27 julho 2026




Os avós que a vida me deu – Alicerces da minha vida.

            Ontem assinalou-se o Dia dos Avós. Uma data que me leva sempre a fazer uma pausa na correria dos dias e a regressar, ainda que por instantes, à infância. Tenho a felicidade de poder dizer que conheci os meus quatro avós, um privilégio que muitos não tiveram. Mas há dois que ocupam um lugar muito especial no meu coração. Os meus avós maternos, Valentina e Adélio.

            São eles que aparecem neste retrato. Uma fotografia tirada numa época em que os retratos eram preparados com cuidado, vestidos domingueiros e um ar sério, quase solene. Mas por detrás daqueles rostos havia muito mais do que a imagem deixa transparecer. Havia amor, dedicação e uma enorme capacidade de fazer da família o centro de tudo.

            Os meus primeiros anos de vida foram passados na casa deles. Viram-me crescer, deram-me colo, ensinaram-me e, sem o saberem, ajudaram a moldar a pessoa que sou hoje. Para mim nunca foram apenas a avó Valentina e o avô Adélio. Eram a "Mãezinha" e o "Paizinho", nomes carinhosos por que todos os netos os tratavam e que ainda hoje me saem naturalmente quando penso neles.

            A Mãezinha partiu cedo demais. Eu tinha apenas sete anos, mas a memória que guardo dela continua surpreendentemente viva. Apesar das limitações físicas que a impediam de andar, estava sempre disponível para mim. Nunca lhe faltava um sorriso, uma palavra meiga ou paciência para as minhas brincadeiras. Gostava especialmente de jogar cartas comigo. Curiosamente, eu ganhava sempre. Hoje percebo que aquelas vitórias eram oferecidas com um amor imenso, embora ela fizesse questão de parecer que lhe tinham custado muito. Era a forma mais bonita de fazer um neto sentir-se campeão.

            O Paizinho era diferente. Mais austero, de poucas palavras, mas de princípios inabaláveis. Foi com ele que aprendi algumas das maiores lições da vida. Ensinou-me o valor da integridade, do respeito pelos outros e da honestidade. Não precisava de grandes discursos. Bastava observá-lo para perceber como um homem deve viver.

            A família era o seu maior património. Fazia questão de reunir todos durante a tradicional matança do porco. E éramos muitos, dez filhos e mais de vinte netos. Eram dias de trabalho, mas também de convívio, de risos e de histórias que hoje fazem parte das nossas melhores recordações.

            Era um homem extremamente poupado. Tinha uma frase que repetia muitas vezes e que nunca esqueci: "Quem guarda o que não presta, tem sempre o que precisa." Na altura parecia apenas um ditado antigo, hoje percebo toda a sabedoria que encerrava.

Mas essa poupança nunca significou falta de generosidade. Aos domingos, quando os netos o visitavam, havia sempre uma guloseima à nossa espera. E no dia do seu aniversário fazia questão de juntar toda a família à mesa e oferecer uma nota de mil escudos (!!!) a cada neto. Era um gesto que nos fazia sentir especiais, pois apesar de ser ele o aniversariante nós é que eramos contemplados com uma prenda!

            Tinha ainda umas mãos extraordinárias. Consertava tudo o que parecia não ter arranjo e era um carpinteiro de enorme habilidade. A oficina era quase um mundo mágico para mim. Deixava-me mexer nas ferramentas, ensinava-me a utilizá-las e transmitia, sem o dizer, o prazer de criar e reparar em vez de deitar fora.

            Também foi um homem muito respeitado pela comunidade. Depois do 25 de Abril, tornou-se o primeiro presidente da Junta de Freguesia da nossa terra, cargo que desempenhou com o mesmo sentido de serviço e honestidade que pautava a sua vida.

            Hoje, ao olhar para este retrato, não vejo apenas os meus avós. Vejo as raízes da minha história. Vejo duas pessoas simples que, sem grandes estudos nem riqueza, me deixaram uma herança muito mais valiosa. O exemplo.

O tempo levou-os, mas não levou aquilo que me ensinaram. Continuam presentes nas pequenas coisas, nos valores que procuro transmitir aos meus filhos e na forma como olho para a família.

