19 junho 2026



Os calendários do México 86.

            Hoje, quando o futebol volta a dominar conversas, jornais e redes sociais, e quando crianças e adultos parecem ter sido novamente "infetados" pela epidemia dos cromos, não consigo evitar uma viagem ao passado. Há memórias que regressam sem aviso. Basta uma fotografia, um cheiro, uma música ou, neste caso, um punhado de pequenos calendários espalhados sobre uma mesa.

            Esta fotografia leva-me diretamente a 1986. Faz agora cerca de quarenta anos. Portugal preparava-se para disputar o seu segundo Campeonato do Mundo de Futebol, vinte anos depois da histórica participação em Inglaterra, e o país voltava a sonhar com os grandes palcos do futebol internacional. Para mim, porém, esse Mundial representou muito mais do que futebol. Foi também o ponto de partida para a descoberta de uma nova paixão, o colecionismo.

            Os protagonistas desta história são estes calendários dedicados ao Mundial do México 86. Pequenos pedaços de cartolina que mostravam jogadores, seleções e imagens que alimentavam a imaginação de qualquer criança apaixonada pelo desporto-rei. Mas o verdadeiro responsável por eu ter começado a guardá-los não foi nenhum jogador famoso nem qualquer campanha publicitária. O "culpado" tinha um nome bem conhecido e já retratado numa crónica neste meu “rabiscos d’estórias”. O meu professor da escola primária, o Sr. Professor Norberto.

            Com uma simplicidade que hoje parece quase ingénua, mas que na época era de uma eficácia extraordinária, o Professor Norberto encontrou uma forma de nos motivar a melhorar a escrita. Os alunos que dessem menos erros nos ditados recebiam calendários como prémio. Não havia troféus nem medalhas. Havia apenas aqueles pequenos cartões coloridos que, para nós, tinham um valor imenso.

            Lembro-me da expectativa antes de cada ditado. O silêncio na sala de aula, a concentração em cada palavra e a esperança de conquistar mais um calendário para a coleção. Cada prémio era uma vitória pessoal. E, sem que eu me apercebesse, aqueles calendários foram-se acumulando, transformando-se na minha primeira coleção.

            O curioso é que, olhando para eles hoje, percebo que guardam muito mais do que imagens do Mundial do México. Guardam recordações de uma escola diferente, de professores que sabiam despertar o entusiasmo dos alunos com recursos simples, de uma infância em que as pequenas conquistas tinham um sabor especial. Guardam também a memória de um país que voltava a sonhar com a Seleção Nacional e de um rapaz que descobria o prazer de colecionar, organizar e preservar objetos que contavam histórias.

            Passaram quatro décadas. Os jogadores retratados nestes calendários já pertencem à história do futebol e algumas das seleções aqui representadas pertencem, elas próprias, a países que já desapareceram dos mapas. A União Soviética e a R.F.A. existem apenas na memória e nos livros de História. O Mundial de 1986 ficou para trás, tal como um mundo muito diferente daquele que conhecemos hoje. Mas estes pequenos calendários continuam aqui, resistentes ao tempo, como testemunhas silenciosas de uma época feliz, preservando não apenas recordações desportivas, mas também a memória de nações, bandeiras e momentos que o passar dos anos transformou em História.

            E sempre que o mundo volta a girar em torno de um Campeonato do Mundo, entre álbuns de cromos, trocas de repetidos e conversas sobre futebol, volto a lembrar-me do Professor Norberto, dos ditados da escola primária e daqueles calendários que, sem eu saber, marcaram o início de uma paixão que ainda hoje me acompanha.

            Às vezes, os grandes hobbies da nossa vida começam precisamente assim. Com um simples prémio escolar entregue pelas mãos de um professor que soube transformar palavras bem escritas em memórias para toda a vida.

 

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