03 julho 2026


O Justiceiro voltou... e trouxe a adolescência com dele!

            Esta semana deparei-me com uma notícia que me fez sorrir de imediato. Uma réplica do famoso carro da série O Justiceiro (Knight Rider) vai estar em exposição num bar perto de minha casa.

            Foi daquelas notícias que nos fazem viajar no tempo sem pedir licença. De repente, deixei de estar em 2026 e voltei aos finais das tardes de domingo da minha adolescência A notícia era pequena, mas bastou ler aquelas poucas linhas para ser transportado quarenta anos para trás. Era quase um ritual. O domingo estava a chegar ao fim, a escola esperava-nos na segunda-feira, mas havia sempre um momento reservado para acompanhar as aventuras de Michael Knight e do inseparável KITT. Naquela altura, não havia streaming, gravações automáticas ou a possibilidade de ver os episódios quando nos apetecesse. Se perdíamos um episódio... estava perdido. Por isso, quando chegava a hora, a televisão era dona da sala e ninguém me arrancava dali.

            Naquela época, tudo aquilo parecia pura ficção científica. Um carro que conduzia sozinho? Impossível. Um homem que falava com o relógio para comunicar com o carro? Ainda mais impossível. Na nossa imaginação, aquele era o futuro. Um futuro distante, quase inalcançável.

            E, no entanto, cá estamos e percebemos que muitas dessas ideias deixaram de ser ficção.

            Os relógios já não servem só para nos indicar as horas, permitem-nos fazer chamadas, responder a mensagens, consultar mapas ou controlar equipamentos em casa. Os carros estão cada vez mais inteligentes, conseguem estacionar praticamente sem ajuda, manter-se na faixa de rodagem e alguns já percorrem quilómetros quase sem intervenção do condutor. Ainda não temos um KITT exatamente igual ao da televisão, mas estamos muito mais perto dele do que alguma vez imaginámos enquanto víamos a série numa televisão que mais parecia uma caixa de madeira com vidro na frente.

            Talvez seja por isso que esta notícia me tenha despertado tantas recordações.

            Não é apenas um carro em exposição. É um símbolo de uma época em que sonhávamos sem limites. Em que acreditávamos que o futuro seria extraordinário. Em que cada nova tecnologia nos deixava de boca aberta.

            Também me fez pensar em como vivíamos a televisão de forma diferente. As séries eram acontecimentos. Esperávamos uma semana inteira por um novo episódio e, no dia seguinte, falava-se dele na escola, no café ou entre amigos. Todos tinham visto a mesma aventura e todos comentavam a mesma cena. Havia um sentimento de partilha que hoje, com centenas de canais e plataformas, se foi perdendo por completo.

            Para nós, miúdos daquela época, não era apenas uma série. Era a capacidade que tinha de nos fazer sonhar. Fazia-nos acreditar que um dia a tecnologia ultrapassaria tudo o que conhecíamos. E isso para um miúdo naqueles anos 80 era fascinante.

            Quando for ver aquela réplica do KITT, sei que vou admirar todos os detalhes. A carroçaria preta impecável, a luz vermelha a deslizar de um lado para o outro na frente do carro, o interior repleto de botões e ecrãs que, na altura, pareciam saídos do longínquo século XXI.

            Mas, acima de tudo, vou estar a olhar para um pedaço da minha própria história.

            Vou lembrar-me das tardes de domingo, da música inesquecível da abertura, da ansiedade de esperar mais uma semana pelo episódio seguinte e das conversas com os amigos sobre as proezas daquele carro "inteligente". Vou recordar uma época em que ainda não existia Internet, telemóveis ou redes sociais, mas em que a imaginação fazia o resto.

            Há quem diga que nunca devemos olhar para trás. Eu discordo. Tal como quando conduzimos, também na vida o retrovisor tem a sua utilidade. As memórias ajudam-nos a perceber de onde vimos, mas é em frente que o futuro nos espera.


 

26 junho 2026

Histórias de um quadro.

