06 fevereiro 2026


Inverno na Minha Aldeia

            O inverno chegava sempre sem pedir licença. Não vinha de mansinho, como a primavera, nem em festa, como o verão. Chegava sério, envolto em nevoeiro, com o cheiro da lenha queimada a espalhar-se pelas ruas estreitas, que na aldeia designávamos por “cangostas”, logo ao amanhecer.

            Nas manhãs frias, o sol parecia tímido. Espreitava por detrás dos montes como quem não quer incomodar, pintando os telhados de um dourado pálido que durava pouco. O gelo prendia-se às folhas das couves nos quintais, para as por mais tenras, e transformava os caminhos em armadilhas escorregadias. Caminhávamos com cuidado, passo a passo, por entre os rodados dos carros de bois, como se o chão pudesse desaparecer a qualquer momento.

            As casas fechavam-se sobre si mesmas. As janelas ficavam quase sempre com as empenas cerradas, guardando o calor precioso das lareiras. Lá dentro, a vida continuava ao ritmo lento do inverno. As avós e as tias mais velhas sentavam-se junto ao lume, a fiar o linho e a lã para depois fazer os tapetes a as mantas nos teares, enquanto contavam histórias de tempos antigos. Histórias que contavam invernos ainda mais frios, neves que cobriam tudo, fome, coragem e resistência.

            O cheiro da sopa quente, o chamado caurdo à lavrador, misturava-se com o da lenha húmida. Era o perfume da sobrevivência simples. Couves, batatas, feijão e chouriço ou um bocado de toucinho bastavam para aquecer o corpo e a alma. À mesa, falava-se pouco. O inverno ensinava-nos o valor do silêncio e da partilha.

            Na rua, a aldeia parecia adormecida. Só se ouviam os cães a ladrar ao longe e, de vez em quando, o som metálico de um portão a abrir. Os mais novos aproveitavam qualquer pedaço de sol para jogar à bola, com as mãos geladas e os narizes vermelhos. As gargalhadas, essas, nunca congelavam.

            Quando chovia, e chovia muito, os caminhos transformavam-se em rios de lama. As botas ficavam pesadas, e as roupas nunca secavam completamente. Mas ninguém reclamava. O inverno fazia parte da nossa identidade, como se fosse mais um habitante da aldeia. Exigente, duro, mas necessário.

            À noite, o frio tornava-se mais intenso. O céu, quando limpo e estrelado, parecia mais próximo. Recolhíamo-nos cedo, embrulhados em mantas grossas, ouvindo o vento bater nas portas e entrando pelas friestas como um visitante impaciente. Havia um conforto especial nesse recolhimento, nessa sensação de abrigo contra o mundo lá fora. Quando a chuva apertava a casa enchia-se de alguidares espalhados pelo chão, colocados à pressa para aparar as pingas que caíam sem cessar do telhado fraco, cansado e exausto de tantos remendos. Cada gota encontrava o seu caminho, atravessando as telhas gastas pelo tempo, e caía certinha dentro dos recipientes, como se tivesse sido ensaiada. O som repetido das pingas, umas mais rápidas, outras mais lentas, acabava por formar uma espécie de música improvisada, um concerto humilde que embalava as nossas noites de inverno.

            O inverno também trazia encontros. As pessoas juntavam-se nas cozinhas, em redor da lareira, para conversar ou simplesmente estar. Falava-se da vida, das colheitas, dos filhos que tinham emigrado, das saudades. O frio aproximava-nos. Tornava-nos mais humanos.

            Quando penso nesses invernos, percebo que não eram apenas estações do ano. Eram tempos de aprendizagem. Aprendíamos a esperar, a poupar, a resistir, a valorizar o pouco que tínhamos. Aprendíamos que o calor não vinha só do lume, mas das pessoas.

            A minha aldeia no inverno era dura, sim. Mas era também acolhedora, verdadeira e cheia de memória. E talvez seja por isso que, mesmo agora, quando o frio chega, ainda procuro inconscientemente o cheiro da lenha, o som da chuva no telhado e o conforto de uma boa sopa quente. Hoje damos nomes às tempestades e às depressões, como se assim conseguíssemos torná-las mais próximas ou menos assustadoras. Acompanhamo-las nos noticiários, em mapas coloridos e avisos digitais, acreditando que temos tudo sob controlo. Mas, no fundo, continua a ser a mesma força antiga que, desde sempre, molda os nossos dias e as nossas memórias. A Mãe Natureza. Tal como naquele telhado frágil da minha infância, a Natureza lembra-nos, ano após ano, que por mais tecnologia, planos ou certezas que tenhamos, tudo o que fazemos tem de contar com ela. Ignorá-la é esquecer que somos apenas parte do seu ritmo. Somos pequenos passageiros, e profundamente dependentes da sua vontade.

 

22 comentários:

  1. Tudo muda na vida. Até as estações/estado do tempo.

    Deixo votos de tudo de bom.
    .
    “” Sorriso: o teu oásis de amor
    ““

    .

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  2. Excelente ode ao Inverno de outrora, tão parecido com o deste inverno de hoje, do que nos consome, actualmente, ora por excesso, ora por defeito.
    "o inverno ensinava-nos o valor do silêncio e da partilha.", diz o Rui. Felizmente, essa solidariedade entre vizinhos e companheiros da mesma desdita, ainda se não perdeu.
    Como sempre gostei, li e reli.
    Um forte abraço!

