10 julho 2026


O feriado que ainda está por decretar!


            Passaram dez anos. Parece impossível.

            Naquela noite, Portugal enfrentava a França, em Paris. Perdemos Cristiano Ronaldo cedo e todos pensávamos que o sonho acabava ali. Mas a Seleção fez aquilo que tantas vezes se exige aos portugueses. Resistiu, acreditou e nunca desistiu.

            Até que, aos 109 minutos, um nome que poucos esperavam se tornou eterno.

            Éder.

            Quis o destino que fosse precisamente o mais improvável a escrever a página mais importante da história do futebol português. Éder não era a maior estrela, aliás nem era uma estrela sequer! Não era o jogador de quem todos esperavam o momento decisivo. Mas foi dele o remate que fez explodir um país inteiro de alegria. Talvez seja essa uma das maiores lições que a vida nos dá. Nem sempre são os favoritos que mudam a história. Muitas vezes, são aqueles em quem poucos acreditam, aqueles que trabalham em silêncio e esperam pela sua oportunidade. A vida, tal como o futebol, tem o estranho hábito de surpreender e de mostrar que basta um único momento para transformar um homem comum em inesquecível.

            A frase ficou para a história: "Hoje é feriado cara…!!!" E a verdade é que, dez anos depois, continuo a achar que sim.

            Porque naquele instante não foi apenas uma bola que entrou na baliza. Foi um país inteiro que explodiu de alegria. Um povo habituado a sofrer viu, finalmente, o sonho tornar-se realidade.

            Guardo uma memória muito especial dessa noite. Assim que o árbitro apitou para o fim do jogo, saímos para a rua. Eu, a minha mulher e os meus filhos. Entrámos no carro e fomos para as ruas de Barcelos, a buzinar sem parar, misturados com centenas de outras pessoas que faziam exatamente o mesmo. Bandeiras nas janelas, sorrisos estampados nos rostos, abraços entre desconhecidos, crianças ao colo dos pais, idosos emocionados. Durante algumas horas não havia diferenças, nem preocupações, nem problemas. Havia apenas um sentimento comum. O orgulho de sermos Portugueses.

            Ainda hoje, quando oiço o relato daquele golo ou revejo as imagens, volto imediatamente a essa noite. Consigo quase ouvir novamente as buzinas, sentir a alegria contagiante das ruas e recordar os olhos dos meus filhos, felizes por estarem a viver um momento que sabiam ser histórico.

            Nem todos gostam de futebol. E isso é perfeitamente natural. Mas acredito que aquele dia ultrapassou o desporto. Foi um raro momento em que um país inteiro celebrou unido. Um momento em que nos sentimos capazes de tudo.

            Dez anos passaram. Algumas coisas mudaram. Os miúdos cresceram, a vida seguiu o seu caminho, surgiram novas alegrias e também novas dificuldades. Mas há memórias que o tempo não consegue apagar.

            A noite em que Éder calou a França.

            A noite em que Portugal foi campeão da Europa.

            Por isso, sempre que chegar o dia 10 de julho, faço questão de sorrir ao recordar tudo isto. Porque há datas que pertencem aos livros da História. E há outras que pertencem ao coração.

            Esta pertence aos dois.

            E, convenhamos... o Éder tinha razão.

            Este dia devia mesmo ser feriado.


 

03 julho 2026


O Justiceiro voltou... e trouxe a adolescência com dele!

            Esta semana deparei-me com uma notícia que me fez sorrir de imediato. Uma réplica do famoso carro da série O Justiceiro (Knight Rider) vai estar em exposição num bar perto de minha casa.

            Foi daquelas notícias que nos fazem viajar no tempo sem pedir licença. De repente, deixei de estar em 2026 e voltei aos finais das tardes de domingo da minha adolescência A notícia era pequena, mas bastou ler aquelas poucas linhas para ser transportado quarenta anos para trás. Era quase um ritual. O domingo estava a chegar ao fim, a escola esperava-nos na segunda-feira, mas havia sempre um momento reservado para acompanhar as aventuras de Michael Knight e do inseparável KITT. Naquela altura, não havia streaming, gravações automáticas ou a possibilidade de ver os episódios quando nos apetecesse. Se perdíamos um episódio... estava perdido. Por isso, quando chegava a hora, a televisão era dona da sala e ninguém me arrancava dali.

