O relógio do cavalinho.
Há coisas
que o tempo não leva. Ficam guardadas na memória, agarradas a uma casa, a uma
voz ou a um som que, muitos anos depois, ainda somos capazes de ouvir dentro de
nós. O relógio do cavalinho é uma dessas coisas. Na casa dos meus avós, uma
casa antiga, daquelas de pedra e madeira, que ao longo dos anos acolheu uma
família numerosa, havia um relógio de parede que todos conheciam por esse nome.
Não era difícil perceber porquê! Lá no cimo, sobressaía a figura de um cavalinho,
como se estivesse de sentinela, a tomar conta da casa e de todos quantos por lá
passavam.
O relógio
estava colocado no fundo daquilo a que chamávamos a varanda. Mas não
pensem numa varanda como as de hoje, aberta para o exterior. A nossa era um
corredor largo e comprido, que atravessava a casa de uma ponta à outra. Por ali
se cruzavam as pessoas, se davam recados, se trocavam dois dedos de conversa e
se vivia o dia-a-dia de uma família minhota, onde quase nunca faltava gente nem
assunto.
O relógio
tinha os seus cuidados. Uma vez por semana, era preciso dar-lhe corda, para que
continuasse a cumprir a sua obrigação. E lá ficava ele, direito ao serviço,
tocando aos quartos, às meias e às horas, sempre com uma melodia bonita, que se
espalhava pela casa e se misturava com os ruídos próprios de uma casa cheia de
vida. Era um som familiar, tão natural como ouvir alguém chamar da cozinha ou
escutar os passos de quem atravessava o corredor.
O meu avô
estimava muito aquele relógio. Nunca cheguei a saber se era pelo seu valor,
pela sua antiguidade ou por alguma história que o ligasse ao passado. Talvez
nem ele soubesse explicar. Há coisas a que nos afeiçoamos sem precisar de grandes
razões. Fazem parte da nossa vida, e isso basta.
Com os anos,
as forças começaram a faltar ao meu avô. Dar corda ao relógio passou então a
ser tarefa de uma tia minha. Até que, num desses dias, aconteceu o que ninguém
desejava. Numa das vezes em que a minha tia ia cumprir religiosamente a sua
tarefa teve a infelicidade de, com um gesto mais brusco, fazer o cavalinho cair
ao chão. A preciosidade desfez-se em mil pedaços.
O meu avô
ficou inconsolável. Quem o visse percebia logo que não se tratava apenas de uma
peça partida. O relógio continuava no seu lugar, mas parecia que lhe tinham
levado uma parte da alma. Já não era o mesmo. Faltava-lhe precisamente aquilo
que lhe dava nome e que, durante tantos anos, tinha feito parte da paisagem
daquela casa.
Ao ver a
tristeza do meu avô, achei que não podia ficar de braços cruzados. Juntei os
pedaços que consegui encontrar e colei-os como pude, tentando aproveitar o que
restava para fazer um molde. Depois, arranjei um pedaço de madeira e comecei a
trabalhá-lo, procurando reproduzir o cavalinho o melhor que sabia.
Não era
tarefa fácil. A madeira tem as suas manhas e nem sempre obedece à primeira
vontade. Mas fui trabalhando, acertando aqui, corrigindo acolá, até conseguir
uma figura que se aproximava bastante da original. E foi assim que o cavalinho
voltou ao seu lugar.
Quando o meu
avô viu o resultado, ficou imensamente feliz. Mas, para além da alegria de
voltar a ter o seu relógio completo, ficou também admirado por ver que o neto
gostava de trabalhar a madeira e tinha jeito para aquilo. Afinal, ele próprio
tinha sido um bom carpinteiro. Talvez tenha sentido, naquele momento, que havia
qualquer coisa dele que continuava viva nas minhas mãos.
Hoje, quando
olho para este relógio, não vejo apenas madeira envelhecida, ponteiros e uma
figura esculpida no cimo. Vejo a casa dos meus avós, o corredor comprido, a
família que por ali passou e a melodia que marcava as horas. Vejo também a
tristeza do meu avô quando perdeu o cavalinho e a alegria que senti por lhe
conseguir devolver um pouco daquilo que tanto estimava.
O cavalinho
que hoje vemos já não é o original. É uma réplica feita por mim, com as minhas
mãos e com a vontade de ver o meu avô feliz. E, pensando bem, se calhar o
relógio nunca teve grande valor por aquilo que custava ou pela sua antiguidade.
O seu verdadeiro valor estava na história que carregava e no carinho de quem o
guardava.
Porque, nas
casas antigas do nosso Minho, havia muita coisa simples que valia mais do que
parecia. E, às vezes, bastava um relógio a tocar as horas e um neto disposto a
trabalhar um pedaço de madeira para se perceber que há heranças que não
precisam de escritura nem de testamento. Passam de avós para netos, no silêncio
dos gestos, na memória e no gosto de fazer com as próprias mãos.
O meu avô
deixou-me muitas recordações. Mas talvez uma das mais bonitas seja a de ter
conseguido pôr de novo um sorriso no rosto de quem, muito antes de mim, me
ensinou, talvez mesmo sem o saber, que o valor das coisas está também no amor
que lhes dedicamos.




