Festa das Cruzes entre flores e memórias.
Há festas que se vivem, e há
festas que vivem em nós por dentro. A Festa das
Cruzes é uma dessas raras romarias que não se limitam a ocupar o
calendário. Ocupam-nos a memória, o corpo e, sobretudo, o coração.
Considerada
a primeira grande romaria do Minho, a Festa das Cruzes chega todos os anos como
uma explosão de cor, tradição e alegria popular, transformando Barcelos num palco vibrante onde o passado e o
presente dançam lado a lado. A sua origem remonta ao século XVI, envolta numa
lenda que ainda hoje ecoa nas ruas. No longínquo ano de 1504, o sapateiro João
Pires, ao regressar da missa, encontrou no chão do Campo da Feira uma cruz
negra. O que interpretou como um sinal divino depressa incendiou a devoção
popular ao Senhor da Cruz. Devoção essa que viria a materializar-se no
imponente Templo do Bom Jesus da Cruz,
hoje coração pulsante da festa.
Durante
vários dias, Barcelos deixa de ser apenas cidade e transforma-se num verdadeiro
mundo à parte. Tudo começa com a colocação dos tradicionais arcos de romaria.
Obras trabalhadas pelas mãos do povo e por isso carregadas de identidade, onde
cada freguesia do concelho se faz representar com orgulho e criatividade.
Mas,
para mim, há um dia que brilha mais alto. O primeiro de maio. A famosa Batalha
das Flores não é apenas um desfile, é um espetáculo vivo, quase surreal, onde
carros alegóricos travam uma guerra delicada feita de pétalas e perfumes.
Flores voam pelo ar como se fossem confetes da natureza, e por momentos tudo
parece suspenso numa alegria leve, quase infantil.
Depois
chega o dia 3 de maio, feriado municipal, o dia maior das Cruzes. A dimensão
religiosa impõe-se com solenidade na grandiosa procissão, onde as cruzes das 89
paróquias do concelho desfilam em comunhão, num testemunho de fé que atravessa
gerações.
E,
no meio de tudo isto, há um movimento incessante e uma alegria contagiante. O
centro da cidade transforma-se num parque de diversões a céu aberto, onde os
cheiros a farturas e pão com chouriço se misturam com o som das músicas e dos
risos. É um convite constante à celebração. Uma celebração simples, genuína,
popular.
Mas talvez o verdadeiro significado desta festa não esteja apenas no que se vê, mas no que se recorda. Porque, para mim, as Cruzes são também feitas de viagens numa velha mota, uma Sachs V5, com o meu pai. São chegadas ansiosas, olhos arregalados perante aquele universo de luzes e movimento. Ele levava-me pela mão a percorrer os carrosséis, paciente, à espera que eu escolhesse “o tal”. E eu escolhia sempre como se fosse a decisão mais importante do mundo.
Era
mágico.
Aquela feira de diversões parecia outro planeta, tão distante da calma da aldeia onde vivíamos. Havia gente por todo o lado, música no ar, e uma energia que nos envolvia sem pedir licença. E depois, no fim, vinha o ritual. Íamos beber um Sumol ao Magriço. Um café que, na altura, parecia eterno, um ponto fixo no meio da festa. Hoje já não existe. Foi levado, como tantos outros, pela marcha inevitável da modernidade. Mas permanece intacto no lugar mais resistente que existe. A memória.
Talvez seja isso que torna a Festa das
Cruzes tão especial. Não é apenas uma romaria, é um reencontro. Com a cidade,
com as tradições… e com aquilo que fomos.

Conheço bem a festa das cruzes, mas não conhecia a lenda que lhe deu origem e achei muito interessante. Como era bom ir a uma festinha e beber um sumol, não é verdade? Nas nossas casas não havia tanta fartura como hoje há e os pais tinham de se preocupar com o essencial, deixando os refrigerantes para ocasiões muito especiais. Hoje, não os bebo, mas, como ficava contente, quando, num dos poucos passeios que faziamo, o meu pai parava para tomarmos um sumol. Que alegria!
ResponderEliminarAmigo, mais uma vez me levaste à minha infância, numa aldeia do concelho de V. N. De Famalicão. Foi muito bom!!
Um beijinho e aproveita nem a festa das Cruzes deste ano
Emília 🌻🌻