Ainda continuo lá...
Um ano depois
Há
precisamente um ano abri este espaço com o “rabisco” de uma porta.
À primeira
vista era apenas uma velha porta de madeira, marcada pelo tempo, pelo sol, pela
chuva e pelas mãos de quem a empurrou durante tantos anos. Para mim, porém,
nunca foi apenas uma porta. Era o lugar onde tudo começou.
Naquele dia
escrevi que ainda morava lá.
Hoje,
passados doze meses, quarenta e sete crónicas e mais de vinte mil visitas
depois, percebo que essa frase continua a ser tão verdadeira como no primeiro
instante em que a escrevi.
Continuo lá.
Não na casa
de pedra onde nasci, porque as casas envelhecem, fecham portas e aprendem a
viver em silêncio. Continuo lá porque há lugares que deixam de existir no mapa
para passarem a existir dentro de nós.
A memória
faz esse milagre.
Basta uma
fotografia, um cheiro a madeira antiga ou o ranger imaginário daquela porta
para que eu volte a ser a criança que corria pelo quintal sem relógio, que
esperava pelos tios aos domingos, que via a cozinha encher-se de vozes e
acreditava que as tardes nunca acabariam.
Aquela porta conheceu tudo de mim antes de eu conhecer o mundo. Viu os primeiros passos, as primeiras quedas, os primeiros medos e os primeiros sonhos. Assistiu a despedidas que, na altura, pareciam pequenas e a regressos que sabiam a festa. Foi testemunha silenciosa da vida de uma família inteira.
Hoje permanece fechada. Mas as portas nunca se fecham verdadeiramente quando continuam abertas na memória de alguém. Talvez seja essa a razão deste blog existir. Cada texto que aqui publiquei durante este último ano foi uma maneira de voltar a casa. Não para mudar o passado, mas para lhe agradecer. Para lhe dar voz antes que o tempo apagasse os detalhes que fazem uma vida.
Escrever
tornou-se uma forma de abrir aquela porta vezes sem conta.
E, para
minha surpresa, descobri que do outro lado também havia quem quisesse entrar.
Pessoas que encontraram nas minhas memórias um pedaço das suas. Porque, no
fundo, todos guardamos uma porta antiga, uma rua, um quintal, uma mesa ou um
abraço onde continuamos a morar, mesmo depois de termos partido.
Vinte mil visitas podem parecer apenas um número. Para mim, são as vezes que alguém parou por instantes para caminhar comigo pelas ruas da minha infância.
Não podia pedir melhor companhia. Por isso hoje volto à mesma imagem. Não por nostalgia, mas porque ela continua a lembrar-me de onde venho. E enquanto souber de onde venho, nunca me perderei completamente.
Há quem diga que não se pode voltar atrás. Talvez tenham razão. Mas há um lugar onde sempre regressamos. À memória! E é por isso que, um ano depois, posso escrever a mesma frase sem mudar uma única palavra.
Ainda
continuo lá.




