria leve, quase infantil.

            Depois chega o dia 3 de maio, feriado municipal, o dia maior das Cruzes. A dimensão religiosa impõe-se com solenidade na grandiosa procissão, onde as cruzes das 89 paróquias do concelho desfilam em comunhão, num testemunho de fé que atravessa gerações.

            E, no meio de tudo isto, há um movimento incessante e uma alegria contagiante. O centro da cidade transforma-se num parque de diversões a céu aberto, onde os cheiros a farturas e pão com chouriço se misturam com o som das músicas e dos risos. É um convite constante à celebração. Uma celebração simples, genuína, popular.

            Mas talvez o verdadeiro significado desta festa não esteja apenas no que se vê, mas no que se recorda. Porque, para mim, as Cruzes são também feitas de viagens numa velha mota, uma Sachs V5, com o meu pai. São chegadas ansiosas, olhos arregalados perante aquele universo de luzes e movimento. Ele levava-me pela mão a percorrer os carrosséis, paciente, à espera que eu escolhesse “o tal”. E eu escolhia sempre como se fosse a decisão mais importante do mundo.

            Era mágico.

            Aquela feira de diversões parecia outro planeta, tão distante da calma da aldeia onde vivíamos. Havia gente por todo o lado, música no ar, e uma energia que nos envolvia sem pedir licença. E depois, no fim, vinha o ritual. Íamos beber um Sumol ao Magriço. Um café que, na altura, parecia eterno, um ponto fixo no meio da festa. Hoje já não existe. Foi levado, como tantos outros, pela marcha inevitável da modernidade. Mas permanece intacto no lugar mais resistente que existe. A memória.

            Talvez seja isso que torna a Festa das Cruzes tão especial. Não é apenas uma romaria, é um reencontro. Com a cidade, com as tradições… e com aquilo que fomos.


 

20 abril 2026


O reencontro com os meus velhos Amigos.

            Há encontros que não se planeiam, simplesmente acontecem, como se o tempo decidisse, por um instante, dobrar-se sobre si próprio. Reencontros que parecem marcados pelo destino. Como aquele café adiado durante décadas que finalmente acontece. Este fim-de-semana vivi um desses momentos. Dei de caras com eles, os meus velhos companheiros de aventuras, que já não via há quase 40 anos. Voltei a encontrar os meus amigos, companheiros de tantas histórias. Alguns iam comigo para a escola sem ninguém saber. Eram amigos daqueles que fizeram parte de quem eu fui e, de certa forma, de quem ainda sou.

            No fundo de uma velha gaveta, escondidos por velhos trapos ali estavam eles à minha frente, como se nunca tivessem partido. Iguais. Intactos. Como se o tempo tivesse decidido não lhes tocar. E, por um instante, também eu deixei de sentir o peso dos anos.

            Com eles vivi batalhas épicas, histórias sem fim, mundos inventados onde tudo era possível. Eram os meus “índios e cowboys”, protagonistas de tardes intermináveis passadas no quintal dos meus avós, onde cada árvore era um forte, cada rego de água um rio imenso, e cada canto escondia um novo desafio.

            Lembro-me de como chegaram até mim. Alguns trazidos pelo meu pai, diretamente de França, carregados não só na mala, mas também no esforço de uma vida de emigrante. Outros vinham das mãos das minhas tias, nas quintas-feiras de feira em Barcelos, quando o dia corria bem e havia espaço para um mimo. Pequenos gestos que, na altura, pareciam simples mas que hoje percebo serem enormes.

            E depois havia o Nuno. O meu primo, o meu parceiro de brincadeiras, o estratega das nossas campanhas. Juntos, transformávamos o mundo à nossa volta em cenários dignos das maiores aventuras. Construíamos barcos improvisados no banco de carpinteiro do meu avô, atravessávamos “rios”, conquistávamos territórios imaginários. Éramos invencíveis, ou pelo menos acreditávamos que sim.

            Reencontrá-los agora foi como abrir uma porta esquecida dentro de mim. Trouxeram consigo não apenas memórias, mas sensações. O cheiro da terra, o som da água, o riso despreocupado de quem ainda não sabia o que era o tempo.

            E talvez seja isso o mais bonito. Perceber que há coisas que não envelhecem. Que ficam guardadas, intactas, à espera de serem redescobertas.

            Tal como estes meus velhos amigos.