            Há objetos que passam anos pendurados numa parede sem que lhes demos grande importância. Depois, um dia, basta voltar a encontrá-los para percebermos que, afinal, guardavam uma parte da nossa história.

            Este quadro acompanhou os meus primeiros anos de vida. Estava na sala da casa dos meus avós, o lugar onde a minha mãe e eu dormíamos enquanto o meu pai trabalhava emigrado em França, como tantos milhares de portugueses naquele tempo. Curiosamente, passadas tantas décadas, a emigração continua a fazer parte da vida de muitas famílias. Mudam os destinos, mudam as circunstâncias, mas a saudade continua a ser a mesma.

            O quadro retrata o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga. Durante anos, para mim, não era um santuário nem um monumento. Era apenas uma paisagem mágica, cheia de escadarias, árvores, igrejas e pequenos recantos onde a minha imaginação passeava sem sair do lugar.

            Lembro-me especialmente dos dias em que estava doente. O apetite era pouco e a paciência da minha mãe era infinita. Sentava-me em frente àquele quadro e, colher após colher, ela inventava histórias inspiradas na imagem. Cada escadaria levava a um castelo encantado. O elevador escondia passageiros misteriosos. As capelas eram casas de personagens que só existiam naquelas tardes. Enquanto eu ouvia, quase sem dar por isso, a sopa desaparecia do prato.

            Na semana passada, muitos anos depois, fui ao Bom Jesus com a minha mulher e a minha filha. Fizemos um piquenique entre as árvores, passeámos sem pressa e deixei-me ficar a olhar para a escadaria que tantas vezes percorri apenas com a imaginação.

            Foi então que me lembrei do quadro.

            Percebi que, antes de conhecer aquele lugar com os meus próprios pés, já o conhecia com os olhos de uma criança. A minha primeira visita ao Bom Jesus não aconteceu em Braga. Aconteceu na sala dos meus avós, sentado à mesa, enquanto a minha mãe fazia o impossível para convencer um miúdo sem apetite a comer mais uma colher.

            Há memórias que vivem em fotografias. Outras vivem em cheiros ou em músicas. As minhas, por vezes, vivem em quadros pendurados numa parede antiga.

            Hoje, quando olho para esta imagem, já não vejo apenas o Santuário do Bom Jesus do Monte. Vejo a dedicação de uma mãe, a ausência necessária de um pai que procurava um futuro melhor, o carinho dos meus avós e uma infância simples, onde a imaginação conseguia transformar uma gravura numa aventura sem fim.

            Talvez seja isso que torna certos objetos tão valiosos. Não pelo que mostram, mas por tudo aquilo que nos devolvem.

 

 

19 junho 2026



Os calendários do México 86.

            Hoje, quando o futebol volta a dominar conversas, jornais e redes sociais, e quando crianças e adultos parecem ter sido novamente "infetados" pela epidemia dos cromos, não consigo evitar uma viagem ao passado. Há memórias que regressam sem aviso. Basta uma fotografia, um cheiro, uma música ou, neste caso, um punhado de pequenos calendários espalhados sobre uma mesa.

            Esta fotografia leva-me diretamente a 1986. Faz agora cerca de quarenta anos. Portugal preparava-se para disputar o seu segundo Campeonato do Mundo de Futebol, vinte anos depois da histórica participação em Inglaterra, e o país voltava a sonhar com os grandes palcos do futebol internacional. Para mim, porém, esse Mundial representou muito mais do que futebol. Foi também o ponto de partida para a descoberta de uma nova paixão, o colecionismo.

            Os protagonistas desta história são estes calendários dedicados ao Mundial do México 86. Pequenos pedaços de cartolina que mostravam jogadores, seleções e imagens que alimentavam a imaginação de qualquer criança apaixonada pelo desporto-rei. Mas o verdadeiro responsável por eu ter começado a guardá-los não foi nenhum jogador famoso nem qualquer campanha publicitária. O "culpado" tinha um nome bem conhecido e já retratado numa crónica neste meu “rabiscos d’estórias”. O meu professor da escola primária, o Sr. Professor Norberto.

