10 abril 2026

Dois Homens, Uma Guerra. Memórias da minha Aldeia.

 

            Há imagens que não são apenas retratos, são janelas abertas para um tempo de incerteza, coragem e silêncio. Esta fotografia guarda dois rostos da minha aldeia. Uma aldeia minhota que quando rebentou a I Guerra Mundial contava pouco mais de quatrocentas pessoas. Dois homens simples que a História convocou para um dos seus capítulos mais duros e cruéis. Manuel Valério Enes e António Joaquim Oliveira foram os únicos homens da aldeia de Creixomil a quem lhes calhou tal sorte.

            Partiram como tantos outros, vindos de famílias humildes, onde a vida se fazia de trabalho árduo e poucas certezas. Quando foram chamados à guerra, pouco sabiam do que os esperava. A I Guerra Mundial era ainda um eco distante, uma realidade difícil de compreender para quem nunca tinha saído do seu pequeno mundo. Mas o dever falou mais alto, e seguiram caminho.

            Foi na longínqua e dura Batalha de La Lys que enfrentaram o verdadeiro peso da guerra. Entre o frio, a lama, o medo constante e o estrondo das armas, viveram dias que dificilmente cabem em palavras. A guerra não era feita apenas de combates. Era feita de espera, de saudade, de noites sem descanso e da permanente incerteza do amanhã.

            Quando os nossos governantes celebram com bonitos discursos o Dia do Combatente, quando evocamos mais um aniversário desse momento trágico da nossa História, devemos lembrar não apenas o conflito, mas os homens que nele participaram. Assim o faço em relação aos meus conterrâneos Manuel Valério Enes e António Joaquim Oliveira que lá estiveram. Foram combatentes numa batalha que marcou profundamente a presença portuguesa na guerra e deixou cicatrizes em toda uma geração.

            Mas, no meio de tanta perda, a sua história traz também um raro alívio. Ambos regressaram a casa "sãos e salvos". Voltaram às suas raízes, às suas famílias, à vida que tinham deixado para trás. Ainda que, certamente, nunca mais fossem os mesmos. Trouxeram consigo memórias que o tempo não apaga, mas também a prova de uma resistência silenciosa que merece ser lembrada.

            Hoje, ao olharmos esta fotografia, não vemos apenas dois soldados. Vemos dois homens da minha terra, testemunhas de um tempo difícil, cuja coragem discreta continua a ecoar entre nós.

            Que a sua memória perdure, não apenas como parte da História, mas como parte de quem somos.

            E ao olharmos para o mundo de hoje, onde tantas vezes a guerra volta a ocupar o espaço das conversas como se fosse algo distante ou inevitável, importa lembrar que por trás de cada conflito existem vidas reais, sonhos interrompidos e histórias como as de Manuel e António. Que a memória do que viveram nos ajude a valorizar a paz que tantas vezes tomamos por garantida e a reconhecer que aquilo que hoje parece apenas notícia foi, para eles e para tantos outros, uma dura e incontornável realidade.


 

14 comentários:

  1. Excelente trabalho de averiguação junto dos familiares desses dois combatentes. A região da Flandres foi palco de uma dolorosa e dura batalha, e quantos jovens portugueses por lá deixaram a vida?!

    Ao ler tudo isto, quase conseguimos visualizar, como se estivessemos a ver um filme, de tão bem descrita esta narrativa está.
    Parabéns pelo seu poder descritivo, com tanta alma e sentimento, Rui.
    Obrigada!
    Um abraço comovido.

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    1. Muito obrigado amiga Janita. Este meu espaço tem por objetivo espalhar as minhas memórias e sempre que possível homenagear aqueles que me antecederam e que de alguma forma também fazem parte das minhas raízes.
      Um abraço.

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  2. É verdade, quando vejo aquela malta toda a olhar para o memorial em Belém, onde constam os nomes de todos os caídos na Guerra Colonial, divido o povo em dois grupos, os que lá andaram e os que nasceram após o 25 de Abril que não conseguem imaginar o que aquilo foi!

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    1. Concordo consigo amigo Tintinaine. Pertenço ao seu segundo grupo, não consigo sequer imaginar o que terão passado estes meus conterrâneos na I Guerra Mundial ou o meu pai e a sua geração no ultramar. Mas tenho o maior respeito por todos aqueles que um dia foram obrigados a lutar uma guerra que não era a deles!

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  3. Comovi-me muito com esta narrativa tão verdadeira levou-me à guerra que vivi em Angola! Morava perto do quartel militar e respectivo hospital onde eu e o meu grupo faziamos voluntariado! As homenagens não me dizem nada porque muitos dos aprumadinhos nunca foram à guerra! Hoje por todo o mundo há guerras com fanáticos!
    Beijos e um bom sábado

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    1. O brigado amiga Fatyly. a melhor homenagem que se poderia fazer a todos quantos padeceram nas atrocidades da guerra era tudo fazer para que nenhuma nunca mais se repetisse!
      Um abraço.

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  4. O Rui tocou no ponto central: a humanização da história.
    Muitas vezes, a geopolítica e as estatísticas de guerra transformam tragédias em números abstractos ou peças de um tabuleiro, fazendo-nos esquecer que o "soldado" ou a "vítima" tinham nomes, famílias e planos para o futuro. Manuel e António deixam de ser personagens de um passado distante para se tornarem lembranças vivas de que a paz não é o estado natural das coisas, mas uma construção activa e frágil. Valorizar a memória é, no fundo, um acto de resistência contra a indiferença. É entender que a paz que desfrutamos hoje foi paga com o sacrifício de gerações que viram os seus sonhos interrompidos.

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    1. Penso muitas vezes nestes dois homens porque conheço muito bem as suas famílias. Estes tiveram a sorte de regressar e seguir suas vidas, mas caso algo tivesse corrido pelo pior a algum deles e dezenas de pessoas não teriam sequer existido. algumas bem próximas. Dá que pensar!
      Um abraço amiga Teresa e boa semana.

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  5. Essa Guerra teve tremendas consequências em Portugal – focando apenas no nosso país neste momento.
    “Cerca de 8.000 soldados morreram, 6.000 desapareceram e 7.000 foram feitos prisioneiros, gerando uma crise social e familiar.”
    Esses dois homens corajosos tiveram muita sorte.

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    1. Foi uma guerra terrível para o nosso pais. Como qualquer guerra deixou marcas, e uma geração muito afetada pelas suas atrocidades. Estes meus conterrâneos tiveram a sorte de poder seguir seus destinos.
      Um abraço.

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  6. Conheço bastantes antigos combatentes no Ultramar.
    E as memórias estão lá bem vivas.
    Marcas para o resto da vida.
    Um abraço

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  7. Las guerras nunca traen nada bueno. Muy bien descrito.
    Un saludo, R Correia.
    Espero que tengas un buen día.

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  8. Muchas gracias por tus palabras, Marisa.
    Me alegra que el mensaje haya sido claro y que haya conectado contigo.
    Ojalá algún día aprendamos lo suficiente como para evitar repetir los mismos errores.

    Un saludo y que tengas también un buen día.

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