16 outubro 2026


O relógio do cavalinho.

            Há coisas que o tempo não leva. Ficam guardadas na memória, agarradas a uma casa, a uma voz ou a um som que, muitos anos depois, ainda somos capazes de ouvir dentro de nós. O relógio do cavalinho é uma dessas coisas. Na casa dos meus avós, uma casa antiga, daquelas de pedra e madeira, que ao longo dos anos acolheu uma família numerosa, havia um relógio de parede que todos conheciam por esse nome. Não era difícil perceber porquê! Lá no cimo, sobressaía a figura de um cavalinho, como se estivesse de sentinela, a tomar conta da casa e de todos quantos por lá passavam.

            O relógio estava colocado no fundo daquilo a que chamávamos a varanda. Mas não pensem numa varanda como as de hoje, aberta para o exterior. A nossa era um corredor largo e comprido, que atravessava a casa de uma ponta à outra. Por ali se cruzavam as pessoas, se davam recados, se trocavam dois dedos de conversa e se vivia o dia-a-dia de uma família minhota, onde quase nunca faltava gente nem assunto.

            O relógio tinha os seus cuidados. Uma vez por semana, era preciso dar-lhe corda, para que continuasse a cumprir a sua obrigação. E lá ficava ele, direito ao serviço, tocando aos quartos, às meias e às horas, sempre com uma melodia bonita, que se espalhava pela casa e se misturava com os ruídos próprios de uma casa cheia de vida. Era um som familiar, tão natural como ouvir alguém chamar da cozinha ou escutar os passos de quem atravessava o corredor.

            O meu avô estimava muito aquele relógio. Nunca cheguei a saber se era pelo seu valor, pela sua antiguidade ou por alguma história que o ligasse ao passado. Talvez nem ele soubesse explicar. Há coisas a que nos afeiçoamos sem precisar de grandes razões. Fazem parte da nossa vida, e isso basta.

            Com os anos, as forças começaram a faltar ao meu avô. Dar corda ao relógio passou então a ser tarefa de uma tia minha. Até que, num desses dias, aconteceu o que ninguém desejava. Numa das vezes em que a minha tia ia cumprir religiosamente a sua tarefa teve a infelicidade de, com um gesto mais brusco, fazer o cavalinho cair ao chão. A preciosidade desfez-se em mil pedaços.

            O meu avô ficou inconsolável. Quem o visse percebia logo que não se tratava apenas de uma peça partida. O relógio continuava no seu lugar, mas parecia que lhe tinham levado uma parte da alma. Já não era o mesmo. Faltava-lhe precisamente aquilo que lhe dava nome e que, durante tantos anos, tinha feito parte da paisagem daquela casa.

            Ao ver a tristeza do meu avô, achei que não podia ficar de braços cruzados. Juntei os pedaços que consegui encontrar e colei-os como pude, tentando aproveitar o que restava para fazer um molde. Depois, arranjei um pedaço de madeira e comecei a trabalhá-lo, procurando reproduzir o cavalinho o melhor que sabia.

            Não era tarefa fácil. A madeira tem as suas manhas e nem sempre obedece à primeira vontade. Mas fui trabalhando, acertando aqui, corrigindo acolá, até conseguir uma figura que se aproximava bastante da original. E foi assim que o cavalinho voltou ao seu lugar.

            Quando o meu avô viu o resultado, ficou imensamente feliz. Mas, para além da alegria de voltar a ter o seu relógio completo, ficou também admirado por ver que o neto gostava de trabalhar a madeira e tinha jeito para aquilo. Afinal, ele próprio tinha sido um bom carpinteiro. Talvez tenha sentido, naquele momento, que havia qualquer coisa dele que continuava viva nas minhas mãos.

            Hoje, quando olho para este relógio, não vejo apenas madeira envelhecida, ponteiros e uma figura esculpida no cimo. Vejo a casa dos meus avós, o corredor comprido, a família que por ali passou e a melodia que marcava as horas. Vejo também a tristeza do meu avô quando perdeu o cavalinho e a alegria que senti por lhe conseguir devolver um pouco daquilo que tanto estimava.

            O cavalinho que hoje vemos já não é o original. É uma réplica feita por mim, com as minhas mãos e com a vontade de ver o meu avô feliz. E, pensando bem, se calhar o relógio nunca teve grande valor por aquilo que custava ou pela sua antiguidade. O seu verdadeiro valor estava na história que carregava e no carinho de quem o guardava.

            Porque, nas casas antigas do nosso Minho, havia muita coisa simples que valia mais do que parecia. E, às vezes, bastava um relógio a tocar as horas e um neto disposto a trabalhar um pedaço de madeira para se perceber que há heranças que não precisam de escritura nem de testamento. Passam de avós para netos, no silêncio dos gestos, na memória e no gosto de fazer com as próprias mãos.

            O meu avô deixou-me muitas recordações. Mas talvez uma das mais bonitas seja a de ter conseguido pôr de novo um sorriso no rosto de quem, muito antes de mim, me ensinou, talvez mesmo sem o saber, que o valor das coisas está também no amor que lhes dedicamos.


 

1 comentário:

  1. Muito bonito o relógio e muito comovente a história contada.
    Da casa dos meus avós maternos trouxe o som do tic-tac e das badaladas das horas que tocava de noite e de dia, mas também fiquei com esse relógio que já não dá horas, mas como o do cavalinho traz-me boas lembranças.

    Abraço

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