            Com uma simplicidade que hoje parece quase ingénua, mas que na época era de uma eficácia extraordinária, o Professor Norberto encontrou uma forma de nos motivar a melhorar a escrita. Os alunos que dessem menos erros nos ditados recebiam calendários como prémio. Não havia troféus nem medalhas. Havia apenas aqueles pequenos cartões coloridos que, para nós, tinham um valor imenso.

            Lembro-me da expectativa antes de cada ditado. O silêncio na sala de aula, a concentração em cada palavra e a esperança de conquistar mais um calendário para a coleção. Cada prémio era uma vitória pessoal. E, sem que eu me apercebesse, aqueles calendários foram-se acumulando, transformando-se na minha primeira coleção.

            O curioso é que, olhando para eles hoje, percebo que guardam muito mais do que imagens do Mundial do México. Guardam recordações de uma escola diferente, de professores que sabiam despertar o entusiasmo dos alunos com recursos simples, de uma infância em que as pequenas conquistas tinham um sabor especial. Guardam também a memória de um país que voltava a sonhar com a Seleção Nacional e de um rapaz que descobria o prazer de colecionar, organizar e preservar objetos que contavam histórias.

            Passaram quatro décadas. Os jogadores retratados nestes calendários já pertencem à história do futebol e algumas das seleções aqui representadas pertencem, elas próprias, a países que já desapareceram dos mapas. A União Soviética e a R.F.A. existem apenas na memória e nos livros de História. O Mundial de 1986 ficou para trás, tal como um mundo muito diferente daquele que conhecemos hoje. Mas estes pequenos calendários continuam aqui, resistentes ao tempo, como testemunhas silenciosas de uma época feliz, preservando não apenas recordações desportivas, mas também a memória de nações, bandeiras e momentos que o passar dos anos transformou em História.

            E sempre que o mundo volta a girar em torno de um Campeonato do Mundo, entre álbuns de cromos, trocas de repetidos e conversas sobre futebol, volto a lembrar-me do Professor Norberto, dos ditados da escola primária e daqueles calendários que, sem eu saber, marcaram o início de uma paixão que ainda hoje me acompanha.

            Às vezes, os grandes hobbies da nossa vida começam precisamente assim. Com um simples prémio escolar entregue pelas mãos de um professor que soube transformar palavras bem escritas em memórias para toda a vida.

 

09 junho 2026


Hoje faço 50 anos!

            Metade de um século. Escrever esta frase faz-me sorrir, porque durante muitos anos essa idade parecia tão distante que quase pertencia a outra vida. E, de certa forma, pertence mesmo.

            Ao olhar para trás, vejo muito mais do que datas, fotografias ou acontecimentos. Vejo pessoas que deixaram marcas, caminhos que escolhi e outros que deixei por percorrer. Vejo erros que, na altura, pareciam derrotas e que acabaram por se transformar em lições valiosas. Vejo sonhos concretizados e outros que mudaram de forma ao longo do tempo.

            Aos 50 anos percebo que a vida não é uma corrida para chegar primeiro a algum lugar. É uma coleção de momentos, de encontros, de despedidas, de recomeços e de pequenas alegrias que muitas vezes só reconhecemos quando olhamos para trás.

            Aprendi que o tempo é o bem mais precioso que possuímos. Aprendi a valorizar mais as pessoas do que as coisas, mais as experiências do que as aparências. Aprendi que nem tudo está sob o nosso controlo e que aceitar isso traz uma paz que a juventude raramente conhece.

            Também aprendi que nunca é tarde para começar algo novo. A idade não fecha portas, apenas nos ensina a escolher melhor quais vale a pena abrir.

            Hoje agradeço. À família, aos amigos, aos que ficaram e aos que partiram deixando ensinamentos. Agradeço pelos dias fáceis e pelos difíceis, porque todos contribuíram para a pessoa que sou agora.