            Naquela época, tudo aquilo parecia pura ficção científica. Um carro que conduzia sozinho? Impossível. Um homem que falava com o relógio para comunicar com o carro? Ainda mais impossível. Na nossa imaginação, aquele era o futuro. Um futuro distante, quase inalcançável.

            E, no entanto, cá estamos e percebemos que muitas dessas ideias deixaram de ser ficção.

            Os relógios já não servem só para nos indicar as horas, permitem-nos fazer chamadas, responder a mensagens, consultar mapas ou controlar equipamentos em casa. Os carros estão cada vez mais inteligentes, conseguem estacionar praticamente sem ajuda, manter-se na faixa de rodagem e alguns já percorrem quilómetros quase sem intervenção do condutor. Ainda não temos um KITT exatamente igual ao da televisão, mas estamos muito mais perto dele do que alguma vez imaginámos enquanto víamos a série numa televisão que mais parecia uma caixa de madeira com vidro na frente.

            Talvez seja por isso que esta notícia me tenha despertado tantas recordações.

            Não é apenas um carro em exposição. É um símbolo de uma época em que sonhávamos sem limites. Em que acreditávamos que o futuro seria extraordinário. Em que cada nova tecnologia nos deixava de boca aberta.

            Também me fez pensar em como vivíamos a televisão de forma diferente. As séries eram acontecimentos. Esperávamos uma semana inteira por um novo episódio e, no dia seguinte, falava-se dele na escola, no café ou entre amigos. Todos tinham visto a mesma aventura e todos comentavam a mesma cena. Havia um sentimento de partilha que hoje, com centenas de canais e plataformas, se foi perdendo por completo.

            Para nós, miúdos daquela época, não era apenas uma série. Era a capacidade que tinha de nos fazer sonhar. Fazia-nos acreditar que um dia a tecnologia ultrapassaria tudo o que conhecíamos. E isso para um miúdo naqueles anos 80 era fascinante.

            Quando for ver aquela réplica do KITT, sei que vou admirar todos os detalhes. A carroçaria preta impecável, a luz vermelha a deslizar de um lado para o outro na frente do carro, o interior repleto de botões e ecrãs que, na altura, pareciam saídos do longínquo século XXI.

            Mas, acima de tudo, vou estar a olhar para um pedaço da minha própria história.

            Vou lembrar-me das tardes de domingo, da música inesquecível da abertura, da ansiedade de esperar mais uma semana pelo episódio seguinte e das conversas com os amigos sobre as proezas daquele carro "inteligente". Vou recordar uma época em que ainda não existia Internet, telemóveis ou redes sociais, mas em que a imaginação fazia o resto.

            Há quem diga que nunca devemos olhar para trás. Eu discordo. Tal como quando conduzimos, também na vida o retrovisor tem a sua utilidade. As memórias ajudam-nos a perceber de onde vimos, mas é em frente que o futuro nos espera.


 

26 junho 2026

Histórias de um quadro.

            Há objetos que passam anos pendurados numa parede sem que lhes demos grande importância. Depois, um dia, basta voltar a encontrá-los para percebermos que, afinal, guardavam uma parte da nossa história.

            Este quadro acompanhou os meus primeiros anos de vida. Estava na sala da casa dos meus avós, o lugar onde a minha mãe e eu dormíamos enquanto o meu pai trabalhava emigrado em França, como tantos milhares de portugueses naquele tempo. Curiosamente, passadas tantas décadas, a emigração continua a fazer parte da vida de muitas famílias. Mudam os destinos, mudam as circunstâncias, mas a saudade continua a ser a mesma.

            O quadro retrata o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga. Durante anos, para mim, não era um santuário nem um monumento. Era apenas uma paisagem mágica, cheia de escadarias, árvores, igrejas e pequenos recantos onde a minha imaginação passeava sem sair do lugar.

