29 janeiro 2026


O velho rádio do meu Avô.

            Ontem, mais uma vez, vivi aquelas emoções fortes que só o futebol consegue provocar. Um jogo da Liga dos Campeões, cheio de tensão, reviravoltas, golos inesperados e minutos que pareciam não acabar. O coração acelerado, os olhos colados ao ecrã, a ansiedade a crescer a cada jogada. Tudo em direto. Em alta definição. Com repetições, estatísticas e comentários em tempo real. E, no meio dessa avalanche de imagens e informação, dei por mim a pensar no meu avô e no velho rádio que ele tinha em cima da mesa, logo à entrada de casa. Um velho Grundig dos grandes igual ao que está na foto.

            Era ali que começava o nosso mundo.

            Através daquele rádio, sabíamos tudo o que se passava lá fora. As notícias chegavam-nos em forma de vozes sérias, músicas antigas e relatos cheios de emoção. Era ele que nos ligava ao país, aos acontecimentos e às pessoas, mesmo estando nós longe das grandes cidades.

            O meu avô tratava-o quase como um tesouro. Afinava-o com cuidado, girando os botões devagar, como quem procura algo precioso. E ai de quem se atrevesse a mexer na sintonia! Nós, os netos, curiosos e traquinas, às vezes não resistíamos. Bastava um pequeno toque… e lá vinha a repreensão:

            — “Deixem isso quieto! Raios parta a canalha!”

            Às horas certas, tudo parava. Era tempo das notícias. A casa mergulhava num silêncio quase solene. Ninguém podia fazer barulho. Aquele momento era sagrado.

            E depois vinham os domingos à tarde.

            Os domingos do futebol.

            Reuníamo-nos à volta do rádio, atentos, quase sem respirar. Sem imagens. Sem ecrãs. Apenas a voz do locutor a guiar a nossa imaginação. Cada passe, cada remate, cada golo era construído na nossa cabeça, como se estivéssemos sentados na bancada.

            Naquele tempo, os estádios pareciam mundos distantes, acessíveis apenas a quem vivia nas grandes cidades. Para nós, o futebol chegava através daquele rádio velho, mas cheio de vida.

            Hoje, tudo mudou.

            Temos acesso a tudo, em qualquer lugar. Vemos os jogos ao pormenor, em tempo real. Escolhemos câmaras, revemos lances, comentamos online. Vivemos o futebol com os olhos colados aos ecrãs.

            Mas, às vezes, pergunto-me se sentimos da mesma forma. Antes, bastava uma voz para nos fazer sonhar. Bastava fechar os olhos para viajar. Cada jogo era uma história única. Cada relato, uma aventura.

            O velho rádio do meu avô ensinou-me a ouvir, a imaginar, a esperar, a valorizar.

            E ontem, enquanto vibrava com a Liga dos Campeões, percebi que, apesar de toda a tecnologia, continuo a sentir saudades daquele tempo simples, em que o futebol entrava em casa pela voz de um homem no rádio e ficava para sempre no coração.

            Porque, no fundo, as melhores memórias não precisam de imagem.

            Precisam de emoção.


 

30 comentários:

  1. Adorei! Fui criada com minha mãe e seus radinhos e hoje, eu não vivo sem o meu pequeno de pilhas! Nada o substitui!
    Adorei te ler!
    beijos, chica

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    1. Obrigado Chica.
      São sem dúvida a companhia de muita gente ainda hole.
      Um abraço.

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  2. Grande verdade, a emoção é que conta, é como sal na comida!

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  3. O nosso, lá no Alentejo, era diferente, mais imponente! De madeira, ou qualquer outro material a imitá-la, arredondado na parte superior, colocado em lugar de destaque, numa prateleirinha na grande cozinha.
    Ninguém ouvia relatos de futebol. Em contrapartida, a nossa casa enchia-se de todas, ou quase todas, as mulheres da nossa rua para ouvir as novelas radiofónicas. "Se ela voltasse" "Simplesmente Maria" e por aí.

    Abraço.

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    1. Ai as novelas, ou melhor, as radionovelas.
      Hoje apenas o ligamos quando estamos no carro, mas continua a ser uma grande companhia.
      Um abraço.

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  4. O que eu agora recordei!
    O velho rádio do meu avô ainda está na casa de Coimbra.
    Mesmo que já não trabalhe, nunca será para atirar fora.
    Abraço, bfds

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  5. As melhores memórias não dependem de imagens; são as emoções que lhes dão vida, colorido e significado. É essa emoção que fica gravada, mesmo quando a recordação se desvanece.
    Abraço amigo e democrático.

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    1. Através da radio nós pintamos as nossa próprias imagens.
      E o colorido que lhe damos são as emoções que ele nos transmite.
      Um abraço, também ele muito democrático.

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  6. Querido amigo Correia,

    Há uma delicadeza rara nesta memória. O rádio do teu avô não é apenas um objeto antigo é um altar de afetos, um ponto de encontro entre gerações, um lugar onde o mundo chegava em forma de voz e imaginação.

    Enquanto hoje nos afogamos em imagens, este texto lembra-nos que houve um tempo em que o coração via melhor do que os olhos. Que a espera também era parte da festa. Que o silêncio em volta das notícias era respeito, quase oração doméstica.

