15 maio 2026


O silêncio do velho tear.

 

            Havia um tempo em que as casas respiravam trabalho desde o nascer do sol até ao seu crepúsculo. As mãos nunca estavam quietas e cada canto guardava uma tarefa, uma obrigação, uma história. Há objetos que envelhecem connosco. Ficam esquecidos em cantos escuros, cobertos de pó e silêncio, mas continuam vivos dentro da nossa memória. Este velho tear é um deles. Quando olho para ele, cansado pelo peso dos anos, coberto de pó e silêncio, custa-me acreditar que daqui nasceram tantas mantas cheias de vida, calor e dedicação.

            As minhas tias ainda eram meninas quando aprenderam a dominar este emaranhado de paus, tábuas, pedais e fios. Para quem vê agora, parece impossível compreender como dali podia sair alguma coisa bonita. Mas saía. E saía arte. Entre o ranger da madeira e o bater ritmado do tear, iam crescendo mantas grossas, muitas vezes em tons coloridos, feitas para vender e ajudar nas despesas da casa, mas também para aquecer as camas antigas, onde os colchões ainda eram de palha e os invernos pareciam mais frios do que hoje.

            Naquele tempo, a vida nas aldeias não dava espaço para preguiças nem grandes sonhos. As raparigas aprendiam cedo o peso das responsabilidades. Teciam, lavravam, tratavam dos animais, cozinhavam e ainda encontravam maneira de cantar enquanto lidavam com essas tarefas. O tear fazia parte desse mundo duro, mas também simples e verdadeiro.

            Hoje resta esta estrutura quase em ruínas, esquecida num canto, como se o tempo tivesse levado consigo o saber das pessoas que lhe davam vida. Já ninguém sabe ao certo como funcionava este engenho de outros tempos. As mãos capazes de entender cada fio, cada nó e cada movimento foram desaparecendo devagar, levando consigo um conhecimento que nunca chegou aos livros.

            Ainda assim, algumas dessas mantas sobrevivem em casa dos meus pais. Sempre que lhes toco, sinto que não são apenas cobertores antigos. São pedaços de memória tecidos fio a fio. São o esforço silencioso de mulheres da minha família que trabalharam toda a vida sem nunca esperar reconhecimento. Eram saberes que passavam naturalmente de geração em geração, sem escolas nem manuais. Aprendia-se olhando, repetindo e errando. E saiam obras de arte feitas sem assinatura.

            Na minha aldeia, este tear não era raro. Em muitas casas de lavradores existiam engenhos parecidas, porque quase tudo se fazia em casa, com o que havia e com o saber passado de geração em geração. Hoje sobra o silêncio, a madeira gasta e uma certa tristeza por ver desaparecer um mundo inteiro que parecia eterno.

            Talvez seja isso a memória. Tentar salvar, através das palavras, aquilo que o tempo insiste em destruir.


 

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