30 abril 2026


Festa das Cruzes entre flores e memórias.

           

             Há festas que se vivem, e há festas que vivem em nós por dentro. A Festa das Cruzes é uma dessas raras romarias que não se limitam a ocupar o calendário. Ocupam-nos a memória, o corpo e, sobretudo, o coração.

            Considerada a primeira grande romaria do Minho, a Festa das Cruzes chega todos os anos como uma explosão de cor, tradição e alegria popular, transformando Barcelos num palco vibrante onde o passado e o presente dançam lado a lado. A sua origem remonta ao século XVI, envolta numa lenda que ainda hoje ecoa nas ruas. No longínquo ano de 1504, o sapateiro João Pires, ao regressar da missa, encontrou no chão do Campo da Feira uma cruz negra. O que interpretou como um sinal divino depressa incendiou a devoção popular ao Senhor da Cruz. Devoção essa que viria a materializar-se no imponente Templo do Bom Jesus da Cruz, hoje coração pulsante da festa.

            Durante vários dias, Barcelos deixa de ser apenas cidade e transforma-se num verdadeiro mundo à parte. Tudo começa com a colocação dos tradicionais arcos de romaria. Obras trabalhadas pelas mãos do povo e por isso carregadas de identidade, onde cada freguesia do concelho se faz representar com orgulho e criatividade.

            Mas, para mim, há um dia que brilha mais alto. O primeiro de maio. A famosa Batalha das Flores não é apenas um desfile, é um espetáculo vivo, quase surreal, onde carros alegóricos travam uma guerra delicada feita de pétalas e perfumes. Flores voam pelo ar como se fossem confetes da natureza, e por momentos tudo parece suspenso numa alegria leve, quase infantil.

            Depois chega o dia 3 de maio, feriado municipal, o dia maior das Cruzes. A dimensão religiosa impõe-se com solenidade na grandiosa procissão, onde as cruzes das 89 paróquias do concelho desfilam em comunhão, num testemunho de fé que atravessa gerações.

            E, no meio de tudo isto, há um movimento incessante e uma alegria contagiante. O centro da cidade transforma-se num parque de diversões a céu aberto, onde os cheiros a farturas e pão com chouriço se misturam com o som das músicas e dos risos. É um convite constante à celebração. Uma celebração simples, genuína, popular.

            Mas talvez o verdadeiro significado desta festa não esteja apenas no que se vê, mas no que se recorda. Porque, para mim, as Cruzes são também feitas de viagens numa velha mota, uma Sachs V5, com o meu pai. São chegadas ansiosas, olhos arregalados perante aquele universo de luzes e movimento. Ele levava-me pela mão a percorrer os carrosséis, paciente, à espera que eu escolhesse “o tal”. E eu escolhia sempre como se fosse a decisão mais importante do mundo.

            Era mágico.

            Aquela feira de diversões parecia outro planeta, tão distante da calma da aldeia onde vivíamos. Havia gente por todo o lado, música no ar, e uma energia que nos envolvia sem pedir licença. E depois, no fim, vinha o ritual. Íamos beber um Sumol ao Magriço. Um café que, na altura, parecia eterno, um ponto fixo no meio da festa. Hoje já não existe. Foi levado, como tantos outros, pela marcha inevitável da modernidade. Mas permanece intacto no lugar mais resistente que existe. A memória.

            Talvez seja isso que torna a Festa das Cruzes tão especial. Não é apenas uma romaria, é um reencontro. Com a cidade, com as tradições… e com aquilo que fomos.


 

20 abril 2026


O reencontro com os meus velhos Amigos.

            Há encontros que não se planeiam, simplesmente acontecem, como se o tempo decidisse, por um instante, dobrar-se sobre si próprio. Reencontros que parecem marcados pelo destino. Como aquele café adiado durante décadas que finalmente acontece. Este fim-de-semana vivi um desses momentos. Dei de caras com eles, os meus velhos companheiros de aventuras, que já não via há quase 40 anos. Voltei a encontrar os meus amigos, companheiros de tantas histórias. Alguns iam comigo para a escola sem ninguém saber. Eram amigos daqueles que fizeram parte de quem eu fui e, de certa forma, de quem ainda sou.

