20 julho 2026


Ainda continuo lá...

Um ano depois

            Há precisamente um ano abri este espaço com o “rabisco” de uma porta.

            À primeira vista era apenas uma velha porta de madeira, marcada pelo tempo, pelo sol, pela chuva e pelas mãos de quem a empurrou durante tantos anos. Para mim, porém, nunca foi apenas uma porta. Era o lugar onde tudo começou.

            Naquele dia escrevi que ainda morava lá.

            Hoje, passados doze meses, quarenta e sete crónicas e mais de vinte mil visitas depois, percebo que essa frase continua a ser tão verdadeira como no primeiro instante em que a escrevi.

            Continuo lá.

            Não na casa de pedra onde nasci, porque as casas envelhecem, fecham portas e aprendem a viver em silêncio. Continuo lá porque há lugares que deixam de existir no mapa para passarem a existir dentro de nós.

            A memória faz esse milagre.

            Basta uma fotografia, um cheiro a madeira antiga ou o ranger imaginário daquela porta para que eu volte a ser a criança que corria pelo quintal sem relógio, que esperava pelos tios aos domingos, que via a cozinha encher-se de vozes e acreditava que as tardes nunca acabariam.

            Aquela porta conheceu tudo de mim antes de eu conhecer o mundo. Viu os primeiros passos, as primeiras quedas, os primeiros medos e os primeiros sonhos. Assistiu a despedidas que, na altura, pareciam pequenas e a regressos que sabiam a festa. Foi testemunha silenciosa da vida de uma família inteira.

            Hoje permanece fechada. Mas as portas nunca se fecham verdadeiramente quando continuam abertas na memória de alguém. Talvez seja essa a razão deste blog existir. Cada texto que aqui publiquei durante este último ano foi uma maneira de voltar a casa. Não para mudar o passado, mas para lhe agradecer. Para lhe dar voz antes que o tempo apagasse os detalhes que fazem uma vida.

            Escrever tornou-se uma forma de abrir aquela porta vezes sem conta.

            E, para minha surpresa, descobri que do outro lado também havia quem quisesse entrar. Pessoas que encontraram nas minhas memórias um pedaço das suas. Porque, no fundo, todos guardamos uma porta antiga, uma rua, um quintal, uma mesa ou um abraço onde continuamos a morar, mesmo depois de termos partido.

            Vinte mil visitas podem parecer apenas um número. Para mim, são as vezes que alguém parou por instantes para caminhar comigo pelas ruas da minha infância.

            Não podia pedir melhor companhia. Por isso hoje volto à mesma imagem. Não por nostalgia, mas porque ela continua a lembrar-me de onde venho. E enquanto souber de onde venho, nunca me perderei completamente.

            Há quem diga que não se pode voltar atrás. Talvez tenham razão. Mas há um lugar onde sempre regressamos. À memória! E é por isso que, um ano depois, posso escrever a mesma frase sem mudar uma única palavra.

            Ainda continuo lá.

 

20 comentários:

  1. Que maravilha de crónica!!
    Um ano?! Parece que foi ontem!
    E que grande sucesso.

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    1. Muito obrigado.
      Realmente o tempo passa a correr.
      Um abraço.

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  2. As memórias sempre bem trazidas e contadas! Parabéns por tantas vizualizações em um ano! Que continues sempre!
    beijos, chica

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  3. ...E eu, continuo consigo, Rui.
    Uma vez por semana abro a sua porta - sem contar as vezes que a abro só para reler e me enternecer - e lembro das minhas duas portas: a da frente e a de trás que ficava no alpendre e dava para 'estrada'.
    Por ser alcatroada e no final do quintal, era mais um portão de madeira sem polimento... :)

    Um grande abraço, Rui!

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    1. Que bonito ler isto amiga Janita. Saber que a minha "porta" continua a abrir-se uma vez por semana é um privilégio. Obrigado por entrar e continuar a voltar.
      Um abraço.

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  4. Bonita memória!
    A casa da minha infância só existe na minha recordação e talvez em breve a casa da infância dos meus filhos e netos passará a ter esse estatuto.
    Tive que fechar a porta e deixar lá grande parte da minha vida.
    Sempre que lá vou fico emocionada!

    Abraço

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    1. É sempre difícil quando se "fecha" a porta pela última vez. Também já passei por isso. Muito obrigado pelas muitas visitas e comentários que aqui tem deixado.
      Um abraço.

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  5. E faça o favor de ir continuando por cá que a gente agradece.
    Um abraço

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    1. Assim farei amigo Pedro.
      Muito obrigado. Não me esqueço que foi seu o primeiro comentário aqui deixado.
      Um abraço.

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  6. Bom dia:- Recordações que emocionam, quem as não tem?
    .
    Semana feliz. Saudações poéticas
    .
    “” Sonho de Amor““
    .

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  7. Da próxima vez que passar em Perelhal vou virar à direita e ir até Creixomil dar uma espreitadela. Talvez ainda lá esteja o Kit ou dê de caras com essa velha porta fechada!

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    1. Ficarei à espera amigo conterrâneo. Vai ver que não se arrepende.
      Um abraço.

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  8. Parabéns pelo primeiro aniversário do seu espaço! É um marco incrível olhar para trás e ver como tudo começou com um simples esboço.

    Abraço ainda das margens do Rio Douro.

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  9. Adorei muito e escreves bastante de tal maneira que avivas coisas tão simples de ler! Um enorme abraço!
    Beijos e um bom fim de semana!

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