14 fevereiro 2026


 

Namorados de outros tempos.


             Sou oriundo de uma família tipicamente minhota, como quase todas as da minha aldeia. Profundamente religiosa, fiel aos costumes e às tradições que marcavam o ritmo dos dias, das semanas e da vida inteira. A fé não se vivia apenas na igreja, estendia-se aos comportamentos, às relações e, muito especialmente, aos namoros.

            No dia dos namorados que hoje celebramos fala-se muito de flores, jantares, escapadelas a dois, mensagens bonitas e palavras ditas em surdina. Mas o amor nem sempre teve essa liberdade. Houve tempos em que se sentavam em silêncio sobre pedras frias, vigiados por olhos atentos e regras não escritas.

            A propósito desta celebração vou agora fazer uma breve viagem aos tempos da minha infância, quando os meus padrinhos de batismo ainda namoravam. Ele, irmão mais novo do meu pai. Ela, irmã mais nova da minha mãe. Duas famílias bastante numerosas e oriundas da mesma aldeia. O cenário era quase sempre o mesmo. As pedras do muro junto à casa dos meus avós, aquelas pedras salientes a que toda a gente chamava, com um misto de ternura e cumplicidade, de pedras namoradeiras. Exatamente as que se veem na foto. Não eram escolhidas ao acaso. Tinham a altura certa, o apoio certo e talvez a discrição possível para aquele tempo. Mas também bem visíveis a qualquer das janelas lá de casa!

            Eu era ainda muito menino e, sem perceber bem porquê, era colocado ali, aos pés deles, a brincar. As minhas tias mais velhas pediam-me que ficasse por perto. Hoje entendo melhor. Eu era, sem o saber, uma espécie de polícia daquele namoro. Um pequeno guardião da moral e dos bons costumes, ali posto não por maldade, mas por receio do que se dizia, do que se pensava, do que podia parecer.

            Agora, olhando para trás, percebo a tentativa constante de controlo dos mais velhos sobre os pares de namorados. A falta de liberdade que tinham, comparada com os dias de hoje, impressiona. O namoro tinha hora marcada, lugar definido e regras silenciosas. Tudo pelo bem da moral e dos bons costumes, e acima de tudo para não cair na desgraça das más línguas. No caso dos meus padrinhos, o horário era sempre o mesmo. Ao domingo à tarde, depois da hora do terço, que toda a família assistia “religiosamente”. Antes não, muito depois nem pensar. Era mal visto. Ao entardecer as filhas do senhor meu avô, e eram muitas, tinham que estar “debaixo da telha”.

            Mas o meu padrinho também tinha a sua esperteza. Dentro do tempo autorizado, escolhia a hora exata em que os vizinhos vinham regar as águas de uma poça ali perto. O rego passava mesmo junto ao muro escolhido. E com o barulho da água a correr, tornava-se quase impossível alguém ouvir o que diziam um ao outro. Palavras protegidas pelo som da água, confidências ditas à pressa, talvez sonhos sussurrados.

            Hoje, no Dia dos Namorados, lembro-me dessas pedras, desse muro e desse silêncio vigiado. E penso que o amor, mesmo quando apertado pelas regras ou pelas circunstancias, encontra sempre uma forma de dizer – “Amo-te” - nem que seja ao som de água a correr.



19 comentários:

  1. Mesmo com todos esses cuidados e essa vigilância, havia sempre crianças que “nasciam antes do tempo”.
    Dizia a minha mãe que ela e as irmãs namoravam à janela. A minha avó ficava ao fundo da sala, as raparigas dentro de casa e os namorados na rua em frente da dita janela.
    Quando se ouvia a minha avó a tossir era sinal de que o “encontro” chegara ao fim naquele dia.
    O namoro evoluiu muito desde então. : )

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    1. Outros tempos. Antigamente a taxa de sobrevivência bebés prematuros era praticamente de 100%.
      Um abraço.

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  2. Também vivi esse tempo do namoro vigiado e tudo mais...Ainda bem,a criatividade nos permitia dar um jeitinho de tudo issi driblar e ter lindos momentos ... Tão lindo! Feliz dia dos namorados! beijos, chica

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    1. Bem verdade amiga Chica. A criatividade antigamente andava muito em alta:)
      Um abraço.

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  3. Os tempos mudam. A forma de namorar também
    .
    Fim de semana muito feliz
    .

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  4. Antigamente, o namoro era marcado por convenções sociais rigorosas e por um maior distanciamento físico.
    O fruto proibido era o mais apetecível, e muitos bebés nasciam fora do casamento. E nem sempre havia casamento.
    Felizmente, eu e as minhas filhas não vivemos nesse período.

    Saudações carnavalescas de Düsseldorf 🤡

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    1. A rigidez na educação era muito forte.
      Mas acho que o medo de cair nas más línguas e do comentário dos outros era ainda maior.
      Um abraço.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Esse tempo não é do meu tempo. Se bem que não fosse moça namoradeira, tive algumas paixonetas, mas ai de quem se atrevesse a tentar pôr-me a mão. Foram namoros que não requeriam cuidados a ninguém...Infelizmente, no coração ninguém manda e, hoje, lamento profundamente não ter correspondido ao amor do rapaz que verdadeiramente me amou.

    Um abraço triste

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    1. O tempo passa, mas certos sentimentos ficam connosco para sempre. As escolhas que fizemos foram as possíveis naquele momento, com o coração e a coragem que tínhamos. Que essa memória também possa ser, acima de tudo, uma lembrança terna.
      Um abraço de conforto bem apertado.

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  7. Gostei de ler este teu espaço e sobretudo mostras o antes e depois deste país
    Desde miúda gostava mais de brincar e conviver com os rapazes do que com raparigas que só arranjavam querelas por tudo e por nada!
    Nada de namoros e haviam três que competiam! era uma criança que detestava vestidos só calções e sapatos nem velos e defensora acérima dos mais novos!

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    1. Muito obrigado pelo comentário.
      Era então uma "maria rapaz" como era costume dizer-se.
      Um abraço.

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  8. Tem toda a razão o amor encontra sempre forma de se expressar.
    Eram realmente outros tempos, muita vigilância e controle, mas não era isso que evitava gravidezes antes do casamento 😄 conheço alguns casos em que isso aconteceu.
    Adoro ler as suas crónicas do passado.
    Um grande abraço

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    1. É bem verdade Maria. Já naquele tempo nasciam muitos "bebés prematuros"...:)
      Muito obrigado pelo comentário.
      Um abraço.

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