Namorados de outros tempos.
Sou oriundo de uma família tipicamente minhota, como quase todas as da minha aldeia. Profundamente religiosa, fiel aos costumes e às tradições que marcavam o ritmo dos dias, das semanas e da vida inteira. A fé não se vivia apenas na igreja, estendia-se aos comportamentos, às relações e, muito especialmente, aos namoros.
No dia dos namorados que hoje celebramos fala-se muito de flores, jantares, escapadelas a dois, mensagens bonitas e palavras ditas em surdina. Mas o amor nem sempre teve essa liberdade. Houve tempos em que se sentavam em silêncio sobre pedras frias, vigiados por olhos atentos e regras não escritas.
A propósito desta celebração vou agora fazer uma breve viagem aos tempos da minha infância, quando os meus padrinhos de batismo ainda namoravam. Ele, irmão mais novo do meu pai. Ela, irmã mais nova da minha mãe. Duas famílias bastante numerosas e oriundas da mesma aldeia. O cenário era quase sempre o mesmo. As pedras do muro junto à casa dos meus avós, aquelas pedras salientes a que toda a gente chamava, com um misto de ternura e cumplicidade, de pedras namoradeiras. Exatamente as que se veem na foto. Não eram escolhidas ao acaso. Tinham a altura certa, o apoio certo e talvez a discrição possível para aquele tempo. Mas também bem visíveis a qualquer das janelas lá de casa!
Eu era ainda muito menino e, sem perceber bem porquê, era colocado ali, aos pés deles, a brincar. As minhas tias mais velhas pediam-me que ficasse por perto. Hoje entendo melhor. Eu era, sem o saber, uma espécie de polícia daquele namoro. Um pequeno guardião da moral e dos bons costumes, ali posto não por maldade, mas por receio do que se dizia, do que se pensava, do que podia parecer.
Agora, olhando para trás, percebo a tentativa constante de controlo dos mais velhos sobre os pares de namorados. A falta de liberdade que tinham, comparada com os dias de hoje, impressiona. O namoro tinha hora marcada, lugar definido e regras silenciosas. Tudo pelo bem da moral e dos bons costumes, e acima de tudo para não cair na desgraça das más línguas. No caso dos meus padrinhos, o horário era sempre o mesmo. Ao domingo à tarde, depois da hora do terço, que toda a família assistia “religiosamente”. Antes não, muito depois nem pensar. Era mal visto. Ao entardecer as filhas do senhor meu avô, e eram muitas, tinham que estar “debaixo da telha”.
Mas o meu padrinho também tinha a sua esperteza. Dentro do tempo autorizado, escolhia a hora exata em que os vizinhos vinham regar as águas de uma poça ali perto. O rego passava mesmo junto ao muro escolhido. E com o barulho da água a correr, tornava-se quase impossível alguém ouvir o que diziam um ao outro. Palavras protegidas pelo som da água, confidências ditas à pressa, talvez sonhos sussurrados.
Hoje, no Dia dos Namorados, lembro-me dessas pedras, desse muro e desse silêncio vigiado. E penso que o amor, mesmo quando apertado pelas regras ou pelas circunstancias, encontra sempre uma forma de dizer – “Amo-te” - nem que seja ao som de água a correr.

Mesmo com todos esses cuidados e essa vigilância, havia sempre crianças que “nasciam antes do tempo”.
ResponderEliminarDizia a minha mãe que ela e as irmãs namoravam à janela. A minha avó ficava ao fundo da sala, as raparigas dentro de casa e os namorados na rua em frente da dita janela.
Quando se ouvia a minha avó a tossir era sinal de que o “encontro” chegara ao fim naquele dia.
O namoro evoluiu muito desde então. : )