13 janeiro 2026

 


Eleições Presidenciais - do entusiasmo de ontem ao desencanto de hoje.

 

            As eleições presidenciais realizam-se já no próximo domingo e, como tantas vezes acontece em momentos decisivos, dou por mim a viajar no tempo. Mais precisamente até 1986, ano em que, ainda miúdo, vivi intensamente a loucura que foram aquelas eleições. Tão diferentes das atuais que parecem pertencer a outro país.

            Em 1986, os candidatos tinham algo que hoje sinto faltar. O sentido de Estado. Homens e mulheres que, concordando-se ou não com as suas ideias, demonstravam preparação, elevação e respeito pelas instituições. O 25 de Abril ainda estava fresco na memória coletiva e isso sentia-se em tudo. A democracia era jovem, preciosa, e a população envolvia-se verdadeiramente nas discussões políticas.

            Lembro-me bem de, em casa, se acompanharem os debates na televisão quase como quem segue uma novela. Havia expectativa, silêncio atento e comentários no fim. A política entrava na sala sem gritos nem insultos, mas com argumentos. E não ficava por ali, até na escola o tema era debatido entre miúdos, cada um a repetir o que tinha ouvido em casa, tentando perceber o que era ser Presidente da República.

            Eu e os meus amigos mal ouvíamos ao longe os carros das caravanas, com os altifalantes a anunciar palavras de ordem, corríamos para a beira da estrada. A esperança era sempre a mesma, receber os famosos brindes. Os autocolantes eram os mais disputados e acabavam colados em cadernos, mochilas ou na porta do quarto. Depois da caravana passar ficávamos a cantarolar as músicas de campanha de cada candidato. Para mim, a mais bonita e melodiosa de todas era, sem dúvida, a do “Freitas do Amaral, para a frente, para a frente, Portugal”. Ainda hoje a melodia me surge na cabeça com uma facilidade desconcertante. Até neste detalhe se nota a diferença de nível. Há quarenta anos a cultura entrava naturalmente nas campanhas, havia criatividade, identidade e mensagem.

            Recordo os nomes que marcaram essas eleições e que hoje soam a uma outra era da política nacional. Salgado Zenha, Maria de Lurdes Pintasilgo, Mário Soares e Freitas do Amaral. Diferentes entre si, nas ideias e nos percursos, mas unidos por algo raro nos dias de hoje. Conteúdo, firmeza, determinação e uma visão clara do país. Eram candidatos que pensavam Portugal para além do momento, que sabiam discursar sem slogans vazios e frases feitas. Personalidades que conseguiam, verdadeiramente, entusiasmar os portugueses com o seu carisma e com as suas ideias. O contraste com os candidatos atuais é gritante. Falta-lhes substância, falta-lhes convicção e, sobretudo, falta-lhes a capacidade de mobilizar e inspirar uma nação que parece cada vez mais descrente da política.

            Em vez de ideias, discute-se o caráter. Em vez de projetos, dá-se prioridade à denúncia, alimenta-se a política da suspeita e procura-se a descredibilização do adversário. A política transformou-se num palco onde muitas vezes vence quem grita mais alto ou quem melhor explora a polémica do momento. É tal a falta de categoria de alguns candidatos que me arrisco a dizer que, apesar de todo o progresso, regredimos no essencial.

            Talvez seja apenas nostalgia de quem foi criança numa democracia em construção. Ou talvez seja mesmo a constatação de que, quando deixamos de exigir mais de quem nos representa, acabamos por aceitar menos. No próximo domingo votaremos novamente. Eu vou votar. E, ao fazê-lo, vou pensar naquele miúdo de 1986, de autocolante na mão, a cantar músicas de campanha e vou continuar a acreditar que a política pode e deve ser bem melhor do que isto que temos!


2 comentários:

  1. Concordo: memória e exigência moldam o presente.
    Votar é renovar a promessa de melhoria.
    Que a esperança não se apague.
    O meu voto de emigrante é absolutamente irrelevante.
    Mas não prescindo de votar 🗳️ numa esquerda moderada e moderna, no Consulado de Portugal em Düsseldorf.

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  2. Eis uma publicação diferente, mas inserida no objectivo deste blog; as recordações e a saudade.
    Desde sempre - que nos foi facultado esse direito/dever - que nunca deixei de ir às urnas exercer o meu direito a votar.
    Se voto bem ou mal, não sei, mas faço-o sempre de acordo com a minha consciência e nunca jamais, por interesses partidários.
    No Domingo lá estarei e faço figas para que o meu eleito, seja eleito. :-)
    Um abraço amigo.

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