18 setembro 2026



Vindimas. A teimosia de quem não deixa morrer as tradições.

             Há tradições que teimam em não morrer. Mesmo quando o tempo passa, os hábitos mudam e as dificuldades se acumulam, há quem continue a fazer as coisas como aprendeu, como viu fazer aos seus pais e avós. As vindimas são uma dessas tradições. Uma teimosia bonita, feita de trabalho, memórias e amor à terra.

            Longe vão os tempos em que, por esta altura, os campos se enchiam de gente. As vinhas transformavam-se num verdadeiro formigueiro humano, onde cada mão era preciosa e cada cacho de uvas representava o resultado de meses de trabalho e dedicação. Era tempo de vindimar e de preparar aquele precioso néctar que tanto orgulho dava aos lavradores.

            Naqueles tempos, ninguém ficava de fora. Nem mesmo as crianças, que também eram recrutadas para a dura tarefa. Aos mais pequenos, que ainda não tinham tamanho para chegar aos cachos, era-lhes atribuída uma missão muito especial. Apanhar os bagos de uva que caíam ao chão.

            E, para incentivar os pequenos vindimadores, havia sempre uma história que se contava:

            “Uma vez uma velhinha encheu uma pipa de vinho só com os bagos!”

            Nunca soube se tal velhinha existiu ou se alguma pipa chegou a ser enchida daquela maneira. Mas a verdade é que a história cumpria a sua missão. Lá continuávamos nós, de cabeça baixa, à procura de cada bago perdido, convencidos de que também estávamos a contribuir para encher mais uma pipa de vinho.

            Hoje, os tempos são outros. As pessoas têm outros ritmos, outras profissões e outras prioridades. As vindimas já não mobilizam aldeias inteiras, nem se vê aquela azáfama de antigamente. Por esses campos e vinhas, encontram-se sobretudo os que resistem.

            Os meus pais, já na casa dos oitenta anos, continuam a fazer as vindimas e a fabricar o seu próprio vinho. Ano após ano, lá estão eles, a repetir os gestos que aprenderam com os seus antepassados, como se o tempo não tivesse passado.

            É impossível não sentir admiração por esta persistência. Mas também alguma tristeza ao perceber que são, cada vez mais, os idosos que mantêm viva esta tradição. Aqueles que já carregam muitas vindimas nas costas e que, apesar dos anos e do cansaço, continuam a cuidar da terra e a colher os seus frutos.

Não sei quantas vindimas mais os meus pais conseguirão fazer. Mas sei que, enquanto continuarem, haverá sempre qualquer coisa de profundamente nosso a acontecer naqueles campos.

            E talvez um dia alguém volte a contar às crianças a história da velhinha que encheu uma pipa de vinho só com os bagos caídos no chão.

            Talvez já ninguém acredite. Mas espero que alguém lhes explique que houve um tempo em que cada bago contava, cada mão fazia falta e cada vindima era muito mais do que uma colheita.

            Era a vida da aldeia a acontecer.

            Porque há tradições que não sobrevivem por serem fáceis de manter. Sobrevivem porque há quem não consiga deixar de as amar.


 

11 setembro 2026


 

11 de Setembro — Entre a memória e a esperança


            Depois de uma pausa motivada pelas férias, regresso a este espaço de memórias. E não encontrei melhor forma de voltar do que recordar um daqueles dias que, apesar de terem acontecido há tantos anos, continuam presentes na memória de todos nós.

            Há dias que passam. Há outros que ficam. O 11 de Setembro é, sem dúvida, um deles.

            Ainda hoje me lembro do ar aterrador do meu colega quando entrou no escritório. Trazia no rosto uma expressão de perplexidade, quase de incredulidade, e disse-nos, meio atordoado: “Estão a atacar os Estados Unidos.”

            Como era possível? Como podia estar a acontecer um ataque daquela dimensão? Pouco depois chegaram as imagens. As torres, o fumo, os aviões, as pessoas a correr, a confusão. E nós, diante dos ecrãs, tentávamos compreender aquilo que estávamos a ver.

