O silêncio do velho tear.
Havia um
tempo em que as casas respiravam trabalho desde o nascer do sol até ao seu
crepúsculo. As mãos nunca estavam quietas e cada canto guardava uma tarefa, uma
obrigação, uma história. Há objetos que envelhecem connosco. Ficam esquecidos
em cantos escuros, cobertos de pó e silêncio, mas continuam vivos dentro da
nossa memória. Este velho tear é um deles. Quando olho para ele, cansado pelo
peso dos anos, coberto de pó e silêncio, custa-me acreditar que daqui nasceram
tantas mantas cheias de vida, calor e dedicação.
As minhas
tias ainda eram meninas quando aprenderam a dominar este emaranhado de paus,
tábuas, pedais e fios. Para quem vê agora, parece impossível compreender como
dali podia sair alguma coisa bonita. Mas saía. E saía arte. Entre o ranger da
madeira e o bater ritmado do tear, iam crescendo mantas grossas, muitas vezes
em tons coloridos, feitas para vender e ajudar nas despesas da casa, mas também
para aquecer as camas antigas, onde os colchões ainda eram de palha e os
invernos pareciam mais frios do que hoje.
Naquele
tempo, a vida nas aldeias não dava espaço para preguiças nem grandes sonhos. As
raparigas aprendiam cedo o peso das responsabilidades. Teciam, lavravam,
tratavam dos animais, cozinhavam e ainda encontravam maneira de cantar enquanto
lidavam com essas tarefas. O tear fazia parte desse mundo duro, mas também
simples e verdadeiro.
Hoje resta
esta estrutura quase em ruínas, esquecida num canto, como se o tempo tivesse
levado consigo o saber das pessoas que lhe davam vida. Já ninguém sabe ao certo
como funcionava este engenho de outros tempos. As mãos capazes de entender cada
fio, cada nó e cada movimento foram desaparecendo devagar, levando consigo um
conhecimento que nunca chegou aos livros.
Ainda assim,
algumas dessas mantas sobrevivem em casa dos meus pais. Sempre que lhes toco,
sinto que não são apenas cobertores antigos. São pedaços de memória tecidos fio
a fio. São o esforço silencioso de mulheres da minha família que trabalharam
toda a vida sem nunca esperar reconhecimento. Eram saberes que passavam
naturalmente de geração em geração, sem escolas nem manuais. Aprendia-se
olhando, repetindo e errando. E saiam obras de arte feitas sem assinatura.
Na minha
aldeia, este tear não era raro. Em muitas casas de lavradores existiam engenhos
parecidas, porque quase tudo se fazia em casa, com o que havia e com o saber
passado de geração em geração. Hoje sobra o silêncio, a madeira gasta e uma
certa tristeza por ver desaparecer um mundo inteiro que parecia eterno.
Talvez seja
isso a memória. Tentar salvar, através das palavras, aquilo que o tempo insiste
em destruir.

Olá, Rui!
ResponderEliminarHoje, todos os trabalhadores parecem mais interessados em reduzir as horas de trabalho e o aumento da remuneração.
Nesses dias do passado que hoje no conta, através da história de vida desse tear, tudo se aprendia com as gerações mais velhas e tudo se fazia em casa. Hoje, chamam-lhe pomposamente, a certos bordados ou outros trabalhos manuais: artesanato. E, na verdade, é algo cada vez mais valioso, nestes tempos em que tudo nos aparece prono a vestir ou consumir.
Grata por esta bela lição de vida de um tempo que ficou lá atrás, mas...existiu! Nada é ficção!
Um abraço amigo.
Olá Janita. Muito obrigado pelo comentário. O qua hoje chamamos de artesanato foi, noutros tempos, o trabalho que ajudava ao sustento das famílias numerosas do nosso país. Não valorizamos o muito que hoje temos e esquecemos que "lá atrás" a escassez era muita.
EliminarUm abraço.
Muito lindo te ler e quantas tecituras esse velho tear fez?
ResponderEliminarE em cada pontinho dado, tantos pensamentos juntos entrelaçados! Adorei!
Imagem e texto lindos!
abraços, chica
Olá Chica. Muitas horas que mãos dedicadas trabalharam este tear. Muitos sonhos por aqui passaram certamente enquanto os fios entrelaçados formavam lindas mantas.
EliminarUm abraço.
