Crónica
de um Dia do Pai.
Hoje
celebra-se o Dia do Pai, e com ele chegam memórias que não se pedem, instalam-se.
Algumas são suaves como um fim de tarde de verão, outras trazem consigo uma
espécie de silêncio pesado, daqueles que não se explicam, apenas se sentem. Há
datas que não precisam de aviso no calendário, chegam-nos primeiro ao peito. O
Dia do Pai para mim é uma delas. É um dia feito de gestos simples, de ausências
que ainda doem e de presenças que aprendemos a valorizar com o passar dos anos.
O meu pai foi um homem de partidas forçadas. Depois de quase três anos na maldita guerra do ultramar, quando a terra pouco ou nada tinha para oferecer, fez-se ao caminho e emigrou para França. Não por sonho, mas por necessidade. Quando nasci, ele estava longe. Gosto de o ouvir contar a história de como soube da minha chegada ao mundo. Foi chamado ao escritório do patrão, coisa rara quase suspeita. Ia com medo, por momentos pensou que ia ser despedido. Em vez disso, deram-lhe a ler um telegrama. Era a notícia do meu nascimento. Sempre que imagino esse instante, há uma distância que não consigo medir.
Como se mede a
ausência num momento que devia ser partilhado?
Cresci
assim, entre esperas. O meu pai vinha pelo Natal e pelo mês de Agosto, como
quem regressa de outro mundo por breves temporadas. No resto do tempo, era a
minha mãe quem fazia de tudo, mãe e pai, colo e firmeza, como tantas mulheres o
fizeram e fazem, ainda que por outros motivos. Lembro-me dela a ler-me as
cartas que ele enviava, palavras que viajavam mais do que ele próprio. Eram
nessas linhas que o conhecia, que o imaginava.
Havia
também uma fotografia, a que hoje retiro das minha memórias e revelo. Um
retrato dele na parede do quarto onde vivíamos, em casa dos meus avós. Era ali
que o meu pai existia diariamente. Imóvel, silencioso, mas presente à sua
maneira.
Um dia,
numa dessas vindas, apareceu sem barba. Diferente. Estranho. E eu, na inocência
desarmada de criança, desatei a chorar e disse que ele não era o meu pai. Ainda
hoje carrego essa memória com um peso que não desaparece. Ele, que sempre chegava
carregado de brinquedos, coisas que mais ninguém tinha, pequenos tesouros
vindos de longe, merecia outra reação. Mas a infância não entende distâncias,
nem sacrifícios.
Com o
tempo, felizmente, regressou de vez. Já eu andava na escola primária. Ainda
fomos a tempo. A tempo de construir o que a ausência tinha adiado. Não era
homem de muitas palavras nem de grandes gestos de afeto. Talvez a vida, dura e
exigente, o tenha moldado assim, sem espaço para excessos. Mas foi, e continua
a ser, um exemplo. Na forma como resistiu, como trabalhou, como nunca deixou de
estar, mesmo quando estava longe.
Hoje, olho
para trás com uma espécie de gratidão tranquila. Nem tudo foi como poderia ter
sido, mas foi o que teve de ser. E isso, de alguma forma, também nos construiu.
Felizmente,
ele ainda cá está.
E hoje,
mais do que as palavras que ficaram por dizer ao longo dos anos, há algo
simples que finalmente não falta:
- Um abraço.




