20 abril 2026


O reencontro com os meus velhos Amigos.

            Há encontros que não se planeiam, simplesmente acontecem, como se o tempo decidisse, por um instante, dobrar-se sobre si próprio. Reencontros que parecem marcados pelo destino. Como aquele café adiado durante décadas que finalmente acontece. Este fim-de-semana vivi um desses momentos. Dei de caras com eles, os meus velhos companheiros de aventuras, que já não via há quase 40 anos. Voltei a encontrar os meus amigos, companheiros de tantas histórias. Alguns iam comigo para a escola sem ninguém saber. Eram amigos daqueles que fizeram parte de quem eu fui e, de certa forma, de quem ainda sou.

            No fundo de uma velha gaveta, escondidos por velhos trapos ali estavam eles à minha frente, como se nunca tivessem partido. Iguais. Intactos. Como se o tempo tivesse decidido não lhes tocar. E, por um instante, também eu deixei de sentir o peso dos anos.

            Com eles vivi batalhas épicas, histórias sem fim, mundos inventados onde tudo era possível. Eram os meus “índios e cowboys”, protagonistas de tardes intermináveis passadas no quintal dos meus avós, onde cada árvore era um forte, cada rego de água um rio imenso, e cada canto escondia um novo desafio.

            Lembro-me de como chegaram até mim. Alguns trazidos pelo meu pai, diretamente de França, carregados não só na mala, mas também no esforço de uma vida de emigrante. Outros vinham das mãos das minhas tias, nas quintas-feiras de feira em Barcelos, quando o dia corria bem e havia espaço para um mimo. Pequenos gestos que, na altura, pareciam simples mas que hoje percebo serem enormes.

            E depois havia o Nuno. O meu primo, o meu parceiro de brincadeiras, o estratega das nossas campanhas. Juntos, transformávamos o mundo à nossa volta em cenários dignos das maiores aventuras. Construíamos barcos improvisados no banco de carpinteiro do meu avô, atravessávamos “rios”, conquistávamos territórios imaginários. Éramos invencíveis, ou pelo menos acreditávamos que sim.

            Reencontrá-los agora foi como abrir uma porta esquecida dentro de mim. Trouxeram consigo não apenas memórias, mas sensações. O cheiro da terra, o som da água, o riso despreocupado de quem ainda não sabia o que era o tempo.

            E talvez seja isso o mais bonito. Perceber que há coisas que não envelhecem. Que ficam guardadas, intactas, à espera de serem redescobertas.

            Tal como estes meus velhos amigos.

 

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