27 março 2026


     Coleções de memórias

            Havia qualquer coisa de mágico naquele ritual simples de comprar uma chiclete Gorila. Não era pelo sabor, duro como pedra nos primeiros minutos, desafiando os dentes e a paciência, mas pelo pequeno tesouro escondido lá dentro. Um cromo. Um pedaço de papel que, para nós, valia mais do que qualquer moeda.

            Lembro-me bem destes aviões. Pequenos desenhos a preto e branco que nos transportavam para um mundo distante. A I e a II Guerra Mundial, nomes complicados, países que ainda mal sabíamos apontar no mapa, velocidades e altitudes que pareciam coisa de ficção. Sem darmos conta, aprendíamos. Aprendíamos história, geografia, tecnologia. Tudo isto enquanto mascavamos uma chiclete que, convenhamos, parecia feita de borracha de pneu.

            Colecionar era uma aventura. Havia trocas no recreio, negociações dignas de diplomatas, discussões acesas por causa de um cromo repetido que afinal não era assim tão repetido. Cada coleção era um projeto, um compromisso, uma pequena obsessão que nos ensinava mais do que muitos livros escolares.

            E depois veio a idade da parvalheira, aquela fase em que achamos que já somos crescidos demais para estas coisas. Coleções? Coisa de miúdos. E assim, sem grande cerimónia, muitas dessas relíquias acabaram no lixo. Hoje penso nisso e custa um bocadinho. Não pelo valor material, mas pela história que levaram consigo.

            Curioso como o mundo dá voltas. Na altura, aqueles aviões eram quase heróis de papel, símbolos de uma história distante que estudávamos com curiosidade. Hoje, fala-se de guerra todos os dias, mas o cenário mudou. Já não são os aviões que dominam os céus — são os drones, silenciosos, impessoais, quase invisíveis. A guerra parece cada vez mais um jogo de computador, onde quem está longe carrega num botão e tudo acontece no ecrã e nas nossas vidas.

            Talvez por isso estas memórias tenham ainda mais peso. Havia uma inocência na forma como aprendíamos sobre conflitos — mediada por cromos, por desenhos, por histórias contadas à distância do tempo. Hoje, a realidade é mais crua, mais próxima, mais desconcertante.

            Colecionar nunca foi só juntar coisas. É uma forma de organizar o mundo, de o compreender aos poucos, peça a peça. É aprender sem dar por isso, é criar ligações, é dar valor ao detalhe. É, no fundo, crescer.

            E talvez seja isso que mais falta faz hoje. Parar um pouco, juntar as peças com calma, e tentar perceber o mundo, mesmo que comece com algo tão simples como um cromo. Talvez ainda vá a tempo de recuperar um pouco disso. Não os cromos perdidos, mas o espírito de quem colecionava sem pressa, com curiosidade e encantamento. Porque no meio de tanta pressa, de tanta informação e de um mundo cada vez mais distante do toque humano, talvez colecionar memórias, histórias ou pequenos objetos seja uma forma silenciosa de resistir e de nos lembrarmos de quem fomos… e de quem ainda podemos ser. 

            No fundo, aquelas coleções nunca foram apenas sobre completar séries ou encontrar o cromo raro. Eram sobre o tempo que investíamos nelas, sobre as histórias que imaginávamos a partir de cada imagem, sobre a forma como, sem darmos conta, dávamos significado a pequenos pedaços de papel. Hoje, num mundo onde tudo é imediato e descartável, talvez o verdadeiro valor esteja precisamente no contrário. No que guardamos, no que preservamos e no que escolhemos não esquecer. Porque, crescer não devia ser deixar para trás, mas sim saber levar connosco aquilo que nos fez.

1 comentário:

  1. Tantas boas recordações ao ler teu lindo texto. Quantos cromos para formar álbuns por nossa casa passaram... Tão bom recordar!Adorei! beijos, chica e um ótimo fim de semana!

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