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    1. Obrigado Janita.
      A solidariedade é uma característica que está gravada na essência do povo Português.
      Um abraço.

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  3. Todo esse frio do passado não me trariam boas recordações. Não gosto de sentir frio nem de vestir camadas e camadas de roupa para me sentir quente dentro de casa. Estou mal habituada, é o que é! : )
    Mas gostei imenso do texto, das suas lembranças e da felicidade de um garoto que nem o frio intenso e nem a lama o impedia de sentir.
    Amanhã estão a prever que a temperatura aqui no burgo seja entre os 25 e os 30 graus negativos. Dia para ficar em casa e, psicologicamente, uma sopa quente para aquecer, mesmo que ande de mangas curtas em casa. Isto se a máquina do aquecimento central não falhar... nunca se sabe.

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  4. O inverno põe-nos á prova. O mau tempo obriga as pessoas a ficar recolhidas, o que também é um forma de se recolherem em si mesmos. Tempo de introspecção tão necessário.
    Muito obrigado pela visita e comentário.
    Um abraço.

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  5. Ao ler a sua história foi como se estivesse a ver o inverno na sua aldeia. Através das suas palavras, quase ouvimos a chuva a cair nos telhados e sentimos o cheiro da sopa quente e da lenha a queimar. Um inverno que como disse, fazia parte da identidade da aldeia, onde cada um fazia o que era possível consoante o estado do tempo.
    Ontem e hoje, todos dependemos da Mãe Natureza e a sua vontade sempre irá imperar.
    Um grande abraço

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    1. Obrigado Maria pelo seu sentido comentário. Só temos que aceitar que a Natureza é mesmo assim, às vezes mais severa mas sempre sem culpar ninguém a não ser nós próprios que nos esquecemos dela.
      Um abraço.

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  6. Que delícia de texto, Um texto que serve aqui, para o Sul do Brasil, lareiras, cozinha quentinha e o calor humano que jorrava afetos!
    E isso não tem preço, é o calor humano se juntando e tornando-se cada vez mais importante nas famílias, conversas com vizinhos e amigos. Bom demais!
    Saio deixando meus aplausos por texto de lindo!
    Um bom fim de semana, RCorreia!
    Um abraço daqui do Sul Gaúcho.

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    1. Muito obrigado amiga Tais. Um abraço do norte de Portugal diretamente para o sul do Brasil.
      O inverno também serve para isso, para por os afetos em prática.
      Um abraço.

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  7. Esta sua crónica (deliciosa) fez-me voltar aos tempos da minha infância na casa dos meus avós maternos. Era tudo tao parecido que poderia ter sido eu a escrever este texto, que muito gostei de ler.
    Boa semana.
    Um abraço.

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    1. Obrigado amigo Jaime. A simplicidade do povo português era transversal de norte a sul do pais.
      Um abraço.

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  8. Sabe bem e alimenta as raízes.
    Um abraço e boa semana.

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  9. Lembro bem das cangostas da minha aldeia, do caurdo muitas vezes só com umas couves " a boiar na água " só engrossado com umas poucas batatas. As camas tinham de ter muitas mantas, umas feitas pelas tecedeiras de tiras de farrapos, outras de lã de ovelha e o peso era muito por cima de nós ; não havia edredons e o único aquecimento eram as lareiras na cozinha; não havia Kispos, só casacos de malha, muitas vezes feitos pelas mães e avós, à lareira e com muito pouca luz. As mulheres usavam as mantinhas, um tipo de xaile, que completavam o agasalho. Uma miséria! Hoje, felizmente muita coisa mudou e na minha aldeia já não há crianças com fome e nem com frio. Gostei muito de ler o que escreveste e de novo, voltei atrás no tempo; pensando bem, fui uma privilegiada, pois, eramos só dois filhos e por isso havia sempre algo mais do que o caurdo de couves ( de coives...)
    um beijinho e fica bem, especialmente, com saúde
    Emília 🌻 🌻

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    1. Somos todos uns privilegiados amiga Emília. Todos que cá estamos para passar as nossas memórias aos mais novos. Muito obrigado pelo comentário.
      Um abraço.

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  10. O inverno chega, em nevoeiro quieto, com o perfume da lenha queimada a acordar a aldeia.
    Abraço de uma admiradora da sua brilhante escrita ✍️

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  11. Tempos mais simples eram também mais humanos.
    Hoje escapa das pessoas o seu calor fraterno, porque deixou de existir convívio e empatia. As dificuldades se tornaram individualistas ao invés de coletivas. A necessidade de ajudar o próximo só existe nos moldes de se ajudar a si mesmo no processo.
    Não vivi numa aldeia. Cresci numa cidade cosmopolita, a subir escadas rolantes e a apanhar elevadores para chegar a casa. Mas a minha alma... essa, não sei como ou porquê... acho que carrega muito os genes dos simplórios antepassados que me antecederam- Sendo que simplórios aqui não é usado em termos pejorativos, bem pelo contrário. É um enorme elogio. A SIMPLICIDADE da vida junto com a capacidade de entender os ciclos da mesma é riqueza, não é pobreza.

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    1. Os simples são os mais "ricos".
      Muito obrigado pela visita e pelo comentário.
      Um abraço.

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