Memórias guardadas numa gaveta.
O tempo tem uma forma curiosa
de se esconder. Às vezes está numa fotografia amarelada, outras vezes num
livro, ou então num qualquer brinquedo esquecido numa gaveta. Voltar ao quarto
onde crescemos é sempre um exercício estranho. Tudo parece igual, mas já nada
nos pertence da mesma forma. Há dias, numa das inúmeras visitas que faço aos
meus pais, dei por mim a vasculhar o meu antigo quarto onde já não moro há uns
valentes anos. Foi nesse
regresso silencioso, entre caixas e gavetas, que encontrei este jogo de carros.
Um vestígio intacto de uma época em que o tempo parecia correr mais devagar. Um
pequeno objeto, mas com um peso enorme de memórias. A minha mãe teima em manter
o meu quarto e o do meu irmão exatamente como estavam quando saímos de casa,
quando decidimos “seguir viagem”. Nada mudou. Ou talvez tenha mudado tudo,
menos aquele cenário. Como se o tempo ali tivesse ficado suspenso, à espera que
um dia voltássemos a abrir gavetas e caixas de memórias esquecidas.
Este brinquedo, que há muitos
anos não via e que até pensava já não existir, foi um prémio pelo meu
desempenho escolar nos finais dos anos 80. A minha mãe sempre teve o hábito de
estipular metas para me incentivar a estudar. Mas não bastava passar de ano, era
preciso passar bem.
Exigia a excelência, ou pelo menos tinha que me esforçar o suficiente para ser
reconhecido que trabalhava para ela. Nesse ano, que penso ter sido o final do
6.º ano, cumpriu a promessa e levou-me à loja do “Zé Pequeno”, no centro da
cidade de Barcelos. Uma daquelas lojas mágicas que tinha tudo. Brinquedos,
bugigangas e tentações que faziam brilhar os olhos da criançada. Sempre com a
velha máxima que “não pode ser muito caro” e acabava sempre por “marralhar” o
preço com o dono da loja até eu corar de vergonha.
Ir lá já era uma aventura em
si. Muitas vezes, a ida à cidade acontecia em dia de feira, à quinta-feira
sempre de camioneta. O nosso principal meio de transporte familiar, se
excluirmos a velha Sachs-V5 do meu pai. Ainda hoje me lembro da surpresa da minha mãe
quando, entre bolas, carrinhos e jogos mais “normais”, escolhi aquela maquineta
estranha que nem ela sabia bem o que era. Eram as modernices da época, os
primeiros jogos eletrónicos portáteis. A nova tecnologia a chegar timidamente às
mãos das crianças.
Passei horas agarrado àquele
jogo de carros. Horas de concentração, de frustração, de entusiasmo. Às vezes
enervava-me mais do que me divertia, é verdade. Mas estava ali, sempre
disponível. E quando cansava, havia a alternativa perfeita. Corria a chamar
alguém dos caminhos vizinhos para jogar à bola, inventar corridas ou
simplesmente andar por aí a preparar qualquer brincadeira inventada na hora,
sem relógio nem notificações.
Bons tempos esses tão distantes
dos dias de hoje. Ao reencontrar este jogo, não consigo evitar a comparação.
Naquela altura, era apenas um brinquedo entre muitos outros possíveis. Agora,
objetos semelhantes parecem prolongamentos naturais das mãos das crianças. Este
pequeno jogo não é apenas um vestígio do passado. É um lembrete silencioso de
um tempo mais simples, em que a tecnologia encantava, mas não dominava. Encontrar
este jogo foi mais do que reencontrar um brinquedo. Foi reencontrar um pedaço
de quem eu fui, num tempo em que o prémio vinha depois do esforço e a diversão era certa ainda que coubesse inteira na palma da mão.

Lembranças lindas e boas daquele tempinho tão legal que voou e passou! Tão bom recordar brinquedos e situações daquela época! Muito linda participação! beijos, chica
ResponderEliminar