            O medo instalou-se. Pela primeira vez, para muitos de nós, a sensação de segurança que dávamos como garantida pareceu desaparecer. O mundo que conhecíamos parecia ter mudado diante dos nossos olhos. Viajar, entrar num aeroporto ou ver um avião no céu, pequenos gestos do quotidiano passaram a ser vistos de outra maneira.

            Mas talvez seja isso que torna o 11 de Setembro tão marcante. Não são apenas as imagens que ficaram nos livros de História. Somos nós que continuamos a carregar aquela memória.

            Todos nos lembramos onde estávamos, o que estávamos a fazer, com quem estávamos e o que pensamos naquele momento. Eu lembro-me daquele escritório, do rosto assustado do meu colega e da sensação de que, a partir dali, nunca mais olharíamos para o mundo da mesma forma.

            Passaram-se anos. A vida continuou, como sempre continua. Vieram outras preocupações, outros acontecimentos, momentos felizes e momentos difíceis. Mas há memórias que não envelhecem. Basta chegar o 11 de Setembro para que regressem, quase intactas.

            E há ainda uma razão muito pessoal para esta data ter um significado especial para mim No meu caso, quero lembrar-me que, logo depois de um dos dias mais sombrios que guardo na memória, a vida quis oferecer-me uma das suas maiores razões para sorrir.

            A minha filha.

            Para mim o 11 de Setembro é a véspera do aniversário da minha filha.

            É curioso pensar que, depois de um dos dias mais sombrios que guardamos na memória, chega o dia seguinte para nos lembrar precisamente do contrário.

             A Vida.

            O nascimento de uma criança traz sempre esperança. É um novo começo, uma promessa de futuro, uma razão para acreditar que, apesar de todas as tempestades, haverá sempre um novo dia.

            Por isso, quando o 11 de Setembro regressa ao calendário, não quero lembrar apenas o medo e a tragédia. Quero lembrar também aquilo que veio depois. A vida que continuou, os sonhos que nasceram e a esperança que nunca devemos perder.

            Amanhã, quando celebrar o aniversário da minha filha, vou lembrar-me inevitavelmente deste dia. Mas a minha memória não terminará no medo.

            Terminará num sorriso.

            Porque depois da tempestade vem a bonança. E, por vezes, a bonança chega da forma mais bonita que existe. O nascimento de uma criança.

            Porque, apesar de todas as tragédias, de todas as incertezas e de tudo aquilo que não podemos controlar, há uma coisa que a vida nos continua a ensinar:

            - Enquanto houver vida, haverá sempre esperança.

14 agosto 2026


Férias para Repor Memórias


            Chegou aquele momento do ano em que até as memórias precisam de férias.

            Depois de tantas histórias partilhadas, de tantas lembranças revisitadas e de tantos momentos guardados neste cantinho, sinto que está na hora de fazer uma pequena pausa. Vou de férias, não para esquecer as memórias, mas precisamente para repor o stock delas!

            Afinal, um blog de memórias vive de experiências, de lugares, de encontros, de pequenos detalhes e daqueles momentos simples que, mais tarde, se transformam em histórias que gostamos de recordar. Por isso, estas férias serão também uma oportunidade para viver novas experiências, descobrir novos lugares e, quem sabe, trazer comigo algumas memórias fresquinhas para partilhar quando regressar.

            Mas não pensem que vou desaparecer por completo! Mesmo de férias, continuarei a fazer as minhas visitas, a espreitar os blogs amigos, a ler as vossas histórias e a deixar, sempre que possível, uma palavra amiga. Porque as boas amizades não entram de férias.

            A todos os visitantes deste meu cantinho de memórias, desejo umas excelentes férias, cheias de sol, alegria, descanso, passeios, encontros e muitos momentos bonitos para guardar no coração.

            Eu vou ali carregar as baterias… e, sobretudo, encher a mala de novas memórias.

