Há objetos que não são apenas objetos. São portais. O gira-discos do meu pai era um desses. Veio de França, embrulhado em saudade e esperança, no regresso dos tempos em que ele foi emigrante. Não era apenas um aparelho. Era uma prova de conquista, um pedaço do mundo que ele trouxera consigo. Lembro-me de o ver pousado na sala, com uma dignidade quase solene, como se soubesse que guardava segredos dentro daquela tampa de plástico preto.
Naquele tempo, e talvez em todos os tempos, a música era refúgio. Hoje, neste tempo louco de homens loucos, precisamos mais do que nunca de serenidade, de paz e de alguma alegria. E é curioso como tudo isso já estava ali, naquela caixa mágica da minha infância. Era com o gira-discos a tocar que a minha mãe dava a papa de Cerelac ao meu irmão. Talvez a música lhe adoçasse a boca, talvez lhe embalasse o choro. As canções enchiam a sala enquanto a colher fazia o seu vaivém paciente. Havia harmonia naquele ritual simples.
O meu pai ensinou-me a colocar os discos. Primeiro, tirar o vinil da capa com cuidado. Segurá-lo pelas bordas. Pousá-lo no prato. Depois, com uma solenidade quase religiosa, baixar a agulha sem a deixar riscar. Eu prendia a respiração nesse momento. Sentia o peso da responsabilidade. Não só por proteger aquele tesouro, mas também o peso invisível de ser “o mais velho”. Lá em casa ensinava-se cedo o valor das coisas e a confiança era um presente que não se desperdiçava. Foi assim que comecei a conhecer as músicas de outros tempos. Os acordes intemporais dos The Beatles, as melodias contagiantes dos ABBA, a voz profunda e sofrida de Édith Piaf. E tantos outros que faziam parte do gosto e da história do meu pai. Dois temas no lado A, depois virar o disco com cuidado para ouvir mais dois no lado B. Ainda que sem saber, era o DJ lá de casa, à procura da próxima banda sonora para aquela tarde.
Hoje
parece impensável que um adulto deixasse uma criança tão pequena manusear algo tão
precioso. Mas talvez fosse isso que fazia a diferença. A confiança, o tempo, a
ausência de pressa. Cresci a saber que as coisas valiosas exigem cuidado. Sejam
elas os discos, as memórias ou as pessoas.
Mais
tarde, já adolescente, havia um ritual que era só meu. Depois do almoço de
domingo, quando a casa ainda cheirava a café acabado de fazer, eu ia para a
sala. Escolhia um disco, colocava-o a tocar com o volume quase no máximo e
abria as janelas. Queria que a música saísse para a rua, que chegasse aos vizinhos,
que invadisse o lugar da minha aldeia (ainda não havia a denominação das ruas)
com aquela alegria despreocupada. Era uma espécie de declaração, um “grito” que
dizia aqui vive-se, aqui ouve-se música, aqui há vida.
Tenho
saudades desses tempos. Não apenas da infância, mas da leveza. Era mais fácil
ouvir música e deixarmo-nos contagiar por coisas alegres. Hoje, são mais as más
notícias que entram casa dentro sem pedir licença, instalando-se no sofá como
visitas indesejadas. O ruído do mundo parece muitas vezes mais alto do que
qualquer canção.
Talvez por isso volte tantas vezes, em pensamento, ao gira-discos do meu pai. À agulha a descer devagar. Ao som ligeiro do crepitar antes da música começar. À certeza de que, durante aqueles minutos, o mundo podia esperar. Porque no fundo é isso que a arte, e especialmente a música, nos oferece. Um intervalo. Um lugar onde a paz ainda é possível. E, enquanto houver um disco para virar e uma memória para revisitar, talvez nunca estejamos verdadeiramente perdidos.

Sei bem do que fala pois também tive um gira-discos. Tive e tenho!
ResponderEliminarPermanece na mesma estante do móvel verde da sala. A seu lado e ao alto, ainda permanecem os LPs e os singles. Ainda funciona, mas já ninguém ouve discos nesta casa. Apenas o meu filho, quando cá vem, de quando em vez o põe a funcionar.
Na minha infância e adolescência tínhamos a telefonia somente, e já era tão bom...!
Como sempre, mais uma Crónica a puxar pelas suas e nossas, recordações mais emocionantes.
Bem Haja, Amigo Rui!
Um abraço.
Olá amiga Janita! Muito obrigado, o objetivo é mesmo esse, puxar pelas recordações porque "recordar é viver"!
EliminarComo adora desafios deixo-lhe aqui um:
- Um dia destes, escolha um disco ao acaso, tire o pó com carinho, coloque-o a rodar e deixe a casa encher-se outra vez desse som especial que só o vinil tem. Mesmo que seja só por uma música.
Quem sabe se não acorda memórias bonitas… ou até cria novas?
Fico à espera de saber que disco foi o escolhido.
Um abraço.
Grata pela sugestão. Quando o fizer será para ouvir pela enésima vez os ABBA, na canção 'Chiquitita'... :)
EliminarDois abraços...ou três.
Quanta nostalgia me deu ao ler esse teu lindo texto! Na minha casa também tivemos e sempre via meu pai e mãe às voltas com o gira-discos! Adorei! beijos, chica
ResponderEliminarOlá amiga Chica! Fico feliz por despertar boas memórias nos meus seguidores.
EliminarUm abraço.
Se calhar, sou da idade do teu pai! Também eu fui emigrante, durante pouco tempo, e quando regressei da Alemanha trouxe comigo um rádio Grundig, daqueles antigos de válvulas que em si mesmo era quase um móvel na sala!
