A Páscoa Minhota
e o Toque dos Sinos.
Há tradições
que o tempo não apaga, apenas as torna mais suaves, como um eco distante que
ainda ressoa nas aldeias do Minho. A Páscoa minhota é uma dessas heranças
vivas. Cada vez mais esbatida, é certo, mas ainda profundamente sentida por
quem a vive e por quem a guarda na memória.
O domingo de
Páscoa começava cedo, com o compasso pascal a percorrer os caminhos de terra
batida, de casa em casa, anunciando a ressurreição de Jesus. Não era apenas uma
visita religiosa — era um momento de encontro, de comunidade, de portas abertas
e corações também.
Cada casa
preparava-se com cuidado. À entrada, tapetes de flores desenhados à mão, com
pétalas coloridas colhidas nos campos. Era um gesto simples, mas carregado de
significado e orgulho.
O compasso
vinha composto por membros das confrarias e pelo senhor padre, figura central
da celebração. À frente, uma ou duas crianças tinham a honra de tocar a sineta,
anunciando a chegada. Era um som inconfundível. Leve e ritmado que fazia as
pessoas interromperem o que estavam a fazer para receber a visita com respeito
e alegria.
Hoje, com a
escassez de padres, são muitas vezes leigos que assumem essa missão. A tradição
adapta-se, resiste, mas já não é bem a mesma coisa.
E depois
havia os sinos.
Ah, os sinos
da Páscoa.
Nesse dia, a
torre da igreja tornava-se território aberto. Os mais velhos deixavam, de
propósito, as portas destrancadas, como um convite silencioso à ousadia dos
mais novos. E nós corríamos pelo adro, pelas escadas estreitas da torre, numa
corrida desenfreada para ver quem chegava primeiro.
Tocar o sino
era uma conquista. Uma alegria difícil de explicar. O peso da corda nas mãos, o
som a encher o ar, a sensação de fazer parte de algo maior.
Às vezes,
aparecia um tio ou um vizinho mais experiente, mestre na arte dos repiques, que
nos ensinava pequenos truques. O ritmo, a pausa, a força certa. Momentos que
pareciam lições, mas eram muito mais do que isso. Eram passagens de testemunho.
Claro que
nem tudo era inocente. Havia sempre os mais atrevidos que, já com algum jeito e
traquejo, arriscavam tocar o sino a defunto. Bastava isso para ver as janelas
abrirem-se de repente e ouvir os vizinhos, entre o susto e a irritação,
ameaçarem-nos com umas boas palmadas se não parássemos com a brincadeira.
E nós
ríamos. E corríamos. E voltávamos a tentar.
Hoje, já não
é assim. Tudo mudou. As torres estão fechadas, os sinos tocam sozinhos obedecendo
a botões e horários, comandados por sistemas eletrónicos. As crianças estão em
casa. Tudo mais controlado, mais seguro… e talvez um pouco mais vazio.
São
modernices.
Mas dentro
de quem viveu esses dias, o som dos sinos continua a tocar livre, imperfeito e
cheio de vida, como naquele domingo de Páscoa em que ser criança era suficiente
para nos sentirmos donos do mundo.
E talvez seja isso que importa
preservar.
Não
apenas o compasso, os tapetes de flores ou o toque dos sinos — mas a essência
de uma Páscoa vivida em conjunto, com portas abertas, risos soltos e o coração
disponível. Enquanto houver quem conte estas histórias, quem ainda abra a porta
à cruz e quem sinta um arrepio ao ouvir um sino tocar, a Páscoa minhota não
desaparecerá.



