20 fevereiro 2026


           Memórias guardadas numa gaveta. 

            O tempo tem uma forma curiosa de se esconder. Às vezes está numa fotografia amarelada, outras vezes num livro, ou então num qualquer brinquedo esquecido numa gaveta. Voltar ao quarto onde crescemos é sempre um exercício estranho. Tudo parece igual, mas já nada nos pertence da mesma forma. Há dias, numa das inúmeras visitas que faço aos meus pais, dei por mim a vasculhar o meu antigo quarto onde já não moro há uns valentes anos. Foi nesse regresso silencioso, entre caixas e gavetas, que encontrei este jogo de carros. Um vestígio intacto de uma época em que o tempo parecia correr mais devagar. Um pequeno objeto, mas com um peso enorme de memórias. A minha mãe teima em manter o meu quarto e o do meu irmão exatamente como estavam quando saímos de casa, quando decidimos “seguir viagem”. Nada mudou. Ou talvez tenha mudado tudo, menos aquele cenário. Como se o tempo ali tivesse ficado suspenso, à espera que um dia voltássemos a abrir gavetas e caixas de memórias esquecidas.

            Este brinquedo, que há muitos anos não via e que até pensava já não existir, foi um prémio pelo meu desempenho escolar nos finais dos anos 80. A minha mãe sempre teve o hábito de estipular metas para me incentivar a estudar. Mas não bastava passar de ano, era preciso passar bem. Exigia a excelência, ou pelo menos tinha que me esforçar o suficiente para ser reconhecido que trabalhava para ela. Nesse ano, que penso ter sido o final do 6.º ano, cumpriu a promessa e levou-me à loja do “Zé Pequeno”, no centro da cidade de Barcelos. Uma daquelas lojas mágicas que tinha tudo. Brinquedos, bugigangas e tentações que faziam brilhar os olhos da criançada. Sempre com a velha máxima que “não pode ser muito caro” e acabava sempre por “marralhar” o preço com o dono da loja até eu corar de vergonha.

            Ir lá já era uma aventura em si. Muitas vezes, a ida à cidade acontecia em dia de feira, à quinta-feira sempre de camioneta. O nosso principal meio de transporte familiar, se excluirmos a velha Sachs-V5 do meu pai. Ainda hoje me lembro da surpresa da minha mãe quando, entre bolas, carrinhos e jogos mais “normais”, escolhi aquela maquineta estranha que nem ela sabia bem o que era. Eram as modernices da época, os primeiros jogos eletrónicos portáteis. A nova tecnologia a chegar timidamente às mãos das crianças.

            Passei horas agarrado àquele jogo de carros. Horas de concentração, de frustração, de entusiasmo. Às vezes enervava-me mais do que me divertia, é verdade. Mas estava ali, sempre disponível. E quando cansava, havia a alternativa perfeita. Corria a chamar alguém dos caminhos vizinhos para jogar à bola, inventar corridas ou simplesmente andar por aí a preparar qualquer brincadeira inventada na hora, sem relógio nem notificações.

            Bons tempos esses tão distantes dos dias de hoje. Ao reencontrar este jogo, não consigo evitar a comparação. Naquela altura, era apenas um brinquedo entre muitos outros possíveis. Agora, objetos semelhantes parecem prolongamentos naturais das mãos das crianças. Este pequeno jogo não é apenas um vestígio do passado. É um lembrete silencioso de um tempo mais simples, em que a tecnologia encantava, mas não dominava. Encontrar este jogo foi mais do que reencontrar um brinquedo. Foi reencontrar um pedaço de quem eu fui, num tempo em que o prémio vinha depois do esforço e a diversão era certa ainda que coubesse inteira na palma da mão.


 

1 comentário:

  1. Lembranças lindas e boas daquele tempinho tão legal que voou e passou! Tão bom recordar brinquedos e situações daquela época! Muito linda participação! beijos, chica

    ResponderEliminar