ResponderEliminarOlá amigo conterrâneo! Talvez sejam da mesma geração, o meu pai entra este ano nos 80! O gira discos dele também é um Grundig mas é dos mais "modernos":)
EliminarUm forte abraço amigo.
Quando eu era jovem tive um gira discos. Discos de vinil. Um dia emprestei-o a um primo e....... não mais voltou. Coisas que acontecem na vida.
ResponderEliminar.
Saudações cordiais e poéticas
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“” Guerra:- Deixem brincar a criança ““
.
Tem aquele ditado que diz "mulher e carro não se empresta a nimguém!". Agora temos que acrescentar o gira-discos também:)
EliminarUm abraço.
"mulher e carro não se empresta a ninguém" - hahahahaha
ResponderEliminarOs meus pais tinham um gravador gigante. Ainda foi na semana passada que o meu irmão me perguntou: Que teria sido feito daquele gravador enorme que o pai comprou?
Não sabemos.
Não foi há muitos anos que me disseram que os gira-discos estavam de novo na moda. Não serei eu que irei comprar outro. Nem sei onde foram parar os discos do Elvis que possuíamos.
CDs ainda tenho alguns que não são ouvidos há dezenas de anos. E oiço música todos os dias.
Compreendo o seu fascínio pelo gira-discos do seu pai. : )
Olá Teresa. O importante é a música, onde quer que ela venha!
EliminarE como precisamos de música para calar o ruido do mundo que cada vez parece mais insuportável.
Um abraço.
A completadora
EliminarA contempladora ocidental chama-se CATARINA.
EliminarGuardado religiosamente em Coimbra um móvel que inclui rádio e gira-discos.
ResponderEliminarTelefunken.
E lá dentro um gravador de fitas Grundig.
Que o meu pai comprou quando eu era garoto.
Na Aerlux.
Um abraço
Guardado e cheio de boas memórias, tenho a certeza!
EliminarPela sua descrição também deve ser um autentico tesouro!
Um abraço.
Na minha terra também os meus pais tinham um gira discos muito bonito mas tudo foi pulverizado pela maldita guerra civil!
ResponderEliminarBeijos e um bom dia!
Malditas guerras!
EliminarO importante são as memórias que temos e devemos cultivar.
Um abraço.
Olá, R. Correia
ResponderEliminarTão lindo texto que puxa pelas nossas memórias.
Muito obrigada.
Abraço
Olinda
Olá Olinda.
EliminarMuito obrigado pelo comentário.
É mesmo esse o objetivo!
Um abraço.
Memória lindíssima que tão bem nos conta. Eu posso imaginá-lo a colocar o disco e a aprender a gostar das canções que o seu pai ouvia. Magníficas lembranças, meu amigo, que me faz regressar às minhas.
ResponderEliminarTudo de bom.
Um beijo.
Olá amiga Graça.
EliminarMuito obrigado pelo comentário. Fico feliz que as minhas memórias despertem as suas.
Um abraço.
A música faz toda a diferença e é uma alegre companhia.
ResponderEliminarOs gira-discos fizeram a sua época, mas sabemos que não estão banidos.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes
Bem verdade amigo Juvenal, a música é que nos alegra. Como faz falta nos dias de hoje! Os gira-discos e o vinil parece que voltaram a estar na moda!
EliminarUm abraço.
Beautiful blog
ResponderEliminarThank you Rajani Rehana!
EliminarPlease read my post
ResponderEliminarA autora do ematejoca azul é que se chama TERESA.
ResponderEliminarTenho um gira-discos, mas não do meu avó.
Um presente de Natal da minha filha do meio para eu ouvir a minha música clássica preferida. O vinil está novamente na moda.
Mesmo assim, prefiro ouvir a música ao vivo.
Olá amiga Teresa. Mil desculpas pela troca de nome! Os nomes foram sempre o meu "calcanhar de Aquiles":)
EliminarO vinil parece realmente estar novamente na moda. Há uma nova geração que está a descobrir essa "nossa" maravilha de outros tempos.
Um abraço e boa semana.
Curiosamente, também troco constantemente os nomes de familiares e amigos, portanto, não precisa de me pedir desculpa.
EliminarUm abraço quase primaveril 🌺 da aldeia do Düssel.
Apreciei deveras esta sua crónica. Recordações coincidentes com as minhas.
ResponderEliminarUm abraço.
Muito obrigado pelo seu comentário.
EliminarBoas recordações certamente.
Um abraço.
Belas recordações, Amigo Rui. Também tive um gira - discos na minha adolescência que não sei onde foi parar. Mas tenho um, aqui na minha sala, um móvel que junta radio e leitor de cassetes; conservo muitos dos meus discos de vinil e já dei alguns à minha neta, pois estão de novo na moda.
ResponderEliminarAgora, Rui, temos as guerras que nos atormentam, com imagens horríveis que nos chegam logo que ligamos a televisão, seja em que canal for. Uma tristeza e que, infelizmente, nada podemos fazer. Um beijinho e muito obrigada por, de novo, me levares aos meus tempos
de infância.
Emília 🌻 🌻
Olá amiga Emília!
ResponderEliminarEstamos a viver tempos desafiantes em que as guerras nos entram casa dentro sem pedir licença. É uma boa altura para pegarmos novamente no vinil para relaxar e revisitar nossas memórias de tempos em que eramos felizes sem saber!
Um abraço.