Eleições Presidenciais - do entusiasmo de ontem
ao desencanto de hoje.
As eleições presidenciais
realizam-se já no próximo domingo e, como tantas vezes acontece em momentos
decisivos, dou por mim a viajar no tempo. Mais precisamente até 1986, ano em
que, ainda miúdo, vivi intensamente a loucura que foram aquelas eleições. Tão
diferentes das atuais que parecem pertencer a outro país.
Em 1986, os candidatos tinham
algo que hoje sinto faltar. O sentido de Estado. Homens e mulheres que,
concordando-se ou não com as suas ideias, demonstravam preparação, elevação e
respeito pelas instituições. O 25 de Abril ainda estava fresco na memória
coletiva e isso sentia-se em tudo. A democracia era jovem, preciosa, e a
população envolvia-se verdadeiramente nas discussões políticas.
Lembro-me bem de, em casa, se
acompanharem os debates na televisão quase como quem segue uma novela. Havia
expectativa, silêncio atento e comentários no fim. A política entrava na sala
sem gritos nem insultos, mas com argumentos. E não ficava por ali, até na
escola o tema era debatido entre miúdos, cada um a repetir o que tinha ouvido
em casa, tentando perceber o que era ser Presidente da República.
Eu e os meus amigos mal
ouvíamos ao longe os carros das caravanas, com os altifalantes a anunciar
palavras de ordem, corríamos para a beira da estrada. A esperança era sempre a
mesma, receber os famosos brindes. Os autocolantes eram os mais disputados e
acabavam colados em cadernos, mochilas ou na porta do quarto. Depois da
caravana passar ficávamos a cantarolar as músicas de campanha de cada
candidato. Para mim, a mais bonita e melodiosa de todas era, sem dúvida, a do
“Freitas do Amaral, para a frente, para a frente, Portugal”. Ainda hoje a
melodia me surge na cabeça com uma facilidade desconcertante. Até neste detalhe
se nota a diferença de nível. Há quarenta anos a cultura entrava naturalmente
nas campanhas, havia criatividade, identidade e mensagem.
Recordo os nomes que marcaram essas eleições e que hoje
soam a uma outra era da política nacional. Salgado Zenha, Maria de Lurdes Pintasilgo,
Mário Soares e Freitas do Amaral. Diferentes entre si, nas ideias e nos
percursos, mas unidos por algo raro nos dias de hoje. Conteúdo, firmeza,
determinação e uma visão clara do país. Eram candidatos que pensavam Portugal
para além do momento, que sabiam discursar sem slogans vazios e frases feitas.
Personalidades que conseguiam, verdadeiramente, entusiasmar os portugueses com
o seu carisma e com as suas ideias. O contraste com os candidatos atuais é
gritante. Falta-lhes substância, falta-lhes convicção e, sobretudo, falta-lhes
a capacidade de mobilizar e inspirar uma nação que parece cada vez mais
descrente da política.
Em vez de ideias, discute-se o
caráter. Em vez de projetos, dá-se prioridade à denúncia, alimenta-se a política
da suspeita e procura-se a descredibilização do adversário. A política
transformou-se num palco onde muitas vezes vence quem grita mais alto ou quem
melhor explora a polémica do momento. É tal a falta de categoria de alguns
candidatos que me arrisco a dizer que, apesar de todo o progresso, regredimos
no essencial.
Talvez seja apenas nostalgia de
quem foi criança numa democracia em construção. Ou talvez seja mesmo a
constatação de que, quando deixamos de exigir mais de quem nos representa,
acabamos por aceitar menos. No próximo domingo votaremos novamente. Eu vou
votar. E, ao fazê-lo, vou pensar naquele miúdo de 1986, de autocolante na mão,
a cantar músicas de campanha e vou continuar a acreditar que a política pode e
deve ser bem melhor do que isto que temos!
Concordo: memória e exigência moldam o presente.
ResponderEliminarVotar é renovar a promessa de melhoria.
Que a esperança não se apague.
O meu voto de emigrante é absolutamente irrelevante.
Mas não prescindo de votar 🗳️ numa esquerda moderada e moderna, no Consulado de Portugal em Düsseldorf.
Não acho que o seu voto seja "absolutamente irrelevante". Todos os votos contam. São a nossa voz.
EliminarTenhamos todos essa esperança e todos temos o dever de não deixar que se apague.
Um abraço.
Eis uma publicação diferente, mas inserida no objectivo deste blog; as recordações e a saudade.
ResponderEliminarDesde sempre - que nos foi facultado esse direito/dever - que nunca deixei de ir às urnas exercer o meu direito a votar.
Se voto bem ou mal, não sei, mas faço-o sempre de acordo com a minha consciência e nunca jamais, por interesses partidários.
No Domingo lá estarei e faço figas para que o meu eleito, seja eleito. :-)
Um abraço amigo.
Olá Janita. Só o facto de ir votar já o faz bem.