            No fundo de uma velha gaveta, escondidos por velhos trapos ali estavam eles à minha frente, como se nunca tivessem partido. Iguais. Intactos. Como se o tempo tivesse decidido não lhes tocar. E, por um instante, também eu deixei de sentir o peso dos anos.

            Com eles vivi batalhas épicas, histórias sem fim, mundos inventados onde tudo era possível. Eram os meus “índios e cowboys”, protagonistas de tardes intermináveis passadas no quintal dos meus avós, onde cada árvore era um forte, cada rego de água um rio imenso, e cada canto escondia um novo desafio.

            Lembro-me de como chegaram até mim. Alguns trazidos pelo meu pai, diretamente de França, carregados não só na mala, mas também no esforço de uma vida de emigrante. Outros vinham das mãos das minhas tias, nas quintas-feiras de feira em Barcelos, quando o dia corria bem e havia espaço para um mimo. Pequenos gestos que, na altura, pareciam simples mas que hoje percebo serem enormes.

            E depois havia o Nuno. O meu primo, o meu parceiro de brincadeiras, o estratega das nossas campanhas. Juntos, transformávamos o mundo à nossa volta em cenários dignos das maiores aventuras. Construíamos barcos improvisados no banco de carpinteiro do meu avô, atravessávamos “rios”, conquistávamos territórios imaginários. Éramos invencíveis, ou pelo menos acreditávamos que sim.

            Reencontrá-los agora foi como abrir uma porta esquecida dentro de mim. Trouxeram consigo não apenas memórias, mas sensações. O cheiro da terra, o som da água, o riso despreocupado de quem ainda não sabia o que era o tempo.

            E talvez seja isso o mais bonito. Perceber que há coisas que não envelhecem. Que ficam guardadas, intactas, à espera de serem redescobertas.

            Tal como estes meus velhos amigos.

 

10 abril 2026

Dois Homens, Uma Guerra. Memórias da minha Aldeia.

 

            Há imagens que não são apenas retratos, são janelas abertas para um tempo de incerteza, coragem e silêncio. Esta fotografia guarda dois rostos da minha aldeia. Uma aldeia minhota que quando rebentou a I Guerra Mundial contava pouco mais de quatrocentas pessoas. Dois homens simples que a História convocou para um dos seus capítulos mais duros e cruéis. Manuel Valério Enes e António Joaquim Oliveira foram os únicos homens da aldeia de Creixomil a quem lhes calhou tal sorte.

            Partiram como tantos outros, vindos de famílias humildes, onde a vida se fazia de trabalho árduo e poucas certezas. Quando foram chamados à guerra, pouco sabiam do que os esperava. A I Guerra Mundial era ainda um eco distante, uma realidade difícil de compreender para quem nunca tinha saído do seu pequeno mundo. Mas o dever falou mais alto, e seguiram caminho.

            Foi na longínqua e dura Batalha de La Lys que enfrentaram o verdadeiro peso da guerra. Entre o frio, a lama, o medo constante e o estrondo das armas, viveram dias que dificilmente cabem em palavras. A guerra não era feita apenas de combates. Era feita de espera, de saudade, de noites sem descanso e da permanente incerteza do amanhã.

            Quando os nossos governantes celebram com bonitos discursos o Dia do Combatente, quando evocamos mais um aniversário desse momento trágico da nossa História, devemos lembrar não apenas o conflito, mas os homens que nele participaram. Assim o faço em relação aos meus conterrâneos Manuel Valério Enes e António Joaquim Oliveira que lá estiveram. Foram combatentes numa batalha que marcou profundamente a presença portuguesa na guerra e deixou cicatrizes em toda uma geração.

            Mas, no meio de tanta perda, a sua história traz também um raro alívio. Ambos regressaram a casa "sãos e salvos". Voltaram às suas raízes, às suas famílias, à vida que tinham deixado para trás. Ainda que, certamente, nunca mais fossem os mesmos. Trouxeram consigo memórias que o tempo não apaga, mas também a prova de uma resistência silenciosa que merece ser lembrada.

