O velho rádio do meu Avô.
Ontem, mais uma vez, vivi aquelas emoções fortes que só o futebol consegue provocar. Um jogo da Liga dos Campeões, cheio de tensão, reviravoltas, golos inesperados e minutos que pareciam não acabar. O coração acelerado, os olhos colados ao ecrã, a ansiedade a crescer a cada jogada. Tudo em direto. Em alta definição. Com repetições, estatísticas e comentários em tempo real. E, no meio dessa avalanche de imagens e informação, dei por mim a pensar no meu avô e no velho rádio que ele tinha em cima da mesa, logo à entrada de casa. Um velho Grundig dos grandes igual ao que está na foto.
Era ali que
começava o nosso mundo.
Através
daquele rádio, sabíamos tudo o que se passava lá fora. As notícias chegavam-nos
em forma de vozes sérias, músicas antigas e relatos cheios de emoção. Era ele
que nos ligava ao país, aos acontecimentos e às pessoas, mesmo estando nós
longe das grandes cidades.
O meu avô
tratava-o quase como um tesouro. Afinava-o com cuidado, girando os botões
devagar, como quem procura algo precioso. E ai de quem se atrevesse a mexer na
sintonia! Nós, os netos, curiosos e traquinas, às vezes não resistíamos.
Bastava um pequeno toque… e lá vinha a repreensão:
— “Deixem
isso quieto! Raios parta a canalha!”
Às horas
certas, tudo parava. Era tempo das notícias. A casa mergulhava num silêncio
quase solene. Ninguém podia fazer barulho. Aquele momento era sagrado.
E depois
vinham os domingos à tarde.
Os domingos
do futebol.
Reuníamo-nos
à volta do rádio, atentos, quase sem respirar. Sem imagens. Sem ecrãs. Apenas a
voz do locutor a guiar a nossa imaginação. Cada passe, cada remate, cada golo
era construído na nossa cabeça, como se estivéssemos sentados na bancada.
Naquele tempo,
os estádios pareciam mundos distantes, acessíveis apenas a quem vivia nas
grandes cidades. Para nós, o futebol chegava através daquele rádio velho, mas
cheio de vida.
Hoje, tudo
mudou.
Temos acesso
a tudo, em qualquer lugar. Vemos os jogos ao pormenor, em tempo real.
Escolhemos câmaras, revemos lances, comentamos online. Vivemos o futebol com os
olhos colados aos ecrãs.
Mas, às vezes, pergunto-me se sentimos da mesma forma. Antes, bastava uma voz para nos fazer sonhar. Bastava fechar os olhos para viajar. Cada jogo era uma história única. Cada relato, uma aventura.
O velho
rádio do meu avô ensinou-me a ouvir, a imaginar, a esperar, a valorizar.
E ontem,
enquanto vibrava com a Liga dos Campeões, percebi que, apesar de toda a
tecnologia, continuo a sentir saudades daquele tempo simples, em que o futebol
entrava em casa pela voz de um homem no rádio e ficava para sempre no
coração.
Porque, no
fundo, as melhores memórias não precisam de imagem.
Precisam de
emoção.

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