25 setembro 2026

                      Foto gentilmente cedida pela autora 
                           do blog "O cantinho da Janita"


O ninho e as coisas que ficam!

            Há fotografias que ficam guardadas durante algum tempo, à espera do momento certo para encontrarem uma história que as acompanhe. Esta é uma delas.

            Há já algum tempo, encontrei num blogue amigo a fotografia de um ninho de pássaros. Gostei dela logo à primeira vista, talvez porque um ninho seja daquelas coisas simples que dizem muito sem precisarem de palavras. Pedi à autora autorização para, um dia, utilizar a fotografia numa das minhas crónicas e ela, com a generosidade de quem gosta de partilhar aquilo que vai encontrando pelo caminho, disse-me que sim. A fotografia ficou guardada e o tempo foi passando.

            Entretanto, fiz umas pequenas “férias” da blogosfera. Quando voltei a percorrer alguns dos blogues que costumava visitar, reparei que aquele “cantinho” amigo também tinha ficado em silêncio. A autora informava que tinha interrompido, por tempo indeterminado, a sua participação neste mundo dos blogues.

            Fiquei com a fotografia e, curiosamente, fiquei também a pensar no ninho. Talvez porque um ninho vazio tenha muito mais histórias dentro dele do que aquilo que os nossos olhos conseguem ver.

            Foi assim que a imagem me levou para muito longe no tempo, até aos meus tempos de menino, quando andar aos ninhos fazia parte das aventuras da infância.

            Naqueles anos não havia telemóveis, tablets nem consolas para nos prenderem dentro de casa. Bastava sair pela porta e havia um mundo inteiro à nossa espera. Os campos, os muros, as árvores, as silvas, os caminhos de terra e os pequenos bosques eram o nosso recreio, e os pássaros faziam naturalmente parte dessa paisagem.

            Andávamos aos ninhos com uma curiosidade que hoje me faz sorrir. Um dos amigos dizia ter visto um melro entrar numa determinada árvore, outro garantia conhecer um ninho escondido no meio das silvas e, pouco depois, lá íamos todos, tentando descobrir o nosso pequeno tesouro. Trepar a uma árvore era uma aventura e encontrar um ninho entre os ramos dava-nos aquela sensação de termos descoberto um segredo que a natureza guardara especialmente para nós.

            Por vezes encontrávamos apenas um ninho vazio. Outras vezes havia ovos pequeninos, tão perfeitos que pareciam feitos à mão. Quando tínhamos mais sorte, lá estavam as crias, ainda sem penas e de bico aberto, à espera que a mãe regressasse com alimento.

            Hoje, olhando para trás, percebo que nem sempre éramos os visitantes mais cuidadosos. Fazíamos aquilo que as crianças daqueles tempos faziam, muitas vezes sem compreender que aquela pequena construção de ramos, ervas e musgo era, para um pássaro, aquilo que uma casa representa para nós.

            Eram outros tempos, com menos conhecimento e, sobretudo, com menos consciência do impacto das nossas brincadeiras. A natureza estava ali tão perto que quase parecia fazer parte da nossa casa. Aprendíamos com ela sem nos darmos conta de que estávamos a aprender.

            Hoje já não vejo crianças a andar aos ninhos como nós andávamos, e talvez seja melhor assim. Os tempos mudaram, as crianças têm outras formas de brincar e felizmente também aprendemos muito mais sobre a importância de respeitar a vida selvagem. Ainda assim, quando penso nesses anos, tenho por vezes a sensação de que perdemos alguma coisa pelo caminho. Aquela capacidade de ficar simplesmente a olhar para uma árvore porque ouvimos um pássaro cantar, de reparar num melro a saltitar pela erva, de distinguir ao longe o voo de uma rola ou de reconhecer um gaio pelo seu chamamento.

            Curiosamente, tenho a impressão de que hoje vejo mais melros, rolas, gaios e pegas do que via antigamente. Talvez algumas destas espécies tenham encontrado melhores condições para viver por aqui. Ou talvez seja apenas a memória de um menino que guarda os campos de outros tempos com outras cores, outros sons e outra dimensão.

            A memória também tem destas coisas. Às vezes acrescenta pássaros onde eles talvez não existissem tantos e outras vezes apaga aqueles que estavam mesmo lá. Mas há uma coisa de que tenho a certeza, antigamente olhávamos muito mais para cima. Hoje olhamos muito mais para baixo.

            Talvez por isso esta fotografia me tenha ficado tanto tempo na cabeça.

