O
“valor” da energia de outros tempos.
Vivemos tempos estranhos. Em qualquer conversa,
na televisão ou nas redes sociais, fala-se de guerra, do preço do petróleo, da
energia que sobe todos os dias e que parece arrastar consigo tudo o resto. A
luz, o gás, os combustíveis… tudo se transforma em números que pesam no bolso e
na cabeça. E é nestas alturas que a memória me leva para muito longe, para um
tempo em que a palavra “energia” tinha um significado muito diferente.
Recordo
os dias passados na casa dos meus avós. Ali, a energia que movia o mundo deles
vinha sobretudo das próprias mãos e da força tranquila dos bois que puxavam os
carros e as alfaias agrícolas. Não havia motores a rugir, nem filas de carros
nas estradas. Na verdade, carros eram poucos. O que mais se via eram carros de
bois, rangendo devagar pelos caminhos da aldeia. E nem todas as famílias tinham
um. Adorava subir para cima dele, empoleirado como se estivesse no lugar mais
importante do mundo. Para mim, cada ida aos campos era uma aventura. Tudo o que
os adultos faziam servia de brincadeira. O trabalho deles era, aos meus olhos
de criança, um parque de diversões sem bilhete.
Muitas
vezes ia com eles para os campos. Sentava-me na parte de trás do carro,
agarrado com uma mão a um fueiro, enquanto na outra levava um pau. Com ele
riscava o chão, desenhando linhas na terra como se estivesse a marcar o caminho
para quem viesse atrás.
Só
era possível fazer aquilo porque, na minha infância, a maior parte dos caminhos
da aldeia ainda eram em terra batida. A roda do carro levantava um pó leve e o
meu pau ia traçando sinais no chão, como um mapa secreto. Lembro-me também do
som do carro de bois a andar devagar, aquele ranger da madeira que parecia uma
música antiga da aldeia. Quem cresceu no campo sabe bem do que falo. Um som que
hoje desapareceu, mas que naqueles tempos fazia parte do silêncio das manhãs e
dos fins de tarde.
Nos
campos aprendia-se sem dar conta. Via-se como se abria um rego na terra, como
se plantava, como se respeitava o ritmo das estações. O trabalho era duro, mas
havia nele uma espécie de sabedoria tranquila. Não havia pressa, porque a terra
tem o seu tempo e não se deixa apressar por ninguém.
A aldeia, nessa altura, era cheia de vida. As portas estavam quase sempre abertas e as pessoas conheciam-se pelo nome. As crianças brincavam nos caminhos sem medo de carros ou perigos. Jogava-se à bola com o que houvesse, inventavam-se aventuras com coisas tão simples que hoje talvez ninguém acreditasse. À noite, quando o trabalho acabava, o silêncio voltava à aldeia. Não havia a luz forte das cidades nem o barulho constante dos motores. Havia apenas a conversa tranquila à porta de casa, as histórias antigas que os mais velhos contavam e o céu cheio de estrelas que parecia muito mais próximo do que hoje.
Hoje
fala-se de energia cara, de combustíveis e de crises. Naquele tempo, a energia
era outra: era a força dos braços, o passo paciente dos bois, o saber das mãos
calejadas do meu avô e a alegria simples de uma criança que acreditava que aqueles
caminhos de terra levavam a todo o lado.
Talvez não tivéssemos muito. As casas eram simples, o trabalho era pesado e a vida não era fácil. Mas olhando para trás, parece-me que havia uma riqueza que hoje é difícil de encontrar. Tempo, proximidade e uma forma de viver onde quase tudo dependia das pessoas e da natureza. E às vezes dou por mim a pensar que, no meio de tanta tecnologia e tanta pressa, talvez tenhamos perdido um pouco dessa energia antiga. Aquela que vinha das mãos, da terra e do coração das pessoas.