            Hoje, ao olharmos esta fotografia, não vemos apenas dois soldados. Vemos dois homens da minha terra, testemunhas de um tempo difícil, cuja coragem discreta continua a ecoar entre nós.

            Que a sua memória perdure, não apenas como parte da História, mas como parte de quem somos.

            E ao olharmos para o mundo de hoje, onde tantas vezes a guerra volta a ocupar o espaço das conversas como se fosse algo distante ou inevitável, importa lembrar que por trás de cada conflito existem vidas reais, sonhos interrompidos e histórias como as de Manuel e António. Que a memória do que viveram nos ajude a valorizar a paz que tantas vezes tomamos por garantida e a reconhecer que aquilo que hoje parece apenas notícia foi, para eles e para tantos outros, uma dura e incontornável realidade.


 

02 abril 2026


A Páscoa Minhota 

e o Toque dos Sinos.

           

             Há tradições que o tempo não apaga, apenas as torna mais suaves, como um eco distante que ainda ressoa nas aldeias do Minho. A Páscoa minhota é uma dessas heranças vivas. Cada vez mais esbatida, é certo, mas ainda profundamente sentida por quem a vive e por quem a guarda na memória.

            O domingo de Páscoa começava cedo, com o compasso pascal a percorrer os caminhos de terra batida, de casa em casa, anunciando a ressurreição de Jesus. Não era apenas uma visita religiosa — era um momento de encontro, de comunidade, de portas abertas e corações também.

            Cada casa preparava-se com cuidado. À entrada, tapetes de flores desenhados à mão, com pétalas coloridas colhidas nos campos. Era um gesto simples, mas carregado de significado e orgulho.

            O compasso vinha composto por membros das confrarias e pelo senhor padre, figura central da celebração. À frente, uma ou duas crianças tinham a honra de tocar a sineta, anunciando a chegada. Era um som inconfundível. Leve e ritmado que fazia as pessoas interromperem o que estavam a fazer para receber a visita com respeito e alegria.

            Hoje, com a escassez de padres, são muitas vezes leigos que assumem essa missão. A tradição adapta-se, resiste, mas já não é bem a mesma coisa.

            E depois havia os sinos.

            Ah, os sinos da Páscoa.

            Nesse dia, a torre da igreja tornava-se território aberto. Os mais velhos deixavam, de propósito, as portas destrancadas, como um convite silencioso à ousadia dos mais novos. E nós corríamos pelo adro, pelas escadas estreitas da torre, numa corrida desenfreada para ver quem chegava primeiro.

            Tocar o sino era uma conquista. Uma alegria difícil de explicar. O peso da corda nas mãos, o som a encher o ar, a sensação de fazer parte de algo maior.

            Às vezes, aparecia um tio ou um vizinho mais experiente, mestre na arte dos repiques, que nos ensinava pequenos truques. O ritmo, a pausa, a força certa. Momentos que pareciam lições, mas eram muito mais do que isso. Eram passagens de testemunho.

            Claro que nem tudo era inocente. Havia sempre os mais atrevidos que, já com algum jeito e traquejo, arriscavam tocar o sino a defunto. Bastava isso para ver as janelas abrirem-se de repente e ouvir os vizinhos, entre o susto e a irritação, ameaçarem-nos com umas boas palmadas se não parássemos com a brincadeira.

            E nós ríamos. E corríamos. E voltávamos a tentar.

            Hoje, já não é assim. Tudo mudou. As torres estão fechadas, os sinos tocam sozinhos obedecendo a botões e horários, comandados por sistemas eletrónicos. As crianças estão em casa. Tudo mais controlado, mais seguro… e talvez um pouco mais vazio.

            São modernices.

            Mas dentro de quem viveu esses dias, o som dos sinos continua a tocar livre, imperfeito e cheio de vida, como naquele domingo de Páscoa em que ser criança era suficiente para nos sentirmos donos do mundo.

            E talvez seja isso que importa preservar.