            Um simples ninho, construído pacientemente com pequenos ramos, ervas e tudo aquilo que o pássaro foi encontrando pelo caminho, é uma pequena obra de engenharia da natureza. Com materiais aparentemente sem valor, constrói-se uma casa onde haverá ovos, crias, alimento e, um dia, asas prontas para partir.

            Também os blogues são um pouco assim. Vamos juntando palavras, fotografias, recordações, pensamentos e pequenos pedaços da nossa vida e, sem grande consciência disso, acabamos por construir um lugar onde outros podem entrar, ler, deixar uma palavra e seguir caminho.

            Depois, um dia, paramos. Às vezes porque precisamos, outras porque a vida muda e, noutras ocasiões, simplesmente porque já não encontramos as palavras certas para continuar. O blogue fica então em silêncio, como um ninho depois de as crias terem ganho asas.

            Mas um ninho vazio não significa necessariamente abandono. Significa que alguma coisa aconteceu ali. Houve vida, houve movimento, houve alguém que construiu, cuidou e partiu. Talvez aconteça o mesmo com os blogues. Mesmo quando ficam silenciosos, continuam a guardar aquilo que lá deixámos e há sempre alguém que, anos depois, volta a passar por lá e encontra uma fotografia, um texto ou uma frase que lhe desperta uma memória.

            Foi o que me aconteceu com esta fotografia.

            Um ninho que encontrei há tempos num blogue amigo acabou por me levar de volta aos campos da minha infância, aos amigos, às árvores e às aventuras de quando andar aos ninhos era uma coisa tão natural como hoje pegar num telemóvel. E acabou também por me lembrar que, neste mundo dos blogues, há pessoas que entram nas nossas vidas sem nunca termos apertado a mão umas às outras. Conhecemo-nos através das palavras, partilhamos memórias e trocamos comentários, criando laços que o tempo e a distância nem sempre conseguem apagar.

            Quando alguém decide fazer uma pausa, alguma coisa dessa pessoa continua por cá. Ficam as palavras, ficam as fotografias e ficam as memórias de quem por ali passou. Neste caso, ficou também um ninho que esperei algum tempo para utilizar. Talvez tenha sido preciso esperar até que a sua história encontrasse a minha. E quem sabe se, um dia, aquela porta não volta a abrir-se. A natureza ensina-nos que o silêncio também faz parte da vida e que um ninho aparentemente vazio pode voltar a ter movimento quando menos esperamos.

            Por isso, não digo adeus à minha amiga da blogosfera, uma das primeiras seguidoras deste meu espaço. Prefiro pensar que ela apenas voou por algum tempo para outro lugar. E que, quando entender regressar, encontrará o ninho no mesmo sítio, à espera de novas histórias.


 

18 setembro 2026



Vindimas. A teimosia de quem não deixa morrer as tradições.

             Há tradições que teimam em não morrer. Mesmo quando o tempo passa, os hábitos mudam e as dificuldades se acumulam, há quem continue a fazer as coisas como aprendeu, como viu fazer aos seus pais e avós. As vindimas são uma dessas tradições. Uma teimosia bonita, feita de trabalho, memórias e amor à terra.

            Longe vão os tempos em que, por esta altura, os campos se enchiam de gente. As vinhas transformavam-se num verdadeiro formigueiro humano, onde cada mão era preciosa e cada cacho de uvas representava o resultado de meses de trabalho e dedicação. Era tempo de vindimar e de preparar aquele precioso néctar que tanto orgulho dava aos lavradores.

            Naqueles tempos, ninguém ficava de fora. Nem mesmo as crianças, que também eram recrutadas para a dura tarefa. Aos mais pequenos, que ainda não tinham tamanho para chegar aos cachos, era-lhes atribuída uma missão muito especial. Apanhar os bagos de uva que caíam ao chão.

            E, para incentivar os pequenos vindimadores, havia sempre uma história que se contava:

            “Uma vez uma velhinha encheu uma pipa de vinho só com os bagos!”

            Nunca soube se tal velhinha existiu ou se alguma pipa chegou a ser enchida daquela maneira. Mas a verdade é que a história cumpria a sua missão. Lá continuávamos nós, de cabeça baixa, à procura de cada bago perdido, convencidos de que também estávamos a contribuir para encher mais uma pipa de vinho.

            Hoje, os tempos são outros. As pessoas têm outros ritmos, outras profissões e outras prioridades. As vindimas já não mobilizam aldeias inteiras, nem se vê aquela azáfama de antigamente. Por esses campos e vinhas, encontram-se sobretudo os que resistem.

