30 outubro 2026


As vozes que o tempo levou.

            Por estes dias, quando o calendário nos aproxima do Dia de Todos os Santos e do Dia de Finados ou dos Fieis Defuntos, há memórias que me chegam de outros tempos. Não são propriamente recordações minhas, daquelas que guardamos por termos vivido, mas histórias que ouvi contar aos meus pais e aos meus avós, histórias de uma tradição antiga que, nas aldeias do Minho, fazia parte da noite escura desta altura do ano. Era o “Cantar às Almas” ou “Encomendação das Almas”.

            Contavam-me que, na noite de Finados, quando o sol já se tinha escondido e as aldeias mergulhavam naquele silêncio próprio das noites de outono, havia quem saísse à rua para cantar às almas. Grupos de pessoas percorriam os caminhos, muitas vezes em redor da igreja ou pelas ruas da aldeia, entoando cânticos religiosos, em jeito de oração e homenagem aos que já tinham partido. Eram cantos sentidos, por vezes acompanhados pelo toque de uma campainha, que ecoavam na escuridão e entravam pelas casas dentro.

            Não era uma brincadeira, nem uma festa. Era uma tradição de respeito, de fé e de memória. Uma forma de lembrar aqueles que já cá não estavam, de rezar pelas suas almas e de manter viva a ligação entre os vivos e os mortos. Naquela noite, as portas e as janelas ouviam-se mais do que se viam, e quem escutava aqueles cânticos sabia bem ao que vinham. Era o povo a cumprir um costume antigo, passado de geração em geração.

            Hoje, pergunto-me quantos ainda se lembram desta tradição. Quantas aldeias continuam a ouvir o Cantar às Almas? Quantos dos mais novos sabem sequer que existiu? Provavelmente, poucos, muito poucos Como tantas outras coisas do nosso património popular, também esta foi ficando pelo caminho, vencida pelo passar dos anos, pelo desaparecimento dos costumes e pela mudança dos tempos.

            E é curioso que, precisamente nesta altura do ano, tenhamos assistido ao crescimento de uma outra tradição, que nos chegou de fora e que hoje parece ter conquistado o seu lugar entre nós. O Halloween.

            Há ainda uma diferença de origem que importa recordar. O Cantar às Almas é uma tradição de raiz cristã, profundamente ligada à fé católica, à oração pelos defuntos e à crença de que, nesta noite, os vivos devem lembrar aqueles que já partiram. Já o Halloween tem raízes em antigos rituais pagãos, associados às celebrações celtas do Samhain, que assinalavam o fim das colheitas e a passagem para a estação escura do ano, numa época em que se acreditava que o mundo dos vivos e o dos mortos se aproximavam. Duas tradições com origens e significados distintos, mas que hoje se cruzam na mesma altura do calendário. Uma nasceu da fé e da memória dos nossos antepassados, a outra chegou-nos de outras culturas e acabou por conquistar as ruas, as escolas e o imaginário das novas gerações.

            De repente, as abóboras iluminadas, as bruxas, os fantasmas, as máscaras e o famoso «doçura ou travessura» tomaram conta das montras, das escolas, das festas e das redes sociais. As crianças divertem-se, vestem-se a rigor e percorrem as ruas à procura de guloseimas. Nada tenho contra isso. Afinal, cada geração tem as suas brincadeiras e não há mal nenhum em acolher costumes de outras culturas.

            Mas não deixa de me causar alguma tristeza este contraste. Uma tradição nossa, profundamente ligada à identidade das aldeias minhotas, desapareceu quase sem darmos conta. Outra, importada, encontrou espaço, ganhou força e hoje é celebrada com um entusiasmo que raramente dedicamos àquilo que era nosso.

            Não se trata de escolher entre uma e outra, nem de olhar com desconfiança para o que vem de fora. Trata-se, isso sim, de não deixarmos morrer aquilo que nos pertence. Porque uma abóbora iluminada pode ser engraçada, uma máscara pode fazer a alegria de uma criança, mas há muito mais história escondida num cântico entoado numa noite fria de Finados, à porta de uma casa de aldeia.

            Talvez esteja na altura de voltarmos a perguntar aos nossos pais e avós como eram essas noites, quem cantava, que palavras se diziam e que caminhos se percorriam. Antes que essas histórias desapareçam também, levando consigo mais um pedaço da nossa memória coletiva.

            Porque as tradições não têm de ficar presas ao passado, mas também não devem ser esquecidas só porque os tempos mudaram. E, por cá, no Minho, entre tantas bruxas e abóboras que hoje iluminam as ruas, talvez ainda houvesse espaço para ouvir, uma vez mais, o velho Cantar às Almas.

            Afinal, também as nossas noites tinham histórias para contar.


 

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