            Ao longo da vida vamos percebendo que ninguém se faz sozinho. Somos o resultado das histórias que vivemos, dos exemplos que recebemos e do amor com que fomos criados. Os meus avós deixaram em mim muito mais do que memórias. Deixaram valores, princípios e uma forma de olhar para a vida que ainda hoje me acompanha. Talvez seja por isso que me revejo tanto na canção “Quem me vê” de Luís Trigacheiro quando canta: "(…)Sou um pouco da essência de tanta gente, sou mistura de tanta coisa diferente.(…)" É exatamente isso que sinto. Há muito deles em mim. E enquanto eu guardar estas memórias e procurar viver os valores que me transmitiram, eles continuarão, de alguma forma, a caminhar ao meu lado


 

20 julho 2026


Ainda continuo lá...

Um ano depois

            Há precisamente um ano abri este espaço com o “rabisco” de uma porta.

            À primeira vista era apenas uma velha porta de madeira, marcada pelo tempo, pelo sol, pela chuva e pelas mãos de quem a empurrou durante tantos anos. Para mim, porém, nunca foi apenas uma porta. Era o lugar onde tudo começou.

            Naquele dia escrevi que ainda morava lá.

            Hoje, passados doze meses, quarenta e sete crónicas e mais de vinte mil visitas depois, percebo que essa frase continua a ser tão verdadeira como no primeiro instante em que a escrevi.

            Continuo lá.

            Não na casa de pedra onde nasci, porque as casas envelhecem, fecham portas e aprendem a viver em silêncio. Continuo lá porque há lugares que deixam de existir no mapa para passarem a existir dentro de nós.

            A memória faz esse milagre.

            Basta uma fotografia, um cheiro a madeira antiga ou o ranger imaginário daquela porta para que eu volte a ser a criança que corria pelo quintal sem relógio, que esperava pelos tios aos domingos, que via a cozinha encher-se de vozes e acreditava que as tardes nunca acabariam.

            Aquela porta conheceu tudo de mim antes de eu conhecer o mundo. Viu os primeiros passos, as primeiras quedas, os primeiros medos e os primeiros sonhos. Assistiu a despedidas que, na altura, pareciam pequenas e a regressos que sabiam a festa. Foi testemunha silenciosa da vida de uma família inteira.

            Hoje permanece fechada. Mas as portas nunca se fecham verdadeiramente quando continuam abertas na memória de alguém. Talvez seja essa a razão deste blog existir. Cada texto que aqui publiquei durante este último ano foi uma maneira de voltar a casa. Não para mudar o passado, mas para lhe agradecer. Para lhe dar voz antes que o tempo apagasse os detalhes que fazem uma vida.

            Escrever tornou-se uma forma de abrir aquela porta vezes sem conta.

            E, para minha surpresa, descobri que do outro lado também havia quem quisesse entrar. Pessoas que encontraram nas minhas memórias um pedaço das suas. Porque, no fundo, todos guardamos uma porta antiga, uma rua, um quintal, uma mesa ou um abraço onde continuamos a morar, mesmo depois de termos partido.

            Vinte mil visitas podem parecer apenas um número. Para mim, são as vezes que alguém parou por instantes para caminhar comigo pelas ruas da minha infância.

            Não podia pedir melhor companhia. Por isso hoje volto à mesma imagem. Não por nostalgia, mas porque ela continua a lembrar-me de onde venho. E enquanto souber de onde venho, nunca me perderei completamente.

            Há quem diga que não se pode voltar atrás. Talvez tenham razão. Mas há um lugar onde sempre regressamos. À memória! E é por isso que, um ano depois, posso escrever a mesma frase sem mudar uma única palavra.

            Ainda continuo lá.

 

10 julho 2026


O feriado que ainda está por decretar!


            Passaram dez anos. Parece impossível.

            Naquela noite, Portugal enfrentava a França, em Paris. Perdemos Cristiano Ronaldo cedo e todos pensávamos que o sonho acabava ali. Mas a Seleção fez aquilo que tantas vezes se exige aos portugueses. Resistiu, acreditou e nunca desistiu.

            Até que, aos 109 minutos, um nome que poucos esperavam se tornou eterno.

            Éder.

            Quis o destino que fosse precisamente o mais improvável a escrever a página mais importante da história do futebol português. Éder não era a maior estrela, aliás nem era uma estrela sequer! Não era o jogador de quem todos esperavam o momento decisivo. Mas foi dele o remate que fez explodir um país inteiro de alegria. Talvez seja essa uma das maiores lições que a vida nos dá. Nem sempre são os favoritos que mudam a história. Muitas vezes, são aqueles em quem poucos acreditam, aqueles que trabalham em silêncio e esperam pela sua oportunidade. A vida, tal como o futebol, tem o estranho hábito de surpreender e de mostrar que basta um único momento para transformar um homem comum em inesquecível.