            Os meus pais, já na casa dos oitenta anos, continuam a fazer as vindimas e a fabricar o seu próprio vinho. Ano após ano, lá estão eles, a repetir os gestos que aprenderam com os seus antepassados, como se o tempo não tivesse passado.

            É impossível não sentir admiração por esta persistência. Mas também alguma tristeza ao perceber que são, cada vez mais, os idosos que mantêm viva esta tradição. Aqueles que já carregam muitas vindimas nas costas e que, apesar dos anos e do cansaço, continuam a cuidar da terra e a colher os seus frutos.

Não sei quantas vindimas mais os meus pais conseguirão fazer. Mas sei que, enquanto continuarem, haverá sempre qualquer coisa de profundamente nosso a acontecer naqueles campos.

            E talvez um dia alguém volte a contar às crianças a história da velhinha que encheu uma pipa de vinho só com os bagos caídos no chão.

            Talvez já ninguém acredite. Mas espero que alguém lhes explique que houve um tempo em que cada bago contava, cada mão fazia falta e cada vindima era muito mais do que uma colheita.

            Era a vida da aldeia a acontecer.

            Porque há tradições que não sobrevivem por serem fáceis de manter. Sobrevivem porque há quem não consiga deixar de as amar.


 

11 setembro 2026


 

11 de Setembro — Entre a memória e a esperança


            Depois de uma pausa motivada pelas férias, regresso a este espaço de memórias. E não encontrei melhor forma de voltar do que recordar um daqueles dias que, apesar de terem acontecido há tantos anos, continuam presentes na memória de todos nós.

            Há dias que passam. Há outros que ficam. O 11 de Setembro é, sem dúvida, um deles.

            Ainda hoje me lembro do ar aterrador do meu colega quando entrou no escritório. Trazia no rosto uma expressão de perplexidade, quase de incredulidade, e disse-nos, meio atordoado: “Estão a atacar os Estados Unidos.”

            Como era possível? Como podia estar a acontecer um ataque daquela dimensão? Pouco depois chegaram as imagens. As torres, o fumo, os aviões, as pessoas a correr, a confusão. E nós, diante dos ecrãs, tentávamos compreender aquilo que estávamos a ver.

            O medo instalou-se. Pela primeira vez, para muitos de nós, a sensação de segurança que dávamos como garantida pareceu desaparecer. O mundo que conhecíamos parecia ter mudado diante dos nossos olhos. Viajar, entrar num aeroporto ou ver um avião no céu, pequenos gestos do quotidiano passaram a ser vistos de outra maneira.

            Mas talvez seja isso que torna o 11 de Setembro tão marcante. Não são apenas as imagens que ficaram nos livros de História. Somos nós que continuamos a carregar aquela memória.

            Todos nos lembramos onde estávamos, o que estávamos a fazer, com quem estávamos e o que pensamos naquele momento. Eu lembro-me daquele escritório, do rosto assustado do meu colega e da sensação de que, a partir dali, nunca mais olharíamos para o mundo da mesma forma.

            Passaram-se anos. A vida continuou, como sempre continua. Vieram outras preocupações, outros acontecimentos, momentos felizes e momentos difíceis. Mas há memórias que não envelhecem. Basta chegar o 11 de Setembro para que regressem, quase intactas.

            E há ainda uma razão muito pessoal para esta data ter um significado especial para mim No meu caso, quero lembrar-me que, logo depois de um dos dias mais sombrios que guardo na memória, a vida quis oferecer-me uma das suas maiores razões para sorrir.

            A minha filha.

            Para mim o 11 de Setembro é a véspera do aniversário da minha filha.

            É curioso pensar que, depois de um dos dias mais sombrios que guardamos na memória, chega o dia seguinte para nos lembrar precisamente do contrário.

             A Vida.

            O nascimento de uma criança traz sempre esperança. É um novo começo, uma promessa de futuro, uma razão para acreditar que, apesar de todas as tempestades, haverá sempre um novo dia.

            Por isso, quando o 11 de Setembro regressa ao calendário, não quero lembrar apenas o medo e a tragédia. Quero lembrar também aquilo que veio depois. A vida que continuou, os sonhos que nasceram e a esperança que nunca devemos perder.

            Amanhã, quando celebrar o aniversário da minha filha, vou lembrar-me inevitavelmente deste dia. Mas a minha memória não terminará no medo.

            Terminará num sorriso.

            Porque depois da tempestade vem a bonança. E, por vezes, a bonança chega da forma mais bonita que existe. O nascimento de uma criança.

