A Caixa de Sortido do Cavalinho
Hoje, durante a pausa da manhã no trabalho, aconteceu uma daquelas coisas simples que nos transportam para longe sem precisarmos de sair do lugar.
Um dos meus colegas estava a comer umas bolachas. Nada de extraordinário, à primeira vista. Mas bastou olhar para elas para que uma porta se abrisse na minha memória. De repente, já não estava na sala de convívio da empresa. Estava de volta à minha infância.
Lembrei-me imediatamente do meu avô.
O meu avô tinha sempre uma caixa de sortido que guardava para os netos. Era quase uma tradição sagrada das tardes de domingo. Nessa altura, eu ainda vivia em casa dele e, como era habitual, os meus primos apareciam para a visita semanal. Eram muitos. A casa enchia-se de vozes, gargalhadas e da energia inesgotável que só as crianças conseguem trazer.
Primeiro, reuníamo-nos em frente à televisão. Era uma televisão a preto e branco, sem comando, bem diferente das que hoje ocupam as nossas salas. Ali assistíamos aos desenhos animados da Disney, completamente fascinados por um mundo que, embora sem cor no ecrã, era colorido na nossa imaginação.
Depois vinham as brincadeiras. Corríamos pelo quintal, inventávamos aventuras, discutíamos regras que ninguém cumpria e fazíamos as pazes minutos depois. As tardes pareciam intermináveis.
Mas havia um momento que todos aguardávamos. Quando a hora da despedida se aproximava, surgia o meu avô.
Nas mãos trazia a famosa caixa de sortido. Ainda hoje a consigo ver com uma nitidez impressionante. Era uma caixa vermelha, decorada com uma pintura que representava uma cena de caça, com cavalos, cavaleiros e cães. Talvez fosse apenas uma embalagem comum para os adultos, mas para nós tinha algo de mágico. Era a caixa das bolachas do cavalinho como nós lhe chamávamos.
A tampa abria-se e revelava um pequeno tesouro. Bolachas de todas as formas e sabores. Cada um escolhia a sua favorita, enquanto o avô se certificava de que ninguém ficava sem a sua parte. Não era apenas a distribuição das bolachas. Era um gesto de carinho. Uma forma simples de nos fazer sentir especiais.
Curiosamente, não me recordo do sabor exato de muitas dessas bolachas. O que ficou guardado foi algo muito mais importante. A imagem do meu avô, o convívio dos primos, as tardes de domingo e a felicidade genuína daqueles momentos.
É estranho como a memória funciona. Às vezes, anos e anos de vida ficam adormecidos num canto qualquer da nossa mente. Depois basta uma simples bolacha, numa pausa de trabalho, para trazer tudo de volta.
Enquanto o meu colega terminava as suas bolachas, eu regressava devagar ao presente. Sorri para mim mesmo. Há memórias que não precisam de fotografias para sobreviver. Basta o sabor de uma bolacha para que voltem a abrir-se, como a tampa daquela velha caixa vermelha nas tardes de domingo da minha infância.

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