            Não apenas o compasso, os tapetes de flores ou o toque dos sinos — mas a essência de uma Páscoa vivida em conjunto, com portas abertas, risos soltos e o coração disponível. Enquanto houver quem conte estas histórias, quem ainda abra a porta à cruz e quem sinta um arrepio ao ouvir um sino tocar, a Páscoa minhota não desaparecerá.




 

27 março 2026


     Coleções de memórias

            Havia qualquer coisa de mágico naquele ritual simples de comprar uma chiclete Gorila. Não era pelo sabor, duro como pedra nos primeiros minutos, desafiando os dentes e a paciência, mas pelo pequeno tesouro escondido lá dentro. Um cromo. Um pedaço de papel que, para nós, valia mais do que qualquer moeda.

            Lembro-me bem destes aviões. Pequenos desenhos a preto e branco que nos transportavam para um mundo distante. A I e a II Guerra Mundial, nomes complicados, países que ainda mal sabíamos apontar no mapa, velocidades e altitudes que pareciam coisa de ficção. Sem darmos conta, aprendíamos. Aprendíamos história, geografia, tecnologia. Tudo isto enquanto mascavamos uma chiclete que, convenhamos, parecia feita de borracha de pneu.

            Colecionar era uma aventura. Havia trocas no recreio, negociações dignas de diplomatas, discussões acesas por causa de um cromo repetido que afinal não era assim tão repetido. Cada coleção era um projeto, um compromisso, uma pequena obsessão que nos ensinava mais do que muitos livros escolares.

            E depois veio a idade da parvalheira, aquela fase em que achamos que já somos crescidos demais para estas coisas. Coleções? Coisa de miúdos. E assim, sem grande cerimónia, muitas dessas relíquias acabaram no lixo. Hoje penso nisso e custa um bocadinho. Não pelo valor material, mas pela história que levaram consigo.

            Curioso como o mundo dá voltas. Na altura, aqueles aviões eram quase heróis de papel, símbolos de uma história distante que estudávamos com curiosidade. Hoje, fala-se de guerra todos os dias, mas o cenário mudou. Já não são os aviões que dominam os céus — são os drones, silenciosos, impessoais, quase invisíveis. A guerra parece cada vez mais um jogo de computador, onde quem está longe carrega num botão e tudo acontece no ecrã e nas nossas vidas.

            Talvez por isso estas memórias tenham ainda mais peso. Havia uma inocência na forma como aprendíamos sobre conflitos — mediada por cromos, por desenhos, por histórias contadas à distância do tempo. Hoje, a realidade é mais crua, mais próxima, mais desconcertante.

            Colecionar nunca foi só juntar coisas. É uma forma de organizar o mundo, de o compreender aos poucos, peça a peça. É aprender sem dar por isso, é criar ligações, é dar valor ao detalhe. É, no fundo, crescer.

            E talvez seja isso que mais falta faz hoje. Parar um pouco, juntar as peças com calma, e tentar perceber o mundo, mesmo que comece com algo tão simples como um cromo. Talvez ainda vá a tempo de recuperar um pouco disso. Não os cromos perdidos, mas o espírito de quem colecionava sem pressa, com curiosidade e encantamento. Porque no meio de tanta pressa, de tanta informação e de um mundo cada vez mais distante do toque humano, talvez colecionar memórias, histórias ou pequenos objetos seja uma forma silenciosa de resistir e de nos lembrarmos de quem fomos… e de quem ainda podemos ser. 

            No fundo, aquelas coleções nunca foram apenas sobre completar séries ou encontrar o cromo raro. Eram sobre o tempo que investíamos nelas, sobre as histórias que imaginávamos a partir de cada imagem, sobre a forma como, sem darmos conta, dávamos significado a pequenos pedaços de papel. Hoje, num mundo onde tudo é imediato e descartável, talvez o verdadeiro valor esteja precisamente no contrário. No que guardamos, no que preservamos e no que escolhemos não esquecer. Porque, crescer não devia ser deixar para trás, mas sim saber levar connosco aquilo que nos fez.