Inverno na Minha Aldeia
O inverno
chegava sempre sem pedir licença. Não vinha de mansinho, como a primavera, nem
em festa, como o verão. Chegava sério, envolto em nevoeiro, com o cheiro da
lenha queimada a espalhar-se pelas ruas estreitas, que na aldeia designávamos
por “cangostas”, logo ao amanhecer.
Nas manhãs frias,
o sol parecia tímido. Espreitava por detrás dos montes como quem não quer
incomodar, pintando os telhados de um dourado pálido que durava pouco. O gelo
prendia-se às folhas das couves nos quintais, para as por mais tenras, e
transformava os caminhos em armadilhas escorregadias. Caminhávamos com cuidado,
passo a passo, por entre os rodados dos carros de bois, como se o chão pudesse
desaparecer a qualquer momento.
As casas
fechavam-se sobre si mesmas. As janelas ficavam quase sempre com as empenas cerradas,
guardando o calor precioso das lareiras. Lá dentro, a vida continuava ao ritmo
lento do inverno. As avós e as tias mais velhas sentavam-se junto ao lume, a
fiar o linho e a lã para depois fazer os tapetes a as mantas nos teares,
enquanto contavam histórias de tempos antigos. Histórias que contavam invernos
ainda mais frios, neves que cobriam tudo, fome, coragem e resistência.
O cheiro da
sopa quente, o chamado caurdo à
lavrador, misturava-se com o da lenha húmida. Era o perfume da sobrevivência
simples. Couves, batatas, feijão e chouriço ou um bocado de toucinho bastavam
para aquecer o corpo e a alma. À mesa, falava-se pouco. O inverno ensinava-nos
o valor do silêncio e da partilha.
Na rua, a
aldeia parecia adormecida. Só se ouviam os cães a ladrar ao longe e, de vez em
quando, o som metálico de um portão a abrir. Os mais novos aproveitavam
qualquer pedaço de sol para jogar à bola, com as mãos geladas e os narizes
vermelhos. As gargalhadas, essas, nunca congelavam.
Quando
chovia, e chovia muito, os caminhos transformavam-se em rios de lama. As botas
ficavam pesadas, e as roupas nunca secavam completamente. Mas ninguém
reclamava. O inverno fazia parte da nossa identidade, como se fosse mais um
habitante da aldeia. Exigente, duro, mas necessário.
À noite, o
frio tornava-se mais intenso. O céu, quando limpo e estrelado, parecia mais
próximo. Recolhíamo-nos cedo, embrulhados em mantas grossas, ouvindo o vento
bater nas portas e entrando pelas friestas como um visitante impaciente. Havia
um conforto especial nesse recolhimento, nessa sensação de abrigo contra o
mundo lá fora.
Quando a chuva apertava a casa enchia-se de alguidares espalhados pelo chão, colocados
à pressa para aparar as pingas que caíam sem cessar do telhado fraco, cansado e
exausto de tantos remendos. Cada gota encontrava o seu caminho, atravessando as
telhas gastas pelo tempo, e caía certinha dentro dos recipientes, como se
tivesse sido ensaiada. O som repetido das pingas, umas mais rápidas, outras
mais lentas, acabava por formar uma espécie de música improvisada, um concerto
humilde que embalava as nossas noites de inverno.
O inverno
também trazia encontros. As pessoas juntavam-se nas cozinhas, em redor da
lareira, para conversar ou simplesmente estar. Falava-se da vida, das
colheitas, dos filhos que tinham emigrado, das saudades. O frio aproximava-nos.
Tornava-nos mais humanos.
Quando penso
nesses invernos, percebo que não eram apenas estações do ano. Eram tempos de
aprendizagem. Aprendíamos a esperar, a poupar, a resistir, a valorizar o pouco
que tínhamos. Aprendíamos que o calor não vinha só do lume, mas das pessoas.
A minha
aldeia no inverno era dura, sim. Mas era também acolhedora, verdadeira e cheia
de memória. E talvez seja por isso que, mesmo agora, quando o frio chega, ainda
procuro inconscientemente o cheiro da lenha, o som da chuva no telhado e o
conforto de uma boa sopa quente. Hoje damos nomes às tempestades e às
depressões, como se assim conseguíssemos torná-las mais próximas ou menos
assustadoras. Acompanhamo-las nos noticiários, em mapas coloridos e avisos
digitais, acreditando que temos tudo sob controlo. Mas, no fundo, continua a
ser a mesma força antiga que, desde sempre, molda os nossos dias e as nossas
memórias. A Mãe Natureza. Tal como naquele telhado frágil da minha infância, a
Natureza lembra-nos, ano após ano, que por mais tecnologia, planos ou certezas
que tenhamos, tudo o que fazemos tem de contar com ela. Ignorá-la é esquecer
que somos apenas parte do seu ritmo. Somos pequenos passageiros, e
profundamente dependentes da sua vontade.

Tudo muda na vida. Até as estações/estado do tempo.
ResponderEliminarDeixo votos de tudo de bom.
.
“” Sorriso: o teu oásis de amor
““
.
É bem verdade amigo.
EliminarUm abraço.
Excelente ode ao Inverno de outrora, tão parecido com o deste inverno de hoje, do que nos consome, actualmente, ora por excesso, ora por defeito.
ResponderEliminar"o inverno ensinava-nos o valor do silêncio e da partilha.", diz o Rui. Felizmente, essa solidariedade entre vizinhos e companheiros da mesma desdita, ainda se não perdeu.
