Crescer offline.
Cresci num tempo, não muito distante, em que o mundo não cabia num bolso. Cabia na rua. As tardes eram longas, o relógio de ponteiros andava devagar e o maior perigo era a mãe chamar da janela quando o jogo ainda não tinha acabado. Não havia notificações, havia assobios. Não havia feeds, havia caminhos de terra, bolas improvisadas, calças rasgadas e joelhos esfolados.
Na altura
não sabíamos, mas estávamos a aprender coisas essenciais para a vida de hoje.
Aprendíamos
a esperar. Esperar que o amigo chegasse. Esperar a nossa vez. Esperar que o dia
seguinte trouxesse outra brincadeira. Hoje, num mundo onde tudo é imediato,
essa capacidade parece quase revolucionária.
Aprendíamos a estar presentes. Quando estávamos juntos, estávamos mesmo juntos. Olhos nos olhos. Palavra dita sem filtros. Discussões resolvidas ali, sem bloquear ninguém. A presença era simplesmente a única opção. As amizades não tinham “status”. Tinham histórias. Histórias reais, vividas e verdadeiras. Não se contavam em seguidores, mas em segredos partilhados, em gargalhadas que doíam na barriga, em silêncios compartilhados. Hoje vivemos conectados como nunca, mas muitas vezes desligados de nós próprios. Andamos cansados, ansiosos, a comparar vidas editadas, a medir valor em números invisíveis.
É aqui que a
memória entra, não como saudade triste, mas como bússola. Lembrar de onde vimos
pode ajudar-nos a escolher melhor para onde vamos. Talvez não possamos voltar a
crescer offline, mas podemos recuperar pedaços disso. Desligar um pouco,
escutar mais, desacelerar, estar verdadeiramente presentes.
Este blog
nasce disso, de memórias simples, sem filtros, que ainda têm algo a dizer num
mundo apressado. Porque, no meio de tanta tecnologia, talvez o mais moderno que
possamos fazer seja voltar ao essencial.
Aprendíamos a lidar com o tédio. E o tédio, ao contrário do que hoje se pensa, era fértil. Houve um tempo em que não fazer nada não era um problema. Era apenas o começo de alguma coisa. O tédio chegava devagar, sentava-se connosco no passeio e ficava. Não havia ecrãs para o espantar, nem planos para o preencher. E talvez por isso mesmo acabávamos por inventar mundos inteiros. Um pau virava espada. Uma tampa de garrafa virava um jogo. Uma rua vazia virava estádio, pista de corridas ou território inimigo. Não havia pressa. Havia imaginação.
Hoje, o tédio assusta-nos. É tratado como falha, como desperdício de tempo. Enchemo-lo à força com notificações, vídeos curtos, ruído constante. Não deixamos espaço para que algo surja sozinho. Mas o tédio ensinava-nos coisas importantes. Ensinava-nos a criar, sem pedir permissão. Ensinava-nos a escutar o silêncio, sem medo. Ensinava-nos a ficar connosco, sem distrações. Talvez por isso muitas das melhores ideias não nasciam quando estávamos ocupados, mas quando estávamos livres.
Hoje falamos
muito de produtividade, mas pouco de espaço. Espaço mental, emocional, criativo.
Sem ele, tudo se torna repetição. Voltar a permitir o tédio, nem que seja por
alguns minutos por dia, pode ser um pequeno ato de resistência. Deixar o
telemóvel de lado. Olhar pela janela. Caminhar sem destino. Pensar sem
urgência.
Talvez não
inventemos jogos de rua outra vez. Mas talvez reinventemos algo ainda mais
importante. A capacidade de estar inteiros. E isso, num mundo sempre ligado
como o de hoje, é uma forma silenciosa de liberdade.
A frase capta uma verdade simples e profunda: a integridade não depende de estímulos externos, mas da nossa capacidade de estar inteiros consigo próprios. Num mundo hiperconectado, essa autonomia interior funciona quase como uma forma de liberdade silenciosa — uma escolha diária de manter o equilíbrio, a calma e a coerência. E isso é, de facto, uma das maiores riquezas que podemos cultivar.
