08 maio 2026


O Professor que nos ensinou mais do que a escola!

            Uma conversa recente com um amigo de infância, daqueles amigos que o tempo afasta mas nunca apaga, levou-nos numa viagem inesperada até aos nossos primeiros anos de escola. Entre memórias soltas, nomes esquecidos e episódios que ainda nos fazem rir, houve uma figura que surgiu naturalmente na conversa, quase como se ainda estivesse ali diante de nós. O nosso professor Norberto.

            Lembro-me bem do espanto dos adultos quando souberam que o novo professor da escola primária era um homem. Até então, a escola da aldeia só conhecera professoras, e a novidade despertou alguma desconfiança na comunidade. Mas bastaram poucas semanas para tudo mudar. Os pais começaram a reparar no entusiasmo com que íamos para a escola, quase ansiosos que chegasse a manhã seguinte. E isso dizia tudo.

            O professor Norberto era um homem alto, de barba, rosto de faces rosadas e voz calma. Fumava, algo muito comum naquele tempo, mas curiosamente fazia sempre questão de nos dizer para nunca seguirmos esse exemplo. Havia nisso uma honestidade simples que ainda hoje recordo com simpatia.

            Aparecia sempre no seu inseparável Citroën 2 Cavalos, um carro tão peculiar quanto ele. Pelo caminho, dava boleia aos miúdos que encontrava a pé. Às vezes o carro teimava em não pegar e lá íamos nós, uma pequena multidão de crianças felizes, empurrando o carro estrada fora entre gargalhadas e gritos de incentivo. Hoje penso nisso e percebo como eram simples as coisas que nos faziam felizes.

            Tinha métodos muito à frente do seu tempo. Enquanto outras salas ainda conheciam a régua como castigo, ele preferia premiar em vez de punir. Não havia medo nas suas aulas, havia motivação. Se nos portássemos bem e a aula corresse como planeado, levava-nos para o recreio jogar futebol com ele. E jogava a sério, com entusiasmo de miúdo. Algumas vezes era preciso as outras professoras irem avisá-lo de que o recreio já tinha acabado, tal era a animação do jogo.

Quando percebeu que a turma dava demasiados erros nos ditados, inventou outra forma de nos incentivar. Passou a oferecer pequenos calendários de bolso aos alunos com menos erros. Eram calendários do Mundial de Futebol do México de 1986, um acontecimento especial porque contava com a presença de Portugal apenas pela segunda vez. Sem saber, o professor Norberto deu início à minha primeira coleção.

            Dizia-nos muitas vezes uma frase que ainda hoje me acompanha: -“Escreve bem quem muito lê.” Talvez tenha sido aí que percebi que os livros podiam abrir portas invisíveis. Também nunca esquecerei o dia em que nos levou ao pavilhão municipal para vermos hóquei em patins. Em Barcelos era uma modalidade forte, mas para nós, miúdos da aldeia, era praticamente um mundo desconhecido. Tudo aquilo parecia enorme. O recinto, a velocidade do jogo, o barulho dos patins no chão. Ele tinha essa capacidade rara de nos mostrar que havia sempre mais mundo para lá da nossa aldeia.

            Foram quatro anos, da 1.ª à 4.ª classe como se dizia antigamente, feitos de aprendizagem, descobertas e das primeiras amizades que a vida nos oferece. Mas, acima de tudo, foram anos marcados por um homem que deixou uma marca numa geração inteira e, arrisco dizer, em toda a comunidade.

            Posso afirmar sem hesitar que foi o melhor professor que tive.

            E talvez por isso me emocione sempre que passo pela rotunda dedicada ao “Professor Primário”, numa das entradas de Barcelos (foto acima). Uma justa e bonita homenagem da minha cidade a todos aqueles que dedicam a vida à nobre missão de ensinar. Porque me lembra que algumas das maiores mudanças na nossa vida foram feitas por pessoas que nunca precisaram de levantar a voz para serem inesquecíveis.

            Gostava muito de voltar a encontrar o professor Norberto. Nem que fosse apenas para lhe dizer aquilo que talvez nunca lhe tenhamos dito na altura:

            - OBRIGADO!


 

14 comentários:

  1. Esta estátua fez-me lembrar um poema que li e decorei ainda na Primária:
    "Olhem, lá vai o Gonçalo a caminho da escola.
    Além, vamos depressa apanhá-lo, vamos com ele também.
    Tem sido meu companheiro, da 1ª à 4ª classe,
    pontual como o primeiro, nunca vi que ele faltasse.
    É bondoso, aplicado, cortês e respeitador
    por isso é tão estimado pelo nosso Professor.
    Lá vai, nunca se demora no caminho a conversar,
    chega sempre antes da hora, é um aluno exemplar.

    Rapazes, vamos a ver se podemos imitá-lo,
    se sabemos proceder em tudo, como o Gonçalo."

    Tentei ensinar este poema ao meu neto João, o mais velho, ( o garoto da plasticina) mas nunca consegui que ele o decorasse.
    Se calhar puxou à avó, a minha memória auditiva não é tão eficaz quanto a visual.
    Um abraço!
    PS_ Se por um acaso da vida eu encontrar o seu Prof. Sr. Norberto agradeço-lhe por si.

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    1. Olá amiga Janita. A minha memória visual também é mais apurada que a auditiva. Todos nos diziam para sermos como o "Gonçalo", mas depois lá vinham as travessuras!
      Muito obrigado.
      Um abraço.

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  2. Boas memórias! A minha professora era uma mulher solteira e má como as cobras! Não me marcou de modo algum, nem para o bem nem para o mal!
    Bom fim de semana!

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    1. Eu também sei que tive sorte, pois outros colegas da minha aldeia tiveram professoras com a mesma "simpatia" da do meu amigo Tintinaine.
      Um abraço.

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  3. Tão bom voltar no tempo ao reencontrar amigos da escola e lembrar dos professores. Há os que nos deixaram marcas inesquecíveis! Lindo! beijos,tudo de bom,chica

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    1. É sempre bom recordar quem nos fez bem. É uma forma de homenagear essas pessoas que passaram nas nossas vidas!
      Um abraço.

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  4. O meu professor da escola primária foi um grande craque da Académica.
    O Bentes, o rato atómico.
    Um abraço, bfds

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    1. Que privilégio o seu! Fui vasculhar com o sr. google e o seu professor é ainda hoje o melhor marcador da Académica com 170 golos.
      Um abraço e boa semana.

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  5. Que bela e ternurenta memória, ele gostaria de ler este testemunho.
    Na minha família do lado paterno houve dois professores primários, como se chamavam, um era irmão do meu avô e o outro o meu tio mais novo que morreu recentemente com 96 anos. Este meu tio mereceu ver o seu nome dado ao centro escolar lá da terra, tal não foi a marca que deixou.
    Não era muito vulgar, realmente, o magistério ser exercido por homens que só podiam ensinar rapazes.

    Abraço

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    1. Muito obrigado.
      Talvez ainda a chegue a ler!
      Um abraço.

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  6. Que bela narrativa e fiquei de alma cheia!
    Beijos e um bom domingo!

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  7. Realmente, existem professores /professoras que nos ficam no coração e esse Senhor é um deles.

    Abraço, boa semana :)

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    1. É verdade. Este é caso que marcou a própria comunidade.
      Um abraço e boa semana.

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