19 março 2026


Crónica de um Dia do Pai.

 

            Hoje celebra-se o Dia do Pai, e com ele chegam memórias que não se pedem, instalam-se. Algumas são suaves como um fim de tarde de verão, outras trazem consigo uma espécie de silêncio pesado, daqueles que não se explicam, apenas se sentem. Há datas que não precisam de aviso no calendário, chegam-nos primeiro ao peito. O Dia do Pai para mim é uma delas. É um dia feito de gestos simples, de ausências que ainda doem e de presenças que aprendemos a valorizar com o passar dos anos.

            O meu pai foi um homem de partidas forçadas. Depois de quase três anos na maldita guerra do ultramar, quando a terra pouco ou nada tinha para oferecer, fez-se ao caminho e emigrou para França. Não por sonho, mas por necessidade. Quando nasci, ele estava longe. Gosto de o ouvir contar a história de como soube da minha chegada ao mundo. Foi chamado ao escritório do patrão, coisa rara quase suspeita. Ia com medo, por momentos pensou que ia ser despedido. Em vez disso, deram-lhe a ler um telegrama. Era a notícia do meu nascimento. Sempre que imagino esse instante, há uma distância que não consigo medir.

             Como se mede a ausência num momento que devia ser partilhado?

            Cresci assim, entre esperas. O meu pai vinha pelo Natal e pelo mês de Agosto, como quem regressa de outro mundo por breves temporadas. No resto do tempo, era a minha mãe quem fazia de tudo, mãe e pai, colo e firmeza, como tantas mulheres o fizeram e fazem, ainda que por outros motivos. Lembro-me dela a ler-me as cartas que ele enviava, palavras que viajavam mais do que ele próprio. Eram nessas linhas que o conhecia, que o imaginava.

            Havia também uma fotografia, a que hoje retiro das minha memórias e revelo. Um retrato dele na parede do quarto onde vivíamos, em casa dos meus avós. Era ali que o meu pai existia diariamente. Imóvel, silencioso, mas presente à sua maneira.

            Um dia, numa dessas vindas, apareceu sem barba. Diferente. Estranho. E eu, na inocência desarmada de criança, desatei a chorar e disse que ele não era o meu pai. Ainda hoje carrego essa memória com um peso que não desaparece. Ele, que sempre chegava carregado de brinquedos, coisas que mais ninguém tinha, pequenos tesouros vindos de longe, merecia outra reação. Mas a infância não entende distâncias, nem sacrifícios.

            Com o tempo, felizmente, regressou de vez. Já eu andava na escola primária. Ainda fomos a tempo. A tempo de construir o que a ausência tinha adiado. Não era homem de muitas palavras nem de grandes gestos de afeto. Talvez a vida, dura e exigente, o tenha moldado assim, sem espaço para excessos. Mas foi, e continua a ser, um exemplo. Na forma como resistiu, como trabalhou, como nunca deixou de estar, mesmo quando estava longe.

            Hoje, olho para trás com uma espécie de gratidão tranquila. Nem tudo foi como poderia ter sido, mas foi o que teve de ser. E isso, de alguma forma, também nos construiu.

            Felizmente, ele ainda cá está.

            E hoje, mais do que as palavras que ficaram por dizer ao longo dos anos, há algo simples que finalmente não falta:

            - Um abraço.

 

24 comentários:

  1. Que lindo,Maria José!
    Fico imaginando a alegria do teu pai ao receber a notícia de teu nascomento e ao mesmo tempo a grande vontade de logo poder te ver! E tuas recordações fazem parte da vida e momentos, vividos ou desejados!
    Adorei!
    beijos, lindo dia! chica

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    1. Muito obrigado. Ainda teve que esperar uns meses para me conhecer...
      Um abraço.

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  2. Quantos foram os filhos que cresceram com pais ausentes?
    E não foi por escolha, foi por necessidade.
    É bom contar estas histórias na primeira pessoa.
    Para muitos saudosistas perceberem o que aconteceu realmente.
    Um abraço

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    1. É bem verdade amigo Pedro.
      Esses saudosistas devem ter nascido em berço de ouro. Só assim se pode imaginar alguém com saudades desses tempos.
      Um abraço.