            A frase ficou para a história: "Hoje é feriado cara…!!!" E a verdade é que, dez anos depois, continuo a achar que sim.

            Porque naquele instante não foi apenas uma bola que entrou na baliza. Foi um país inteiro que explodiu de alegria. Um povo habituado a sofrer viu, finalmente, o sonho tornar-se realidade.

            Guardo uma memória muito especial dessa noite. Assim que o árbitro apitou para o fim do jogo, saímos para a rua. Eu, a minha mulher e os meus filhos. Entrámos no carro e fomos para as ruas de Barcelos, a buzinar sem parar, misturados com centenas de outras pessoas que faziam exatamente o mesmo. Bandeiras nas janelas, sorrisos estampados nos rostos, abraços entre desconhecidos, crianças ao colo dos pais, idosos emocionados. Durante algumas horas não havia diferenças, nem preocupações, nem problemas. Havia apenas um sentimento comum. O orgulho de sermos Portugueses.

            Ainda hoje, quando oiço o relato daquele golo ou revejo as imagens, volto imediatamente a essa noite. Consigo quase ouvir novamente as buzinas, sentir a alegria contagiante das ruas e recordar os olhos dos meus filhos, felizes por estarem a viver um momento que sabiam ser histórico.

            Nem todos gostam de futebol. E isso é perfeitamente natural. Mas acredito que aquele dia ultrapassou o desporto. Foi um raro momento em que um país inteiro celebrou unido. Um momento em que nos sentimos capazes de tudo.

            Dez anos passaram. Algumas coisas mudaram. Os miúdos cresceram, a vida seguiu o seu caminho, surgiram novas alegrias e também novas dificuldades. Mas há memórias que o tempo não consegue apagar.

            A noite em que Éder calou a França.

            A noite em que Portugal foi campeão da Europa.

            Por isso, sempre que chegar o dia 10 de julho, faço questão de sorrir ao recordar tudo isto. Porque há datas que pertencem aos livros da História. E há outras que pertencem ao coração.

            Esta pertence aos dois.

            E, convenhamos... o Éder tinha razão.

            Este dia devia mesmo ser feriado.


 

03 julho 2026


O Justiceiro voltou... e trouxe a adolescência com dele!

            Esta semana deparei-me com uma notícia que me fez sorrir de imediato. Uma réplica do famoso carro da série O Justiceiro (Knight Rider) vai estar em exposição num bar perto de minha casa.

            Foi daquelas notícias que nos fazem viajar no tempo sem pedir licença. De repente, deixei de estar em 2026 e voltei aos finais das tardes de domingo da minha adolescência A notícia era pequena, mas bastou ler aquelas poucas linhas para ser transportado quarenta anos para trás. Era quase um ritual. O domingo estava a chegar ao fim, a escola esperava-nos na segunda-feira, mas havia sempre um momento reservado para acompanhar as aventuras de Michael Knight e do inseparável KITT. Naquela altura, não havia streaming, gravações automáticas ou a possibilidade de ver os episódios quando nos apetecesse. Se perdíamos um episódio... estava perdido. Por isso, quando chegava a hora, a televisão era dona da sala e ninguém me arrancava dali.

            Naquela época, tudo aquilo parecia pura ficção científica. Um carro que conduzia sozinho? Impossível. Um homem que falava com o relógio para comunicar com o carro? Ainda mais impossível. Na nossa imaginação, aquele era o futuro. Um futuro distante, quase inalcançável.

            E, no entanto, cá estamos e percebemos que muitas dessas ideias deixaram de ser ficção.

            Os relógios já não servem só para nos indicar as horas, permitem-nos fazer chamadas, responder a mensagens, consultar mapas ou controlar equipamentos em casa. Os carros estão cada vez mais inteligentes, conseguem estacionar praticamente sem ajuda, manter-se na faixa de rodagem e alguns já percorrem quilómetros quase sem intervenção do condutor. Ainda não temos um KITT exatamente igual ao da televisão, mas estamos muito mais perto dele do que alguma vez imaginámos enquanto víamos a série numa televisão que mais parecia uma caixa de madeira com vidro na frente.

            Talvez seja por isso que esta notícia me tenha despertado tantas recordações.