            Lembro-me especialmente dos dias em que estava doente. O apetite era pouco e a paciência da minha mãe era infinita. Sentava-me em frente àquele quadro e, colher após colher, ela inventava histórias inspiradas na imagem. Cada escadaria levava a um castelo encantado. O elevador escondia passageiros misteriosos. As capelas eram casas de personagens que só existiam naquelas tardes. Enquanto eu ouvia, quase sem dar por isso, a sopa desaparecia do prato.

            Na semana passada, muitos anos depois, fui ao Bom Jesus com a minha mulher e a minha filha. Fizemos um piquenique entre as árvores, passeámos sem pressa e deixei-me ficar a olhar para a escadaria que tantas vezes percorri apenas com a imaginação.

            Foi então que me lembrei do quadro.

            Percebi que, antes de conhecer aquele lugar com os meus próprios pés, já o conhecia com os olhos de uma criança. A minha primeira visita ao Bom Jesus não aconteceu em Braga. Aconteceu na sala dos meus avós, sentado à mesa, enquanto a minha mãe fazia o impossível para convencer um miúdo sem apetite a comer mais uma colher.

            Há memórias que vivem em fotografias. Outras vivem em cheiros ou em músicas. As minhas, por vezes, vivem em quadros pendurados numa parede antiga.

            Hoje, quando olho para esta imagem, já não vejo apenas o Santuário do Bom Jesus do Monte. Vejo a dedicação de uma mãe, a ausência necessária de um pai que procurava um futuro melhor, o carinho dos meus avós e uma infância simples, onde a imaginação conseguia transformar uma gravura numa aventura sem fim.

            Talvez seja isso que torna certos objetos tão valiosos. Não pelo que mostram, mas por tudo aquilo que nos devolvem.

 

 

19 junho 2026



Os calendários do México 86.

            Hoje, quando o futebol volta a dominar conversas, jornais e redes sociais, e quando crianças e adultos parecem ter sido novamente "infetados" pela epidemia dos cromos, não consigo evitar uma viagem ao passado. Há memórias que regressam sem aviso. Basta uma fotografia, um cheiro, uma música ou, neste caso, um punhado de pequenos calendários espalhados sobre uma mesa.

            Esta fotografia leva-me diretamente a 1986. Faz agora cerca de quarenta anos. Portugal preparava-se para disputar o seu segundo Campeonato do Mundo de Futebol, vinte anos depois da histórica participação em Inglaterra, e o país voltava a sonhar com os grandes palcos do futebol internacional. Para mim, porém, esse Mundial representou muito mais do que futebol. Foi também o ponto de partida para a descoberta de uma nova paixão, o colecionismo.

            Os protagonistas desta história são estes calendários dedicados ao Mundial do México 86. Pequenos pedaços de cartolina que mostravam jogadores, seleções e imagens que alimentavam a imaginação de qualquer criança apaixonada pelo desporto-rei. Mas o verdadeiro responsável por eu ter começado a guardá-los não foi nenhum jogador famoso nem qualquer campanha publicitária. O "culpado" tinha um nome bem conhecido e já retratado numa crónica neste meu “rabiscos d’estórias”. O meu professor da escola primária, o Sr. Professor Norberto.

            Com uma simplicidade que hoje parece quase ingénua, mas que na época era de uma eficácia extraordinária, o Professor Norberto encontrou uma forma de nos motivar a melhorar a escrita. Os alunos que dessem menos erros nos ditados recebiam calendários como prémio. Não havia troféus nem medalhas. Havia apenas aqueles pequenos cartões coloridos que, para nós, tinham um valor imenso.

            Lembro-me da expectativa antes de cada ditado. O silêncio na sala de aula, a concentração em cada palavra e a esperança de conquistar mais um calendário para a coleção. Cada prémio era uma vitória pessoal. E, sem que eu me apercebesse, aqueles calendários foram-se acumulando, transformando-se na minha primeira coleção.