Como sempre gostei, li e reli.
Um forte abraço!
Obrigado Janita.
EliminarA solidariedade é uma característica que está gravada na essência do povo Português.
Um abraço.
你的村莊很美麗.
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
EliminarThank you so much
EliminarTodo esse frio do passado não me trariam boas recordações. Não gosto de sentir frio nem de vestir camadas e camadas de roupa para me sentir quente dentro de casa. Estou mal habituada, é o que é! : )
ResponderEliminarMas gostei imenso do texto, das suas lembranças e da felicidade de um garoto que nem o frio intenso e nem a lama o impedia de sentir.
Amanhã estão a prever que a temperatura aqui no burgo seja entre os 25 e os 30 graus negativos. Dia para ficar em casa e, psicologicamente, uma sopa quente para aquecer, mesmo que ande de mangas curtas em casa. Isto se a máquina do aquecimento central não falhar... nunca se sabe.
O inverno põe-nos á prova. O mau tempo obriga as pessoas a ficar recolhidas, o que também é um forma de se recolherem em si mesmos. Tempo de introspecção tão necessário.
ResponderEliminarMuito obrigado pela visita e comentário.
Um abraço.
Ao ler a sua história foi como se estivesse a ver o inverno na sua aldeia. Através das suas palavras, quase ouvimos a chuva a cair nos telhados e sentimos o cheiro da sopa quente e da lenha a queimar. Um inverno que como disse, fazia parte da identidade da aldeia, onde cada um fazia o que era possível consoante o estado do tempo.
ResponderEliminarOntem e hoje, todos dependemos da Mãe Natureza e a sua vontade sempre irá imperar.
Um grande abraço
Obrigado Maria pelo seu sentido comentário. Só temos que aceitar que a Natureza é mesmo assim, às vezes mais severa mas sempre sem culpar ninguém a não ser nós próprios que nos esquecemos dela.
EliminarUm abraço.
Que delícia de texto, Um texto que serve aqui, para o Sul do Brasil, lareiras, cozinha quentinha e o calor humano que jorrava afetos!
ResponderEliminarE isso não tem preço, é o calor humano se juntando e tornando-se cada vez mais importante nas famílias, conversas com vizinhos e amigos. Bom demais!
Saio deixando meus aplausos por texto de lindo!
Um bom fim de semana, RCorreia!
Um abraço daqui do Sul Gaúcho.
Muito obrigado amiga Tais. Um abraço do norte de Portugal diretamente para o sul do Brasil.
EliminarO inverno também serve para isso, para por os afetos em prática.
Um abraço.
Esta sua crónica (deliciosa) fez-me voltar aos tempos da minha infância na casa dos meus avós maternos. Era tudo tao parecido que poderia ter sido eu a escrever este texto, que muito gostei de ler.
ResponderEliminarBoa semana.
Um abraço.
Obrigado amigo Jaime. A simplicidade do povo português era transversal de norte a sul do pais.
EliminarUm abraço.
Sabe bem e alimenta as raízes.
ResponderEliminarUm abraço e boa semana.
Lembro bem das cangostas da minha aldeia, do caurdo muitas vezes só com umas couves " a boiar na água " só engrossado com umas poucas batatas. As camas tinham de ter muitas mantas, umas feitas pelas tecedeiras de tiras de farrapos, outras de lã de ovelha e o peso era muito por cima de nós ; não havia edredons e o único aquecimento eram as lareiras na cozinha; não havia Kispos, só casacos de malha, muitas vezes feitos pelas mães e avós, à lareira e com muito pouca luz. As mulheres usavam as mantinhas, um tipo de xaile, que completavam o agasalho. Uma miséria! Hoje, felizmente muita coisa mudou e na minha aldeia já não há crianças com fome e nem com frio. Gostei muito de ler o que escreveste e de novo, voltei atrás no tempo; pensando bem, fui uma privilegiada, pois, eramos só dois filhos e por isso havia sempre algo mais do que o caurdo de couves ( de coives...)
ResponderEliminarum beijinho e fica bem, especialmente, com saúde
Emília 🌻 🌻
Somos todos uns privilegiados amiga Emília. Todos que cá estamos para passar as nossas memórias aos mais novos. Muito obrigado pelo comentário.
EliminarUm abraço.
O inverno chega, em nevoeiro quieto, com o perfume da lenha queimada a acordar a aldeia.
ResponderEliminarAbraço de uma admiradora da sua brilhante escrita ✍️
Muito obrigado pelas palavras elogiosas.
EliminarUm abraço.
Tempos mais simples eram também mais humanos.
ResponderEliminarHoje escapa das pessoas o seu calor fraterno, porque deixou de existir convívio e empatia. As dificuldades se tornaram individualistas ao invés de coletivas. A necessidade de ajudar o próximo só existe nos moldes de se ajudar a si mesmo no processo.
Não vivi numa aldeia. Cresci numa cidade cosmopolita, a subir escadas rolantes e a apanhar elevadores para chegar a casa. Mas a minha alma... essa, não sei como ou porquê... acho que carrega muito os genes dos simplórios antepassados que me antecederam- Sendo que simplórios aqui não é usado em termos pejorativos, bem pelo contrário. É um enorme elogio. A SIMPLICIDADE da vida junto com a capacidade de entender os ciclos da mesma é riqueza, não é pobreza.
Os simples são os mais "ricos".
EliminarMuito obrigado pela visita e pelo comentário.
Um abraço.