Histórias de um quadro.
Há objetos
que passam anos pendurados numa parede sem que lhes demos grande importância.
Depois, um dia, basta voltar a encontrá-los para percebermos que, afinal,
guardavam uma parte da nossa história.
Este quadro
acompanhou os meus primeiros anos de vida. Estava na sala da casa dos meus
avós, o lugar onde a minha mãe e eu dormíamos enquanto o meu pai trabalhava
emigrado em França, como tantos milhares de portugueses naquele tempo.
Curiosamente, passadas tantas décadas, a emigração continua a fazer parte da
vida de muitas famílias. Mudam os destinos, mudam as circunstâncias, mas a
saudade continua a ser a mesma.
O quadro
retrata o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga. Durante anos, para mim,
não era um santuário nem um monumento. Era apenas uma paisagem mágica, cheia de
escadarias, árvores, igrejas e pequenos recantos onde a minha imaginação
passeava sem sair do lugar.
Lembro-me
especialmente dos dias em que estava doente. O apetite era pouco e a paciência
da minha mãe era infinita. Sentava-me em frente àquele quadro e, colher após
colher, ela inventava histórias inspiradas na imagem. Cada escadaria levava a
um castelo encantado. O elevador escondia passageiros misteriosos. As capelas
eram casas de personagens que só existiam naquelas tardes. Enquanto eu ouvia,
quase sem dar por isso, a sopa desaparecia do prato.
Na semana
passada, muitos anos depois, fui ao Bom Jesus com a minha mulher e a minha
filha. Fizemos um piquenique entre as árvores, passeámos sem pressa e deixei-me
ficar a olhar para a escadaria que tantas vezes percorri apenas com a
imaginação.
Foi então
que me lembrei do quadro.
Percebi que,
antes de conhecer aquele lugar com os meus próprios pés, já o conhecia com os
olhos de uma criança. A minha primeira visita ao Bom Jesus não aconteceu em
Braga. Aconteceu na sala dos meus avós, sentado à mesa, enquanto a minha mãe
fazia o impossível para convencer um miúdo sem apetite a comer mais uma colher.
Há memórias
que vivem em fotografias. Outras vivem em cheiros ou em músicas. As minhas, por
vezes, vivem em quadros pendurados numa parede antiga.
Hoje, quando
olho para esta imagem, já não vejo apenas o Santuário do Bom Jesus do Monte.
Vejo a dedicação de uma mãe, a ausência necessária de um pai que procurava um
futuro melhor, o carinho dos meus avós e uma infância simples, onde a
imaginação conseguia transformar uma gravura numa aventura sem fim.
Talvez seja
isso que torna certos objetos tão valiosos. Não pelo que mostram, mas por tudo
aquilo que nos devolvem.

É uma forma bela e profunda de guardar o tempo. Os quadros numa parede antiga não mostram apenas arte, mas funcionam como janelas para os momentos, sentimentos ou fases da vida em que foram escolhidos e pendurados.
ResponderEliminarEnquanto a fotografia regista o facto real, a pintura ou o quadro capturam a atmosfera e a emoção de uma forma muito mais abstrata e duradoura.
Os quadros são autenticas janelas para a vida!
EliminarDependendo dos olhos que o observam temos histórias diferentes para contar.
Há memórias que nos chegam de repente e quando vemos um quadro assim, tanta história ele tem. Faz bem resgatar as histórias e recordaçoes. beijos, lindo fim de semana, chica
ResponderEliminarObrigado Chica.
EliminarEstamos rodeados de memórias e quando menos esperamos elas despertam na frente de nossos olhos.
Um abraço.
Oi, tudo bem?
ResponderEliminarMuito gratificante ler teu relato de lembranças de antigos quadros, pois me levou a mim também à minha infância onde na sala, havia um grande quadro retratando Jesus resgatando uma ovelha.
Abraços
Olá Eduardo! Está tudo bem felizmente e espero que desse lado do Atlântico também!
EliminarÉ bom saber que as minhas memórias despertam as de quem as lê.
Um abraço.
畫作最易勾起回憶.
ResponderEliminar你说得完全对,我的朋友。
Eliminar抱抱。
Uma recordação cheia de ternura que o transporta para o presente em família.
ResponderEliminarTambém eu fui uma criança cheia de fastio, como se dizia, com a minha mãe cheia de paciência a contar-me histórias, juntamente com as colheres de sopa.
Abraço
As mães são seres feitos de paciência.
EliminarMuito obrigado pelo comentário.
Um abraço.
Gostei de ler!
ResponderEliminarO Bom Jesus é para mim também um lugar mágico. Levou-me lá o meu pai para agradecer à Senhora o meu regresso da guerra, são e salvo, e levei eu os meus filhos para lhes passar a mensagem.
O Bom Jesus é acima de tudo um local de paz. E não há minhoto que o não conheça.
EliminarUm abraço.
O quadro é lindo! Quase diria mais bonito do que é a realidade.
ResponderEliminarOutra coisa, é que só agora constatei a quem saiu o Rui cronista nas sus belas e romanceadas Crónicas... :-)
Um abraço e um excelente fim de semana.
Olá Janita. Realmente deve vir um pouco daí. A minha mãe sempre teve uma facilidade para contar/inventar histórias que os filhos adoravam ouvir.
EliminarO quadro é uma pintura de uma realidade com mais de 50 anos, dai ser mais verde que hoje em dia.
Um abraço.
Uma vida cheia de recordações.
ResponderEliminarQue continue a recordar por muitos e muitos anos.: )
Visitei este santuário há muitos anos. Um local lindo por todas as razões que possamos imaginar.
Cada lanço do escadório é dedicado a um sentido: visão, audição, olfato, paladar e tato. Não me recordo das fontes em cada lanço.
Um Basílica que vale a pena visitar muitas vezes.
Muito obrigado.
EliminarA vida é feita de recordações e como diz a musica, recordar é viver!
Um excelente local para passar e passear, seja só ou em família.
Um abraço.
Um quadro muito bonito, a guardar as recordações do coração.
ResponderEliminarTudo de bom.
Um beijo.
Muito obrigado Graça.
EliminarUm abraço.
Também tenho um com uma paisagem muito bonita que era dos meus pais e foi a única coisa que guardei e agora está pendurado aqui!
ResponderEliminarQuanto ao teu que é maravilhoso como foi maravilhosa a excursão que fiz já há alguns anos a esse local!
Beijos e um bom dia!
Os quadros, assim como as fotografias, são depósitos de memórias!
EliminarO Bom Jesus é local maravilhoso!
Um abraço.
Um quadro que evoca memórias doces.
ResponderEliminarUm abraço
Tem razão amigo Pedro! Braga é uma terra muito ligada às ordens religiosas, não fosse ela a mais antiga arquidiocese do país. É por isso uma cidade onde abundam os doces conventuais que, cheios de ovos e açúcar, nos deixam inevitavelmente com água na boca.
EliminarUm abraço.