ResponderEliminarAbraço democrático e de confiança.
Cada vez mais necessitamos do nosso espaço sem interferência de nada vindo do exterior.
EliminarRetribuo o abraço democrático e sempre com a mesma confiança.
Adorei teu texto e com cereteza as crianças de hoje perdem muito. Há insegurança na rua, tantos problemas que aparecem mais e mais. Antes era a simplicidade. o jogo de bola com amigas, o piquenique das bonecas feito numa varanda qualquer... Era lindo! Adorei relembrar e te ler! beijos, lindo resto de semana, chica
ResponderEliminarOlá Chica. Muitas destas coisas temos plena noção que ficaram na nossa infância, mas temos cada vez mais de cultivar melhor o nosso tempo. Parar e estar connosco sem o ruido exterior faz muita falta.
EliminarUm abraço.
Nasci e cresci no mesmo tempo em que sequer sabíamos o que era isso de estarmos off ou online e fui feliz, tão feliz...!
ResponderEliminarAdoro os seus desenhos retratando o que descreve e os seus textos são sempre um bálsamo porque me revejo em cada situação em que retrata a sua meninice.
Grata por isso!
Grande abraço.
Olá Janita. Muito obrigado pelo seu comentário. Em memória desses tempos devíamos cultivar mais o "offline". Sentiríamos aquela leveza necessária para que a vida flua com mais sentido.
EliminarUm abraço.
Crescemos naquele tempo em que era quase proibido voltar para casa com luz natural na rua.
ResponderEliminarEstás mal disposto, perguntavam os pais.
Abraço
Bem verdade amigo Pedro. E agora essa mesma luz do dia, a tão famosa vitamina D, passou a ser receitada em forma de comprimidos!
EliminarUm abraço.
Meus filhos não conseguem imaginar simplesmente sair de casa. E quem podia sair de casa estava no parquinho.
ResponderEliminarAtenciosamente, e convido você a ver minha nova pintura :)
Obrigado pela sua visita.
EliminarVerdade. Eles não sabem a "liberdade" que os pais tiveram.
Um abraço.
Olá!
ResponderEliminar"A presença era simplesmente a única opção."
Muito diferente é ter presença... não basta só estar junto.
Um post desabado e com otima mensagem.
Tenha dias abençoados!
Abraços fratermos
Olá Rosélia.
EliminarMuito obrigado pelo seu comentário.
Um abraço.
R Correia, que texto gostoso de ler e propício à reflexão! Nos vemos no seu texto, nós, os "das antigas".
ResponderEliminarAdorei ler.
Muito obrigado Eduardo.
EliminarUm abraço.
Antes, ir à biblioteca era uma atividade presencial. Hoje, visito a biblioteca digital quase todos os dias e obtenho livros em segundos. Pesquisar não exige enciclopédias físicas. Complementar um curriculo é uma tarefa muito entusiasmante.
ResponderEliminarHoje quero apenas referir-me ao que de mais concreto e extraordinário existe.
Reconheço o valor "dos tempos antigos". :))
A Teresa preferiu olhar para o lado positivo do avanço tecnológico. E sim, é verdade que nos tornou a vida mais comoda. Mas será que tiramos o devido valor do digital? Será que ainda sobra tempo para nós? Cada vez mais é necessário colocarmo-nos um pouco "offline" para sentirmos a vida! Claro que é extraordinário poder ler livros pela via digital, mas nada se compara ao sentir o livro fisicamente.
EliminarUm abraço.
Bom dia! Também brinquei muito na rua com as outras crianças vizinhas. Só iamos para casa quando as nossas mães nos chamavam à tardinha (gosto muito desta palavra). Porém, os meus netos, como a grande maioria das crianças, já não o fazem, naturalmente. A realidade, hoje, é bem diferente. Numas coisas melhor, noutras pior.
