Memórias da fonte da aldeia.
Há lugares que guardam silêncio
há tantos anos que parecem já fazer parte da própria montanha. Esta velha mina
de água, escondida entre o musgo e a pedra húmida dos montes da minha aldeia, é
um desses lugares. Olho para ela e imagino as mãos calejadas dos homens de
outros tempos, dobrados sobre a rocha dura, escavando pacientemente a terra com
ferramentas rudimentares, guiados apenas pela esperança de encontrar água. Não
trabalhavam para si apenas. Trabalhavam para todos.
Ninguém
sabe ao certo quantos anos tem esta mina. Talvez porque certas obras deixam de
pertencer ao tempo e passam a pertencer à memória coletiva. Foi aberta numa
época em que não existia água canalizada nas casas, quando cada gota tinha um
valor quase sagrado. A água que daqui nascia seguia por canais e regos,
atravessava campos, alimentava culturas, matava a sede dos animais e sustentava
vidas inteiras. Era o coração escondido da aldeia.
Hoje,
habituados à facilidade de abrir uma torneira, esquecemo-nos muitas vezes do
esforço que existia por detrás de algo tão simples. Mas estes homens sabiam que
a sobrevivência de uma comunidade dependia da entreajuda e do bem comum.
Escavavam centenas de metros montanha adentro, em condições duras, húmidas e
escuras, para trazer à superfície aquilo que consideravam o bem mais precioso
de todos. A água, fonte de vida.
Há
qualquer coisa de profundamente humano nestas minas antigas. Não têm o brilho
das grandes obras nem o reconhecimento dos monumentos famosos, mas carregam
dentro delas a dignidade silenciosa de quem trabalhou para deixar um futuro
melhor aos outros. Cada pedra molhada parece guardar ecos de vozes antigas,
conversas perdidas no interior da terra, passos lentos de homens cansados que
regressavam a casa sabendo que tinham cumprido a sua missão.
Talvez seja por isso que gosto tanto de
voltar a este lugar. Porque aqui ainda se sente a humildade de um tempo em que
as pessoas tinham pouco, mas compreendiam o valor de tudo. E entre o verde do
musgo, o murmúrio da água e a escuridão da mina, permanece viva a memória
daqueles que fizeram da terra um gesto de partilha.

Que texto lindo e a imagem também.
ResponderEliminarVoltar à lugares assim , reviver a simplicidade que infelizmente hoje não encontramos mais é lindo!
Adorei! abraços, chica