O reencontro com os meus velhos Amigos.
Há encontros que não se
planeiam, simplesmente acontecem, como se o tempo decidisse, por um instante,
dobrar-se sobre si próprio. Reencontros que parecem marcados pelo destino. Como
aquele café adiado durante décadas que finalmente acontece. Este fim-de-semana
vivi um desses momentos. Dei de caras com eles, os meus velhos companheiros de
aventuras, que já não via há quase 40 anos. Voltei a encontrar os meus amigos,
companheiros de tantas histórias. Alguns iam comigo para a escola sem ninguém
saber. Eram amigos daqueles que fizeram parte de quem eu fui e, de certa forma,
de quem ainda sou.
No fundo de uma velha gaveta,
escondidos por velhos trapos ali estavam eles à minha frente, como se nunca
tivessem partido. Iguais. Intactos. Como se o tempo tivesse decidido não lhes
tocar. E, por um instante, também eu deixei de sentir o peso dos anos.
Com
eles vivi batalhas épicas, histórias sem fim, mundos inventados onde tudo era
possível. Eram os meus “índios e cowboys”, protagonistas de tardes
intermináveis passadas no quintal dos meus avós, onde cada árvore era um forte,
cada rego de água um rio imenso, e cada canto escondia um novo desafio.
Lembro-me
de como chegaram até mim. Alguns trazidos pelo meu pai, diretamente de França,
carregados não só na mala, mas também no esforço de uma vida de emigrante.
Outros vinham das mãos das minhas tias, nas quintas-feiras de feira em
Barcelos, quando o dia corria bem e havia espaço para um mimo. Pequenos gestos
que, na altura, pareciam simples mas que hoje percebo serem enormes.
E
depois havia o Nuno. O meu primo, o meu parceiro de brincadeiras, o estratega
das nossas campanhas. Juntos, transformávamos o mundo à nossa volta em cenários
dignos das maiores aventuras. Construíamos barcos improvisados no banco de
carpinteiro do meu avô, atravessávamos “rios”, conquistávamos territórios imaginários.
Éramos invencíveis, ou pelo menos acreditávamos que sim.
Reencontrá-los
agora foi como abrir uma porta esquecida dentro de mim. Trouxeram consigo não
apenas memórias, mas sensações. O cheiro da terra, o som da água, o riso
despreocupado de quem ainda não sabia o que era o tempo.
E
talvez seja isso o mais bonito. Perceber que há coisas que não envelhecem. Que
ficam guardadas, intactas, à espera de serem redescobertas.
Tal como estes meus velhos amigos.

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