            O curioso é que, olhando para eles hoje, percebo que guardam muito mais do que imagens do Mundial do México. Guardam recordações de uma escola diferente, de professores que sabiam despertar o entusiasmo dos alunos com recursos simples, de uma infância em que as pequenas conquistas tinham um sabor especial. Guardam também a memória de um país que voltava a sonhar com a Seleção Nacional e de um rapaz que descobria o prazer de colecionar, organizar e preservar objetos que contavam histórias.

            Passaram quatro décadas. Os jogadores retratados nestes calendários já pertencem à história do futebol e algumas das seleções aqui representadas pertencem, elas próprias, a países que já desapareceram dos mapas. A União Soviética e a R.F.A. existem apenas na memória e nos livros de História. O Mundial de 1986 ficou para trás, tal como um mundo muito diferente daquele que conhecemos hoje. Mas estes pequenos calendários continuam aqui, resistentes ao tempo, como testemunhas silenciosas de uma época feliz, preservando não apenas recordações desportivas, mas também a memória de nações, bandeiras e momentos que o passar dos anos transformou em História.

            E sempre que o mundo volta a girar em torno de um Campeonato do Mundo, entre álbuns de cromos, trocas de repetidos e conversas sobre futebol, volto a lembrar-me do Professor Norberto, dos ditados da escola primária e daqueles calendários que, sem eu saber, marcaram o início de uma paixão que ainda hoje me acompanha.

            Às vezes, os grandes hobbies da nossa vida começam precisamente assim. Com um simples prémio escolar entregue pelas mãos de um professor que soube transformar palavras bem escritas em memórias para toda a vida.

 

09 junho 2026


Hoje faço 50 anos!

            Metade de um século. Escrever esta frase faz-me sorrir, porque durante muitos anos essa idade parecia tão distante que quase pertencia a outra vida. E, de certa forma, pertence mesmo.

            Ao olhar para trás, vejo muito mais do que datas, fotografias ou acontecimentos. Vejo pessoas que deixaram marcas, caminhos que escolhi e outros que deixei por percorrer. Vejo erros que, na altura, pareciam derrotas e que acabaram por se transformar em lições valiosas. Vejo sonhos concretizados e outros que mudaram de forma ao longo do tempo.

            Aos 50 anos percebo que a vida não é uma corrida para chegar primeiro a algum lugar. É uma coleção de momentos, de encontros, de despedidas, de recomeços e de pequenas alegrias que muitas vezes só reconhecemos quando olhamos para trás.

            Aprendi que o tempo é o bem mais precioso que possuímos. Aprendi a valorizar mais as pessoas do que as coisas, mais as experiências do que as aparências. Aprendi que nem tudo está sob o nosso controlo e que aceitar isso traz uma paz que a juventude raramente conhece.

            Também aprendi que nunca é tarde para começar algo novo. A idade não fecha portas, apenas nos ensina a escolher melhor quais vale a pena abrir.

            Hoje agradeço. À família, aos amigos, aos que ficaram e aos que partiram deixando ensinamentos. Agradeço pelos dias fáceis e pelos difíceis, porque todos contribuíram para a pessoa que sou agora.

            Mas quando olho para esta fotografia, vejo mais do que um retrato de infância. Vejo o menino que sonhava sem limites, que descobria o mundo com espanto e que acreditava que tudo era possível.

            Esse menino nunca desapareceu. Continua aqui em mim. Continua a emocionar-se com as pequenas coisas, a sonhar novos caminhos, a rir, a sorrir, a aprender e a acreditar na beleza da vida.

            Aos 50 anos, carrego comigo a experiência do homem que me tornei, mas também a esperança e a vontade de viver daquele menino que um dia fui e que teimosamente continuo a querer ser.

            Porque envelhecer não é perder a criança que existe em nós. É aprender a caminhar com ela, valorizá-la e permitir que continue a iluminar o caminho.

            Os 50 anos não são um ponto de chegada. São apenas mais uma página de uma história que ainda está a ser escrita.

            E que privilégio é poder continuar a escrevê-la.

            Obrigado Vida!