Oi, tudo bem:
ResponderEliminarEsse tear marcou uma época. De fato, daí saiam obras de artes feitas de pano. Mas creio que ainda haja lugares onde eles estão ativos ainda.
abraços
Marcou uma época e uma família.
EliminarFelizmente muito desse trabalho ainda está vivo e carrega memórias que gosto de partilhar.
Um abraço.
機械本身就是一種藝術.
ResponderEliminar一种充满回忆的艺术形式。
EliminarEu também sou desse tempo e desses lugares!
ResponderEliminarTenho duas irmãs mais velhas que eu, a primeira aprendeu a bordar, por não gostar muito da costura que era a profissão da mãe, e a segunda aprendeu a tecer num tear igual a esse, mas quando chegaram as confecções a Portugal mudou de profissão (corria o ano de 1960).
Este já está parado à mais de cinquenta anos.
EliminarJá ninguém por cá sabe sequer como o recuperar quanto mais como poderia funcionar...
As mãos que lhe deram vida já por cá não andam.
Um abraço amigo conterrâneo.
Também tenho na memória o bater cadenciado das lançadeiras e dos pedais nos teares de duas vizinhas.
ResponderEliminarNasci numa terra onde as mantas vendidas de feira em feira eram sustento de muitas famílias.
Confesso que na minha nunca houve teares, mas conhecia-os muito bem nas minhas andanças de criança.
Bela memória!
Abraço
Muito obrigado.
EliminarBoas memórias.
Um abraço.
Uma homenagem muito bonita de algo que marcou uma era tão sofrida e precária!
ResponderEliminarNa minha terra aprendi a bordar á mão e numa máquina de costura e fiz imensos enxovais que na época era moda fazer!
Cá continuei porque o meu irmão trouxe a máquina e vendia tudo.
Estragou-se e não teve concerto e está guardada no seu móvel!
Quanto aos teares só vi ao vivo numa excursão que fiz!
Agora temos a era do descatável Gostei muito do teu texto!
Beijos e um bom domingo!
Muito obrigada pelas suas palavras tão bonitas! 💖
EliminarÉ incrível como tantas mulheres aprenderam a arte do bordado e da costura e, com muito esforço e talento, ajudaram as suas famílias nessa época tão difícil.
Que pena a máquina ter-se estragado… mas guarda tantas memórias e histórias de vida que acaba por ser um tesouro aí em casa.
Este tear vem recordar o valor do trabalho manual que hoje, infelizmente, se vai perdendo na era do descartável.
Um abraço e boa semana.
Um tear antigo que ficou como memória de um tempo em que tantas mulheres o usavam para fazer mantas e outra utilidades. Gostei muito, meu Amigo.
ResponderEliminarUm beijo.
Muito obrigado amiga Graça.
EliminarUm abraço.
Fizeste-me recordar de uma senhora, minha vizinha, lá na aldeia que tecia num tear como estes; fazia mantas de farrapos cortados às tiras que eram os cobertores da época, época em que os colchões eram de palha. Quando essa senhora faleceu, eu tinha 9 ou dez anos e foi um problema sério, pois gostva muito, muito dela e ela de mim. Ainda tenho algumas dessas mantas que servem por exemplo, para cobrir as malas que guardo numa arrecadação e para outras funções semelhantes. Quando olho para elas, lembro, com muita saudade da tia Maria, a tecedeira mais conhecida da minha aldeia
ResponderEliminarObrigada, Rui, por, mais uma vez me levares aos tempos da minha meninice
Um beijinho e saúde, sempre
Emilia 🌻🌻
Que bonito testemunho… 🌻
EliminarEssas mantas guardam memórias, carinho e pedaços de uma vida. A tia Maria deixou, nas mãos e no coração de quem a conheceu, um legado que o tempo não apaga.
Imagino o quanto essas recordações aquecem a alma quando olha para essas mantas e volta, por instantes, aos tempos da meninice. É sinal de que as pessoas que amamos nunca partem totalmente, continuam vivas nas memórias, nos gestos e nas pequenas coisas do quotidiano.
Um abraço Emília, e muita saúde também para si 🌻
Hoje em dia as poucas peças feitas nestes teares valem uma fortuna.
ResponderEliminarUm abraço, boa semana
São relíquias que quem as tem guarda como tesouros.
EliminarUm abraço.