    Ler-te é entrar na máquina do tempo e ir até esse chão simples, onde a emoção não precisava de ecrã, apenas de presença. Obrigada por resgatares essa memória e por nos fazeres lembrar que aquilo que realmente fica não é a tecnologia é o amor com que vivemos os momentos.

    Abraço
    Fernanda

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    1. Obrigado pelo comentário amiga Fernanda. Há objetos que nos transportam para lugares do passado que ainda estão muito presentes. Este rádio tem a magia de nos transportar para lugares que nem a nossa imaginação sonha que existem.
      Um abraço e obrigado pela visita.

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  7. Olá Correia! Obrigada pela visita e o comentário lá no meu Blog.
    Esse rádio lembra meu pai que escutava jogos do Náutico, time dele aqui no Recife, com ele "grudado" no ouvido.
    O Rádio era de pilha.
    Quando ele morreu, um dos irmãos (somos 8) herdou o rádio que nem funciona mais.

    Não, não achei o livro ainda. Continuo procurando.
    Comprar outro nem está nos meus planos porque o "livro perdido", tem grifos e anotações importantes. Vou acha-lo. Preciso acha-lo.
    Abraço,

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    1. Obrigado pela visita e pelo comentário.
      Vai ver que o livro aparece quando menos procurar.
      Um abraço.

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  8. Em casa de meus pais havia também uma telefonia, de marca alemã. As vizinhas iam ouvir a "coxinha do Tide" , na pré - história da telenovelas televisivas.

    E, tem razão, a imaginação contava muito.

    Abraço, sereno Fevereiro.

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    1. O Rádio era a tecnologia daqueles tempos. E também servia para juntar os vizinhos.
      Um abraço.

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  9. Nesse outro mundo
    ter um rádio era quase tudo
    o resto em falta
    era preenchido pelos avôs da malta

    Meu Deus, como tudo mudou....

    Abraço seguidor

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    1. E a rimar tem outro valor!
      É bem verdade amigo Rogério, mas não há que ter medo dos tempos de hoje. Temos que tentar ver sempre o lado positivo das coisas.
      Um abraço.

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  10. Correia, você nos trouxe à lembrança um tempo onde o mundo cabia na caixinha do rádio.
    Até hoje, em copa do mundo, costumo abaixar o som da TV e deixar a narração no rádio. É outra coisa.
    Eu gosto das imagens mas o rádio ainda hoje está aí.

    Abracos

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    1. É bem verdade amigo Eduardo. Aquela caixinha transbordava magia. Não resisto a um relato de futebol quando vou a conduzir.
      Um abraço.

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  11. Se a memória nāo me falha, o termo mais usado na casa dos meus avós era telefonia onde as senhoras da casa ouviam os folhetins. Esse rádio que nos mostra já é mais moderno. :)

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    1. É verdade, era a famosa telefonia! Da telefonia aos rádios mais modernos, cada fase deixou suas memórias. Este rádio já representa uma fase mais moderna :)
      Um abraço.

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  12. Nossa, você trouxe minha mãe de volta. E ouvi como Janita, logo após a Ave Maria, "Jerônimo, o herói do sertão". Que sonoplastia! Parecia que tudo acontecia ao vivo.
    E a felicidade que aquele pouco dava. Ou era muito?
    Gostei de ter passado por aqui.
    Um abraço,

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    1. Muito obrigado pelo comentário e pela visita.
      Espero que volte mais vezes.
      Um abraço.

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  13. Olá!
    Estou chegando a seu Blog e
    já encantada com essa matéria
    que muito lembra muita coisa
    que já vivemos. Eu lido com
    Cultura e Arte e já trabalhei com
    exposições de rádios como esse
    que está aqui na imagem e outros, mais
    antigos e mais novos, como também
    televisores e mai s tarde computadores.
    Mexe muito com nossas memórias.
    Maravilhosa publicação.
    Obrigada por esses bons momentos.
    Já seguindo aqui, vou amar receber sua
    visita no Espelhando.
    Bjins
    CatiahôAlc.

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    1. Muito obrigado pelo comentário e pela visita. Aqui, neste meu cantinho, cultivo a memória. É uma forma de me sentir vivo e grato por tudo o que sou e tenho. Espero também despertar bons sentimentos em que me visita com suas recordações.
      Fica prometida uma visita ao seu Espelhando.
      Um abraço.

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  14. Hahaha, que lindo! Quando ia na casa de minha avó, lá estava ele numa prateleira forte, se mostrando como uma relíquia! Ela não deixava nem tocar, era o amor de meu avô e que ela guardava com amor e carinho. Eu adorava ficar olhando, imaginando tantas coisas daquela sua época!
    Adorei sua postagem, linda, saudosa!
    Aplaudo daqui!
    Abraços, uma feliz semana, amigo!

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  15. Muito obrigado Tais. Há objetos que só a sua presença já nos dá conforto. Por isso é que dizemos que têm um valor sentimental incalculável.
    Um abraço.

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  16. O que diz sobre o ritual de assistência de notícias pela rádio, bem como os relatos de futebol faz todo o sentido.
    Também passei pela experiência que refere, com a diferença que o protagonista era o meu pai.
    Continuação de boa semana.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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    1. É como diz amigo Juvenal, somos feitos de rituais e a vida também precisa de rutinas.
      Retribuo o abraço e a amizade.

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