Vindimas. A teimosia de quem
não deixa morrer as tradições.
Há tradições
que teimam em não morrer. Mesmo quando o tempo passa, os hábitos mudam e as
dificuldades se acumulam, há quem continue a fazer as coisas como aprendeu,
como viu fazer aos seus pais e avós. As vindimas são uma dessas tradições. Uma
teimosia bonita, feita de trabalho, memórias e amor à terra.
Longe vão os
tempos em que, por esta altura, os campos se enchiam de gente. As vinhas
transformavam-se num verdadeiro formigueiro humano, onde cada mão era preciosa
e cada cacho de uvas representava o resultado de meses de trabalho e dedicação.
Era tempo de vindimar e de preparar aquele precioso néctar que tanto orgulho
dava aos lavradores.
Naqueles
tempos, ninguém ficava de fora. Nem mesmo as crianças, que também eram
recrutadas para a dura tarefa. Aos mais pequenos, que ainda não tinham tamanho
para chegar aos cachos, era-lhes atribuída uma missão muito especial. Apanhar
os bagos de uva que caíam ao chão.
E, para
incentivar os pequenos vindimadores, havia sempre uma história que se contava:
“Uma vez uma
velhinha encheu uma pipa de vinho só com os bagos!”
Nunca soube
se tal velhinha existiu ou se alguma pipa chegou a ser enchida daquela maneira.
Mas a verdade é que a história cumpria a sua missão. Lá continuávamos nós, de
cabeça baixa, à procura de cada bago perdido, convencidos de que também
estávamos a contribuir para encher mais uma pipa de vinho.
Hoje, os
tempos são outros. As pessoas têm outros ritmos, outras profissões e outras
prioridades. As vindimas já não mobilizam aldeias inteiras, nem se vê aquela
azáfama de antigamente. Por esses campos e vinhas, encontram-se sobretudo os
que resistem.
Os meus
pais, já na casa dos oitenta anos, continuam a fazer as vindimas e a fabricar o
seu próprio vinho. Ano após ano, lá estão eles, a repetir os gestos que
aprenderam com os seus antepassados, como se o tempo não tivesse passado.
É impossível
não sentir admiração por esta persistência. Mas também alguma tristeza ao
perceber que são, cada vez mais, os idosos que mantêm viva esta tradição.
Aqueles que já carregam muitas vindimas nas costas e que, apesar dos anos e do
cansaço, continuam a cuidar da terra e a colher os seus frutos.
Não sei
quantas vindimas mais os meus pais conseguirão fazer. Mas sei que, enquanto
continuarem, haverá sempre qualquer coisa de profundamente nosso a acontecer
naqueles campos.
E talvez um
dia alguém volte a contar às crianças a história da velhinha que encheu uma
pipa de vinho só com os bagos caídos no chão.
Talvez já
ninguém acredite. Mas espero que alguém lhes explique que houve um tempo em que
cada bago contava, cada mão fazia falta e cada vindima era muito mais do que
uma colheita.
Era a vida
da aldeia a acontecer.
Porque há
tradições que não sobrevivem por serem fáceis de manter. Sobrevivem porque há
quem não consiga deixar de as amar.