            Porque, apesar de todas as tragédias, de todas as incertezas e de tudo aquilo que não podemos controlar, há uma coisa que a vida nos continua a ensinar:

            - Enquanto houver vida, haverá sempre esperança.

14 agosto 2026


Férias para Repor Memórias


            Chegou aquele momento do ano em que até as memórias precisam de férias.

            Depois de tantas histórias partilhadas, de tantas lembranças revisitadas e de tantos momentos guardados neste cantinho, sinto que está na hora de fazer uma pequena pausa. Vou de férias, não para esquecer as memórias, mas precisamente para repor o stock delas!

            Afinal, um blog de memórias vive de experiências, de lugares, de encontros, de pequenos detalhes e daqueles momentos simples que, mais tarde, se transformam em histórias que gostamos de recordar. Por isso, estas férias serão também uma oportunidade para viver novas experiências, descobrir novos lugares e, quem sabe, trazer comigo algumas memórias fresquinhas para partilhar quando regressar.

            Mas não pensem que vou desaparecer por completo! Mesmo de férias, continuarei a fazer as minhas visitas, a espreitar os blogs amigos, a ler as vossas histórias e a deixar, sempre que possível, uma palavra amiga. Porque as boas amizades não entram de férias.

            A todos os visitantes deste meu cantinho de memórias, desejo umas excelentes férias, cheias de sol, alegria, descanso, passeios, encontros e muitos momentos bonitos para guardar no coração.

            Eu vou ali carregar as baterias… e, sobretudo, encher a mala de novas memórias.

            Até breve, com novas histórias para contar!


 

07 agosto 2026


O meu tesouro!

                Enquanto preparava o convívio que vai reunir os colegas da minha escola primária, cinquenta anos depois de termos começado a escrever a nossa história, abri uma caixa antiga. Procurava fotografias, talvez um caderno, quem sabe um boletim escolar. Encontrei muito mais do que isso.

                Encontrei o meu primeiro tesouro.

                Chamava-se, precisamente, "O Meu Tesouro". Era o livro da primeira classe. A capa, já gasta pelo tempo, guardava um baú aberto cheio de moedas. Na altura, eu pensava que o tesouro eram aquelas tampinhas douradas desenhadas na ilustração. Hoje percebo que o verdadeiro tesouro estava escondido entre as páginas.

                Folheei-o devagar, quase com receio de acordar o menino que fui. E logo na primeira lição apareceu ela: "menina".

                Foi a primeira palavra que aprendi a escrever.

                "Me... ni... na."

                Quantas vezes terei repetido aquelas sílabas? Quantas vezes o saudoso professor Norberto nos pediu para as copiar, uma linha atrás da outra, até a mão aprender o caminho que os olhos ainda procuravam?

                Naquela página não está apenas uma palavra. Está o primeiro passo de uma viagem que ainda hoje continua. Porque aprender a escrever não foi apenas juntar letras. Foi descobrir que as palavras nos permitem guardar pessoas, lugares, alegrias e saudades. Foi ali que começou, sem que eu soubesse, a possibilidade de um dia escrever estas memórias.

                Olho para aquela menina desenhada e imagino a sala de aula. As carteiras de madeira, o cheiro dos livros novos misturado com o do giz, os lápis cuidadosamente afiados, o silêncio interrompido pela voz do professor e pelas gargalhadas que teimavam em escapar.

                É curioso como um pedaço de papel consegue vencer quase meio século. As páginas amareleceram, as capas perderam o brilho, mas bastou abri-las para voltar a ouvir vozes que julgava esquecidas. Os rostos dos colegas apareceram um a um, como se nunca tivessem saído daquela sala.

                Este ano completamos cinquenta anos de vida. Felizmente ainda cá estamos todos. Alguns seguiram caminhos diferentes. Outros ficaram mais perto. Mas todos começámos ali, na mesma sala, diante das mesmas letras, dos mesmos cadernos e dos mesmos sonhos, ainda sem saber o que a vida nos reservaria.

Percebo agora que o título do livro nunca esteve errado. Aquele era, de facto, o meu tesouro.

Não pelas folhas que resistiram ao tempo, mas porque nelas continua guardado o instante em que o mundo deixou de ser apenas ouvido e passou também a poder ser lido e escrito.

                E pensar que tudo começou com uma única palavra.

                Menina.

                Talvez seja esse o verdadeiro milagre da escola. Ensinar-nos que, de palavra em palavra, acabamos por escrever uma vida inteira.