O ninho e as coisas que ficam!
Há
fotografias que ficam guardadas durante algum tempo, à espera do momento certo
para encontrarem uma história que as acompanhe. Esta é uma delas.
Há já algum tempo, encontrei num blogue amigo a fotografia de um ninho de pássaros. Gostei dela logo à primeira vista, talvez porque um ninho seja daquelas coisas simples que dizem muito sem precisarem de palavras. Pedi à autora autorização para, um dia, utilizar a fotografia numa das minhas crónicas e ela, com a generosidade de quem gosta de partilhar aquilo que vai encontrando pelo caminho, disse-me que sim. A fotografia ficou guardada e o tempo foi passando.
Entretanto,
fiz umas pequenas “férias” da blogosfera. Quando voltei a percorrer alguns dos
blogues que costumava visitar, reparei que aquele “cantinho” amigo também tinha
ficado em silêncio. A autora informava que tinha interrompido, por tempo
indeterminado, a sua participação neste mundo dos blogues.
Fiquei com a
fotografia e, curiosamente, fiquei também a pensar no ninho. Talvez porque um
ninho vazio tenha muito mais histórias dentro dele do que aquilo que os nossos
olhos conseguem ver.
Foi assim
que a imagem me levou para muito longe no tempo, até aos meus tempos de menino,
quando andar aos ninhos fazia parte das aventuras da infância.
Naqueles
anos não havia telemóveis, tablets nem consolas para nos prenderem dentro de
casa. Bastava sair pela porta e havia um mundo inteiro à nossa espera. Os
campos, os muros, as árvores, as silvas, os caminhos de terra e os pequenos
bosques eram o nosso recreio, e os pássaros faziam naturalmente parte dessa paisagem.
Andávamos
aos ninhos com uma curiosidade que hoje me faz sorrir. Um dos amigos dizia ter
visto um melro entrar numa determinada árvore, outro garantia conhecer um ninho
escondido no meio das silvas e, pouco depois, lá íamos todos, tentando
descobrir o nosso pequeno tesouro. Trepar a uma árvore era uma aventura e
encontrar um ninho entre os ramos dava-nos aquela sensação de termos descoberto
um segredo que a natureza guardara especialmente para nós.
Por vezes
encontrávamos apenas um ninho vazio. Outras vezes havia ovos pequeninos, tão
perfeitos que pareciam feitos à mão. Quando tínhamos mais sorte, lá estavam as
crias, ainda sem penas e de bico aberto, à espera que a mãe regressasse com
alimento.
Hoje,
olhando para trás, percebo que nem sempre éramos os visitantes mais cuidadosos.
Fazíamos aquilo que as crianças daqueles tempos faziam, muitas vezes sem
compreender que aquela pequena construção de ramos, ervas e musgo era, para um
pássaro, aquilo que uma casa representa para nós.
Eram outros
tempos, com menos conhecimento e, sobretudo, com menos consciência do impacto
das nossas brincadeiras. A natureza estava ali tão perto que quase parecia
fazer parte da nossa casa. Aprendíamos com ela sem nos darmos conta de que
estávamos a aprender.
Hoje já não
vejo crianças a andar aos ninhos como nós andávamos, e talvez seja melhor
assim. Os tempos mudaram, as crianças têm outras formas de brincar e felizmente
também aprendemos muito mais sobre a importância de respeitar a vida selvagem.
Ainda assim, quando penso nesses anos, tenho por vezes a sensação de que perdemos
alguma coisa pelo caminho. Aquela capacidade de ficar simplesmente a olhar para
uma árvore porque ouvimos um pássaro cantar, de reparar num melro a saltitar
pela erva, de distinguir ao longe o voo de uma rola ou de reconhecer um gaio
pelo seu chamamento.
Curiosamente,
tenho a impressão de que hoje vejo mais melros, rolas, gaios e pegas do que via
antigamente. Talvez algumas destas espécies tenham encontrado melhores
condições para viver por aqui. Ou talvez seja apenas a memória de um menino que
guarda os campos de outros tempos com outras cores, outros sons e outra
dimensão.
A memória
também tem destas coisas. Às vezes acrescenta pássaros onde eles talvez não
existissem tantos e outras vezes apaga aqueles que estavam mesmo lá. Mas há uma
coisa de que tenho a certeza, antigamente olhávamos muito mais para cima. Hoje olhamos
muito mais para baixo.
Talvez por
isso esta fotografia me tenha ficado tanto tempo na cabeça.
Um simples
ninho, construído pacientemente com pequenos ramos, ervas e tudo aquilo que o
pássaro foi encontrando pelo caminho, é uma pequena obra de engenharia da
natureza. Com materiais aparentemente sem valor, constrói-se uma casa onde
haverá ovos, crias, alimento e, um dia, asas prontas para partir.
Também os
blogues são um pouco assim. Vamos juntando palavras, fotografias, recordações,
pensamentos e pequenos pedaços da nossa vida e, sem grande consciência disso,
acabamos por construir um lugar onde outros podem entrar, ler, deixar uma
palavra e seguir caminho.
Depois, um
dia, paramos. Às vezes porque precisamos, outras porque a vida muda e, noutras
ocasiões, simplesmente porque já não encontramos as palavras certas para
continuar. O blogue fica então em silêncio, como um ninho depois de as crias
terem ganho asas.
Mas um ninho
vazio não significa necessariamente abandono. Significa que alguma coisa
aconteceu ali. Houve vida, houve movimento, houve alguém que construiu, cuidou
e partiu. Talvez aconteça o mesmo com os blogues. Mesmo quando ficam silenciosos,
continuam a guardar aquilo que lá deixámos e há sempre alguém que, anos depois,
volta a passar por lá e encontra uma fotografia, um texto ou uma frase que lhe
desperta uma memória.
Foi o que me
aconteceu com esta fotografia.
Um ninho que
encontrei há tempos num blogue amigo acabou por me levar de volta aos campos da
minha infância, aos amigos, às árvores e às aventuras de quando andar aos
ninhos era uma coisa tão natural como hoje pegar num telemóvel. E acabou também
por me lembrar que, neste mundo dos blogues, há pessoas que entram nas nossas
vidas sem nunca termos apertado a mão umas às outras. Conhecemo-nos através das
palavras, partilhamos memórias e trocamos comentários, criando laços que o
tempo e a distância nem sempre conseguem apagar.
Quando alguém decide fazer uma pausa, alguma coisa dessa pessoa continua por cá. Ficam as palavras, ficam as fotografias e ficam as memórias de quem por ali passou. Neste caso, ficou também um ninho que esperei algum tempo para utilizar. Talvez tenha sido preciso esperar até que a sua história encontrasse a minha. E quem sabe se, um dia, aquela porta não volta a abrir-se. A natureza ensina-nos que o silêncio também faz parte da vida e que um ninho aparentemente vazio pode voltar a ter movimento quando menos esperamos.
Por isso, não digo adeus à minha amiga da blogosfera, uma das primeiras seguidoras deste meu espaço. Prefiro pensar que ela apenas voou por algum tempo para outro lugar. E que, quando entender regressar, encontrará o ninho no mesmo sítio, à espera de novas histórias.