            Não é apenas um carro em exposição. É um símbolo de uma época em que sonhávamos sem limites. Em que acreditávamos que o futuro seria extraordinário. Em que cada nova tecnologia nos deixava de boca aberta.

            Também me fez pensar em como vivíamos a televisão de forma diferente. As séries eram acontecimentos. Esperávamos uma semana inteira por um novo episódio e, no dia seguinte, falava-se dele na escola, no café ou entre amigos. Todos tinham visto a mesma aventura e todos comentavam a mesma cena. Havia um sentimento de partilha que hoje, com centenas de canais e plataformas, se foi perdendo por completo.

            Para nós, miúdos daquela época, não era apenas uma série. Era a capacidade que tinha de nos fazer sonhar. Fazia-nos acreditar que um dia a tecnologia ultrapassaria tudo o que conhecíamos. E isso para um miúdo naqueles anos 80 era fascinante.

            Quando for ver aquela réplica do KITT, sei que vou admirar todos os detalhes. A carroçaria preta impecável, a luz vermelha a deslizar de um lado para o outro na frente do carro, o interior repleto de botões e ecrãs que, na altura, pareciam saídos do longínquo século XXI.

            Mas, acima de tudo, vou estar a olhar para um pedaço da minha própria história.

            Vou lembrar-me das tardes de domingo, da música inesquecível da abertura, da ansiedade de esperar mais uma semana pelo episódio seguinte e das conversas com os amigos sobre as proezas daquele carro "inteligente". Vou recordar uma época em que ainda não existia Internet, telemóveis ou redes sociais, mas em que a imaginação fazia o resto.

            Há quem diga que nunca devemos olhar para trás. Eu discordo. Tal como quando conduzimos, também na vida o retrovisor tem a sua utilidade. As memórias ajudam-nos a perceber de onde vimos, mas é em frente que o futuro nos espera.


 

26 junho 2026

Histórias de um quadro.

            Há objetos que passam anos pendurados numa parede sem que lhes demos grande importância. Depois, um dia, basta voltar a encontrá-los para percebermos que, afinal, guardavam uma parte da nossa história.

            Este quadro acompanhou os meus primeiros anos de vida. Estava na sala da casa dos meus avós, o lugar onde a minha mãe e eu dormíamos enquanto o meu pai trabalhava emigrado em França, como tantos milhares de portugueses naquele tempo. Curiosamente, passadas tantas décadas, a emigração continua a fazer parte da vida de muitas famílias. Mudam os destinos, mudam as circunstâncias, mas a saudade continua a ser a mesma.

            O quadro retrata o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga. Durante anos, para mim, não era um santuário nem um monumento. Era apenas uma paisagem mágica, cheia de escadarias, árvores, igrejas e pequenos recantos onde a minha imaginação passeava sem sair do lugar.

            Lembro-me especialmente dos dias em que estava doente. O apetite era pouco e a paciência da minha mãe era infinita. Sentava-me em frente àquele quadro e, colher após colher, ela inventava histórias inspiradas na imagem. Cada escadaria levava a um castelo encantado. O elevador escondia passageiros misteriosos. As capelas eram casas de personagens que só existiam naquelas tardes. Enquanto eu ouvia, quase sem dar por isso, a sopa desaparecia do prato.

            Na semana passada, muitos anos depois, fui ao Bom Jesus com a minha mulher e a minha filha. Fizemos um piquenique entre as árvores, passeámos sem pressa e deixei-me ficar a olhar para a escadaria que tantas vezes percorri apenas com a imaginação.

            Foi então que me lembrei do quadro.

            Percebi que, antes de conhecer aquele lugar com os meus próprios pés, já o conhecia com os olhos de uma criança. A minha primeira visita ao Bom Jesus não aconteceu em Braga. Aconteceu na sala dos meus avós, sentado à mesa, enquanto a minha mãe fazia o impossível para convencer um miúdo sem apetite a comer mais uma colher.

            Há memórias que vivem em fotografias. Outras vivem em cheiros ou em músicas. As minhas, por vezes, vivem em quadros pendurados numa parede antiga.

            Hoje, quando olho para esta imagem, já não vejo apenas o Santuário do Bom Jesus do Monte. Vejo a dedicação de uma mãe, a ausência necessária de um pai que procurava um futuro melhor, o carinho dos meus avós e uma infância simples, onde a imaginação conseguia transformar uma gravura numa aventura sem fim.

            Talvez seja isso que torna certos objetos tão valiosos. Não pelo que mostram, mas por tudo aquilo que nos devolvem.