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  3. Tenho saudades do meu Pai que partiu há algum tempo.
    Um abraço para si, outro para o seu Pai.

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    1. Obrigado António.
      Retribuo o gesto em duplicado.
      Um abraço.

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  4. Aqui só se festeja em Junho.
    A crónica de hoje é muitíssimo comovente e como sempre maravilhosamente escrita ✍️
    Um abraço amigo e quase primaveril ☀️

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    1. Muito obrigado Teresa. Cada país tem as suas datas comemorativas e o seu porquê. Num país como o nosso, de raízes católicas, é normal festejar-se no dia de S. José.
      Um abraço já primaveril.

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  5. Olá, R.Correia
    Fiquei presa neste texto tão emotivo, cheio de amor
    e ternura, porque a ausência por necessidade é diferente
    daquela que é imposta.
    Uma homenagem ao seu Pai que muito apreciei.
    Grande abraço
    Olinda

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    1. Muito obrigado Olinda.
      Como disse na crónica não imagino o que é estar separado de quem mais se ama. Sobretudo ter de esperar meses para conhecer o primeiro filho!
      Um abraço.

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  6. Mais uma vez, por desdita minha, não me revejo nesta emocionante narrativa. Cresci sem uma figura masculina que me proporcionasse segurança e amparo. Ainda hoje isso me dói, mas é como diz o Rui :
    "Nem tudo foi como poderia ter sido, mas foi o que teve de ser."

    O senhor seu Pai era um homem bem parecido, muito distinto e sente-se que deveria ser uma excelente pessoa.
    O filho Rui deverá ser, fisionomicamente, parecido com o pai, pois no carácter já eu sei que sim!

    Um grande abraço e desfrute da benesse da companhia do seu progenitor, todo o tempo que lhe for possível .

    Grande abraço.

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    1. Olá amiga Janita.
      Tudo tem um porquê embora muitas das vezes não o consigamos alcançar.
      Quanto ao retrato, se tirarmos a barba e o cabelo, até concordo que temos alguns traços em comum. O carater é o mesmo e está bem demarcado.
      Um grande abraço.

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    2. Quando escrevi que cresci sem ter por perto uma figura masculina, deveria ter escrito: "paterna" , já que tive o meu avô sempre presente, embora austero e de poucas palavras, os meus tios e primos.
      Mas ninguém preenche a lacuna da ausência de um pai...
      Feliz domingo.

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  7. Fico contente por poder ainda abraçar seu Pai , coisa que infelizmente eu não posso fazer desde 21/4/1999.

    Também sei o que é esperar pelo regresso de alguém que amamos e é obrigado a estar ausente e tenho essa mesma experiência de amor , cumplicidade e interesses comuns.

    O peso que sente e refere só faria sentido se não fosse criança.

    As minhas cordiais saudações e votos de muito tempo juntos para si e seu Pai( que é um homem bem parecido na foto ).

    Abraço.

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    1. Muito obrigado São pelas suas palavras!
      Espero poder abraçá-lo muitos mais anos e continuar a desfrutar da minha sorte.
      Um abraço para si.

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  8. Um texto cheio de amor que me sensibilizou muito. Eu perdi o meu pai aos sete anos. Não o conheci o suficiente.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Olá amiga Graça.
      Muito obrigado pela visita e comentário.
      Um abraço.

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  9. Já não tenho o meu pai há 8 anos, mas está sempre comigo; foi sempre muito carinhoso e, para ele os filhos estavam em primeiro lugar; não tivemos " luxos ", mas o suficiente para pensar que fui muito abençoada pelos pais que tive
    A tua homenagem emocionou-me, caro Rui.
    Muito obrigada! Um beijinho
    Emília 🌻🌻

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    1. Olá amiga Emília. Quando temos a sorte de ter um pai assim podemos mesmo dizer que fomos abençoados.
      Muito obrigado.
      Um abraço.

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  10. Sortudo, ter ainda o abraço do Pai. E que tenham essa oportunidade por muitos, muitos anos.
    Eu, no Dia do Pai, em junho, irei ao cemintário colocar um ramo de flores na campa do meu.
    Abraço

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    1. Muito obrigado Catarina!
      Eu sei que ainda sou um sortudo.
      Bonito gesto o seu!
      Um abraço.

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