EliminarTambém nunca falhei com este meu dever/direito. Contudo, desta vez acho que só vou conseguir decidir no preciso momento de colocar a cruzinha. As razões prendem-se com com descrito na minha publicação.
Um abraço.
只好捱幾年等下一屆,總好過完全冇得選.
ResponderEliminar感谢您的评论,我完全理解。
Eliminar此致敬礼。
A campanha de 86 foi única, quiçá irrepetível.
ResponderEliminarMérito dos candidatos.
O melhor da Esquerda e o melhor da Direita, dizia Mário Soares.
Um abraço
Sem dúvida amigo Pedro.
EliminarEnquanto a mediocridade imperar na política Portuguesa certamente que uma campanha como a de 86 será irrepetível.
Um abraço.
Concordo plenamente com tudo o que escreveste; costumo dizer que já não se fazem líderes como antigamente, nem aqui, nem no resto do mundo. Perante os candidatos que temos, Rui, irei votar no " menos ruim "; não abdico do meu direito ao voto que tanto nos custou a conquistar e, faça chuva, faça sol, lá estarei.
ResponderEliminarAmigo, um abraço e até breve, Domingo já saberemos quem vai ocupar o mais alto cargo da nossa nação
Emília 🌻 🌻
Olá Emília. Também não vou abdicar do meu direito ao voto, apenas lamento que o leque de escolhas não seja muito apelativo. Também irei pelo "menos ruim"...
EliminarUm abraço.
Que texto maravilhoso!
ResponderEliminarCom o qual concordo totalmente e até, em partes, me identifico.
Recordo vagamente dessa eleição de 86. Mas consigo lembrar as sensações, a importância, a relevância. Lembro de pensar se seria desta que iamos ter uma presidente mulher.
Infelizmente não foi. E passados 40 e tal anos... ainda não foi.
Patriarquismo ou... apenas não existe uma candidata capaz?
Deixo aqui para reflecção.
Mas também tem outro aspecto que pode "mascarar" a nossa percepção desse início democrático. (12 anos após o 25 Abril). É que eramos crianças.
Talvez algum conteúdo mais egocentrista e menos útil também existisse nesses tempos.
Mas hoje em dia? E desde aqueles outdoors insultosos do PSD a respeito da "rosa murchou"... que já foi há décadas e tanto me insurgiu, porque, campanha atrás de campanha a abordagem era sempre atacar e difamar o partido de oposição ao invés de informar a população das capacidades e projetos do próprio partido - desde essa altura que notei o declínio. E quando a coisa fica tão suja, eu não quero mais fazer parte dela. Passo a repudiar.
Hoje entendo pouco de política. Não que alguma vez tivesse entendido. Há certos conhecimentos tão importantes que as escolas dão pouca relevância...
Quem hoje em dia sabe como funciona o parlamento? A menos que se estude política... Eu nunca estudei. Economia também. Pouco se ensina... lembro de aprender a preencher um cheque!
Ahah. Ainda existe isso?
Cheques?
Gostei do que aprendi mas foi básico e excluiu conceitos e perícias que teriam sido mais úteis na nossa vida.
Muito obrigado por este magnifico comentário. Tão completo que acabo por concordar com tudo.
EliminarÉ uma pena que a nossa democracia não evolua nesse sentido (eleição de mais mulheres) mas nem tudo é mau. Já na escola a disciplina de Cidadania que agora é lecionada é um bom caminho para que as nossas crianças sejam mais esclarecidas. Mas ai vai depender sempre do professor e das suas capacidades e principalmente da sua integridade.
Um abraço.
Temos de ter esperança no futuro. E sem dúvida este tem raiz no aprendizado, em particular o curricular. Agradeço. Abraço.
EliminarObrigado pela visita ao meu espaço, amigo e conterrâneo!
ResponderEliminarRetribuo a gentileza amigo barcelense.
EliminarBem explicado tudo em teu post. Parece queremos todos apenas verdadeiros polítiucos e não esses ue apenas gritam fazem acontecenm, prometem e ao final, vemos o que temos! Aff...
ResponderEliminarTudo de bom, gostei de tua visita e participação no blog! beijos,chica
Obrigado pela visita.
ResponderEliminarUm abraço.
Infelizmente hoje como disse e muito bem, a politica é uma palco, onde cada um tenta gritar mais alto do que os outros, todos prometem isto e aquilo e depois nada cumprem.
ResponderEliminarFui votar, é o meu dever e um direito que todos temos, mas sinceramente acho, que pouco muda e os principais problemas de ontem, são os mesmos de hoje e provavelmente serão os de amanhã ☹️😒
Um grande abraço
Uma grande verdade Maria.
EliminarParece que tudo regride em vez de evoluir.
Mas não percamos a esperança e façamos ouvir a nossa voz através do voto que continua a ser a única forma de igualdade entra as pessoas.
Um abraço.