            Até breve, com novas histórias para contar!


 

07 agosto 2026


O meu tesouro!

                Enquanto preparava o convívio que vai reunir os colegas da minha escola primária, cinquenta anos depois de termos começado a escrever a nossa história, abri uma caixa antiga. Procurava fotografias, talvez um caderno, quem sabe um boletim escolar. Encontrei muito mais do que isso.

                Encontrei o meu primeiro tesouro.

                Chamava-se, precisamente, "O Meu Tesouro". Era o livro da primeira classe. A capa, já gasta pelo tempo, guardava um baú aberto cheio de moedas. Na altura, eu pensava que o tesouro eram aquelas tampinhas douradas desenhadas na ilustração. Hoje percebo que o verdadeiro tesouro estava escondido entre as páginas.

                Folheei-o devagar, quase com receio de acordar o menino que fui. E logo na primeira lição apareceu ela: "menina".

                Foi a primeira palavra que aprendi a escrever.

                "Me... ni... na."

                Quantas vezes terei repetido aquelas sílabas? Quantas vezes o saudoso professor Norberto nos pediu para as copiar, uma linha atrás da outra, até a mão aprender o caminho que os olhos ainda procuravam?

                Naquela página não está apenas uma palavra. Está o primeiro passo de uma viagem que ainda hoje continua. Porque aprender a escrever não foi apenas juntar letras. Foi descobrir que as palavras nos permitem guardar pessoas, lugares, alegrias e saudades. Foi ali que começou, sem que eu soubesse, a possibilidade de um dia escrever estas memórias.

                Olho para aquela menina desenhada e imagino a sala de aula. As carteiras de madeira, o cheiro dos livros novos misturado com o do giz, os lápis cuidadosamente afiados, o silêncio interrompido pela voz do professor e pelas gargalhadas que teimavam em escapar.

                É curioso como um pedaço de papel consegue vencer quase meio século. As páginas amareleceram, as capas perderam o brilho, mas bastou abri-las para voltar a ouvir vozes que julgava esquecidas. Os rostos dos colegas apareceram um a um, como se nunca tivessem saído daquela sala.

                Este ano completamos cinquenta anos de vida. Felizmente ainda cá estamos todos. Alguns seguiram caminhos diferentes. Outros ficaram mais perto. Mas todos começámos ali, na mesma sala, diante das mesmas letras, dos mesmos cadernos e dos mesmos sonhos, ainda sem saber o que a vida nos reservaria.

Percebo agora que o título do livro nunca esteve errado. Aquele era, de facto, o meu tesouro.

Não pelas folhas que resistiram ao tempo, mas porque nelas continua guardado o instante em que o mundo deixou de ser apenas ouvido e passou também a poder ser lido e escrito.

                E pensar que tudo começou com uma única palavra.

                Menina.

                Talvez seja esse o verdadeiro milagre da escola. Ensinar-nos que, de palavra em palavra, acabamos por escrever uma vida inteira.


 

27 julho 2026




Os avós que a vida me deu – Alicerces da minha vida.

            Ontem assinalou-se o Dia dos Avós. Uma data que me leva sempre a fazer uma pausa na correria dos dias e a regressar, ainda que por instantes, à infância. Tenho a felicidade de poder dizer que conheci os meus quatro avós, um privilégio que muitos não tiveram. Mas há dois que ocupam um lugar muito especial no meu coração. Os meus avós maternos, Valentina e Adélio.

            São eles que aparecem neste retrato. Uma fotografia tirada numa época em que os retratos eram preparados com cuidado, vestidos domingueiros e um ar sério, quase solene. Mas por detrás daqueles rostos havia muito mais do que a imagem deixa transparecer. Havia amor, dedicação e uma enorme capacidade de fazer da família o centro de tudo.