ResponderEliminarAbraço
Obrigado pela visita e pelo comentário.
EliminarHá coisas que sinto falta, como estar "offline", outras nem por isso.
Um abraço.
Excelente , este seu texto.
ResponderEliminarPresentemente, as crianças estão a perder algo indispensável ao seu desenvolvimento : o relacionamento entre pares e tempo para si mesmas. Para cúmulo, o sistema educativo em todos os seus graus não trabalha , como eu defendo publicamente há muitos anos, a empatia e, pelo contrário o que se promove é a competição.
Alguns países já proíbem o acesso a redes sociais a menores, é uma boa prática.
Saudações.
Muito obrigado.
EliminarTemos que pensar em cultivar o hábito de "estar offline".
Um abraço.
Querido R. Correia,
ResponderEliminarSeu texto é um resgate afetivo e consciente daquilo que fomos para lembrar quem ainda podemos ser. Ele não idealiza o passado ele o utiliza como bússola, exatamente como você diz, para orientar escolhas mais humanas no presente.
A imagem do mundo que “não cabia num bolso, mas cabia na rua” é poderosa. Em poucas palavras, você revela a mudança de escala da experiência humana: antes vivida no corpo, no chão, no tempo lento; hoje comprimida em telas e urgências. E quando fala dos assobios substituindo notificações, dos joelhos esfolados no lugar dos feeds, cria uma poesia cotidiana que toca diretamente a memória emocional de quem lê.
Sua reflexão sobre a espera, a presença e o tédio é especialmente lúcida. Você mostra que aquilo que hoje é visto como atraso ou vazio era, na verdade, escola de humanidade: aprendíamos a criar, a conviver, a imaginar, a suportar o silêncio, a lidar com frustrações simples. Isso formava caráter, vínculos reais e uma relação mais saudável com o tempo.
Há uma verdade muito profunda quando você diz que estamos hiperconectados e, ao mesmo tempo, desconectados de nós mesmos. Essa frase ecoa forte, porque descreve com precisão o cansaço emocional contemporâneo. Seu texto não acusa ele convida. Convida a desligar um pouco, a desacelerar, a estar inteiro, não fragmentado.
E o encerramento é belíssimo: chamar essa reconexão com o essencial de “uma forma silenciosa de liberdade” é de uma sensibilidade rara. Porque não é uma revolução barulhenta, mas uma mudança íntima, diária, e justamente por isso tão poderosa.
Seu texto é atual e profundo. Ele não apenas lembra o passado ele planta consciência no presente.
Um abraço admirado e grato pela partilha,
Fernanda
Concordo com a qualificação
EliminarMesmo um resgate afetivo
Muito bem escrito 🙂
Muito obrigado pelo comentário!
EliminarUm abraço.
Também cresci neste mundo, nesta época.
ResponderEliminarMeus filhos já cresceram longe disso.
Não sou saudosista e até gosto, gosto muito, de tudo que o mundo moderno nos oferece.
Abraço,
O seu texto fez-me lembrar os invernos em casa do meu avô. Gostei imenso do que li.
ResponderEliminarUma boa semana.
Um beijo.
Os avanços da tecnologia - que aqui usamos para comunicar - vão ser a perdição da humanidade.
ResponderEliminarEu, que adoro-a desde pequena, ao passar nas montras das lojas e a ver os aparelhos que lá estavam e sonhava com coisas que passaram a ser possíveis mais tarde - ainda assim ou talvez por isso, temo que o progresso tecnológico acabe de vez com o genuíno. As próximas gerações já são de fast-food em termos de relacionamentos. Ninguém investe em nada. E depois queixam-se. Sentem-se sós. Mas à mínima contrariedade, viram as costas. É uma geração de consumo tecnológico rápido, de bloquear pessoas nas redes sociais.... faz-se o contrário do que a própria natureza humana deseja.