02 outubro 2026


Uma paixão pintada na parede.

            Há memórias que não precisam de fotografias para sobreviver. Basta olhar para uma parede. Esta pintura é uma dessas memórias.

            Foi feita por mim há muitos anos, ainda na minha juventude, numa altura em que eu era um dos muitos apaixonados pela Fórmula 1. Naqueles tempos, a Fórmula 1 tinha um encanto especial. Havia uma geração inteira de jovens que vibrava com as corridas e que tinha em Ayrton Senna um verdadeiro ídolo. Para muitos, era quase um herói vindo de outro mundo, daqueles que pareciam capazes de fazer coisas que os simples mortais não conseguiam. Eu também vivia essa paixão. Mas havia outra coisa que me despertava uma atenção especial. Era Pedro Lamy.

            Ver um português a chegar àquele mundo da Fórmula 1, uma modalidade que eu via como um universo de elites e de grandes campeões, parecia-me quase sobrenatural. Era alguém de cá, alguém que levava o nome de Portugal para um lugar onde eu nunca imaginara ver um português. E isso, para um jovem apaixonado por automobilismo, tinha um significado enorme.

            Não falhava um Grande Prémio. Estava sempre colado ao ecrã, a acompanhar em direto todo aquele espetáculo, entre o rugido dos motores, as ultrapassagens e a emoção de cada curva, sempre a torcer pelos meus dois heróis. Mas havia ali também algo maior do que a paixão pela Fórmula 1. Havia o orgulho de ver um português lá fora, entre os melhores, a levar consigo o nome de Portugal. Nós, portugueses, temos uma forma muito própria de olhar para quem nos representa. Quando alguém veste, leva ou simplesmente carrega as nossas cores por esse mundo fora, sentimos que, de alguma maneira, também vai um pouco de nós. E naquela altura, ver Pedro Lamy alinhar num Grande Prémio era precisamente isso. Era sentir que Portugal também estava naquela grelha de partida.

            Foi talvez por isso que um dia me passou pela cabeça fazer uma pintura na parede da garagem. Não era propriamente um artista, nem tinha a certeza de que aquilo iria ficar como eu imaginava. Tinha apenas vontade de tentar. Primeiro, claro, veio a parte mais difícil, que era obter a autorização dos meus pais para aquela maluqueira. Ainda hoje me lembro de alguma surpresa quando me disseram que sim. Afinal, não era propriamente uma pequena experiência num papel. Era uma parede. E uma vez começada, não havia muito espaço para arrependimentos.

            Peguei nos pincéis, nas tintas e na coragem de quem, naquela idade, acha que consegue fazer quase tudo. Aos poucos, o desenho foi ganhando forma. Um carro de Fórmula 1, o piloto, a bandeira de xadrez e as letras que completavam aquela pequena homenagem ao piloto português.

            Não sei se, hoje, teria coragem de fazer o mesmo. Provavelmente não. Também não sei se naquela altura tinha verdadeira noção de como iria ficar quando começasse a pintar. Mas lá fui conseguindo. Entre pinceladas mais certas e outras nem tanto, entre erros que provavelmente só eu conheço, nasceu aquela pintura que acabou por ficar muito mais tempo do que aquilo que alguma vez imaginei.

            Passaram-se anos. Muitos.

            Mudaram os carros, mudaram os pilotos, mudaram as tecnologias e mudou também a própria Fórmula 1 e desapareceu aquela paixão por este desporto. Ayrton Senna ficou para sempre ligado à memória daquela geração. Pedro Lamy seguiu o seu caminho e tornou-se parte da história portuguesa no automobilismo.

            E eu também mudei. Aquele jovem que um dia pegou num pincel já deixou há muito de ser o mesmo. Vieram outras responsabilidades, outros sonhos, outras preocupações e outras paixões. Mas há coisas que o tempo não consegue apagar completamente. Porque, apesar de tudo, a pintura continua lá.

            Na mesma parede da garagem, talvez já com as marcas dos anos, continua aquele carro vermelho e aquele piloto que pintei quando era jovem. E cada vez que olho para ela, não vejo apenas uma pintura. Vejo um pedaço de mim. Vejo o rapaz que gostava de Fórmula 1, que admirava Senna, que se orgulhava de ver um português entre os grandes e que teve a ousadia de transformar essa paixão numa parede pintada.

            Talvez a pintura não seja perfeita. Talvez hoje eu fizesse muitas coisas de maneira diferente. Mas isso pouco importa. Porque há trabalhos que valem não pela perfeição, mas pela história que carregam.

            E esta parede guarda uma das minhas.


 

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