            Os meus primeiros anos de vida foram passados na casa deles. Viram-me crescer, deram-me colo, ensinaram-me e, sem o saberem, ajudaram a moldar a pessoa que sou hoje. Para mim nunca foram apenas a avó Valentina e o avô Adélio. Eram a "Mãezinha" e o "Paizinho", nomes carinhosos por que todos os netos os tratavam e que ainda hoje me saem naturalmente quando penso neles.

            A Mãezinha partiu cedo demais. Eu tinha apenas sete anos, mas a memória que guardo dela continua surpreendentemente viva. Apesar das limitações físicas que a impediam de andar, estava sempre disponível para mim. Nunca lhe faltava um sorriso, uma palavra meiga ou paciência para as minhas brincadeiras. Gostava especialmente de jogar cartas comigo. Curiosamente, eu ganhava sempre. Hoje percebo que aquelas vitórias eram oferecidas com um amor imenso, embora ela fizesse questão de parecer que lhe tinham custado muito. Era a forma mais bonita de fazer um neto sentir-se campeão.

            O Paizinho era diferente. Mais austero, de poucas palavras, mas de princípios inabaláveis. Foi com ele que aprendi algumas das maiores lições da vida. Ensinou-me o valor da integridade, do respeito pelos outros e da honestidade. Não precisava de grandes discursos. Bastava observá-lo para perceber como um homem deve viver.

            A família era o seu maior património. Fazia questão de reunir todos durante a tradicional matança do porco. E éramos muitos, dez filhos e mais de vinte netos. Eram dias de trabalho, mas também de convívio, de risos e de histórias que hoje fazem parte das nossas melhores recordações.

            Era um homem extremamente poupado. Tinha uma frase que repetia muitas vezes e que nunca esqueci: "Quem guarda o que não presta, tem sempre o que precisa." Na altura parecia apenas um ditado antigo, hoje percebo toda a sabedoria que encerrava.

Mas essa poupança nunca significou falta de generosidade. Aos domingos, quando os netos o visitavam, havia sempre uma guloseima à nossa espera. E no dia do seu aniversário fazia questão de juntar toda a família à mesa e oferecer uma nota de mil escudos (!!!) a cada neto. Era um gesto que nos fazia sentir especiais, pois apesar de ser ele o aniversariante nós é que eramos contemplados com uma prenda!

            Tinha ainda umas mãos extraordinárias. Consertava tudo o que parecia não ter arranjo e era um carpinteiro de enorme habilidade. A oficina era quase um mundo mágico para mim. Deixava-me mexer nas ferramentas, ensinava-me a utilizá-las e transmitia, sem o dizer, o prazer de criar e reparar em vez de deitar fora.

            Também foi um homem muito respeitado pela comunidade. Depois do 25 de Abril, tornou-se o primeiro presidente da Junta de Freguesia da nossa terra, cargo que desempenhou com o mesmo sentido de serviço e honestidade que pautava a sua vida.

            Hoje, ao olhar para este retrato, não vejo apenas os meus avós. Vejo as raízes da minha história. Vejo duas pessoas simples que, sem grandes estudos nem riqueza, me deixaram uma herança muito mais valiosa. O exemplo.

O tempo levou-os, mas não levou aquilo que me ensinaram. Continuam presentes nas pequenas coisas, nos valores que procuro transmitir aos meus filhos e na forma como olho para a família.

            Ao longo da vida vamos percebendo que ninguém se faz sozinho. Somos o resultado das histórias que vivemos, dos exemplos que recebemos e do amor com que fomos criados. Os meus avós deixaram em mim muito mais do que memórias. Deixaram valores, princípios e uma forma de olhar para a vida que ainda hoje me acompanha. Talvez seja por isso que me revejo tanto na canção “Quem me vê” de Luís Trigacheiro quando canta: "(…)Sou um pouco da essência de tanta gente, sou mistura de tanta coisa diferente.(…)" É exatamente isso que sinto. Há muito deles em mim. E enquanto eu guardar estas memórias e procurar viver os valores que me transmitiram, eles continuarão, de alguma forma, a caminhar ao meu lado