            Mas quando olho para esta fotografia, vejo mais do que um retrato de infância. Vejo o menino que sonhava sem limites, que descobria o mundo com espanto e que acreditava que tudo era possível.

            Esse menino nunca desapareceu. Continua aqui em mim. Continua a emocionar-se com as pequenas coisas, a sonhar novos caminhos, a rir, a sorrir, a aprender e a acreditar na beleza da vida.

            Aos 50 anos, carrego comigo a experiência do homem que me tornei, mas também a esperança e a vontade de viver daquele menino que um dia fui e que teimosamente continuo a querer ser.

            Porque envelhecer não é perder a criança que existe em nós. É aprender a caminhar com ela, valorizá-la e permitir que continue a iluminar o caminho.

            Os 50 anos não são um ponto de chegada. São apenas mais uma página de uma história que ainda está a ser escrita.

            E que privilégio é poder continuar a escrevê-la.

            Obrigado Vida!


 

05 junho 2026


A Caixa de Sortido do Cavalinho

            Hoje, durante a pausa da manhã no trabalho, aconteceu uma daquelas coisas simples que nos transportam para longe sem precisarmos de sair do lugar.

            Um dos meus colegas estava a comer umas bolachas. Nada de extraordinário, à primeira vista. Mas bastou olhar para elas para que uma porta se abrisse na minha memória. De repente, já não estava na sala de convívio da empresa. Estava de volta à minha infância.

            Lembrei-me imediatamente do meu avô.

            O meu avô tinha sempre uma caixa de sortido que guardava para os netos. Era quase uma tradição sagrada das tardes de domingo. Nessa altura, eu ainda vivia em casa dele e, como era habitual, os meus primos apareciam para a visita semanal. Eram muitos. A casa enchia-se de vozes, gargalhadas e da energia inesgotável que só as crianças conseguem trazer.

            Primeiro, reuníamo-nos em frente à televisão. Era uma televisão a preto e branco, sem comando, bem diferente das que hoje ocupam as nossas salas. Ali assistíamos aos desenhos animados da Disney, completamente fascinados por um mundo que, embora sem cor no ecrã, era colorido na nossa imaginação.

Depois vinham as brincadeiras. Corríamos pelo quintal, inventávamos aventuras, discutíamos regras que ninguém cumpria e fazíamos as pazes minutos depois. As tardes pareciam intermináveis.

            Mas havia um momento que todos aguardávamos. Quando a hora da despedida se aproximava, surgia o meu avô.

            Nas mãos trazia a famosa caixa de sortido. Ainda hoje a consigo ver com uma nitidez impressionante. Era uma caixa vermelha, decorada com uma pintura que representava uma cena de caça, com cavalos, cavaleiros e cães. Talvez fosse apenas uma embalagem comum para os adultos, mas para nós tinha algo de mágico. Era a caixa das bolachas do cavalinho como nós lhe chamávamos.

            A tampa abria-se e revelava um pequeno tesouro. Bolachas de todas as formas e sabores. Cada um escolhia a sua favorita, enquanto o avô se certificava de que ninguém ficava sem a sua parte. Não era apenas a distribuição das bolachas. Era um gesto de carinho. Uma forma simples de nos fazer sentir especiais.

            Curiosamente, não me recordo do sabor exato de muitas dessas bolachas. O que ficou guardado foi algo muito mais importante. A imagem do meu avô, o convívio dos primos, as tardes de domingo e a felicidade genuína daqueles momentos.

É estranho como a memória funciona. Às vezes, anos e anos de vida ficam adormecidos num canto qualquer da nossa mente. Depois basta uma simples bolacha, numa pausa de trabalho, para trazer tudo de volta.

            Enquanto o meu colega terminava as suas bolachas, eu regressava devagar ao presente. Sorri para mim mesmo. Há memórias que não precisam de fotografias para sobreviver. Basta o sabor de uma bolacha para que voltem a abrir-se, como a tampa daquela velha caixa vermelha nas tardes de domingo da minha infância.