Uma paixão pintada na parede.
Há memórias que não precisam de fotografias para sobreviver. Basta olhar para uma parede. Esta pintura é uma dessas memórias.
Foi feita
por mim há muitos anos, ainda na minha juventude, numa altura em que eu era um
dos muitos apaixonados pela Fórmula 1. Naqueles tempos, a Fórmula 1 tinha um
encanto especial. Havia uma geração inteira de jovens que vibrava com as
corridas e que tinha em Ayrton Senna um verdadeiro ídolo. Para muitos, era
quase um herói vindo de outro mundo, daqueles que pareciam capazes de fazer
coisas que os simples mortais não conseguiam. Eu também vivia essa paixão. Mas
havia outra coisa que me despertava uma atenção especial. Era Pedro Lamy.
Ver um
português a chegar àquele mundo da Fórmula 1, uma modalidade que eu via como um
universo de elites e de grandes campeões, parecia-me quase sobrenatural. Era
alguém de cá, alguém que levava o nome de Portugal para um lugar onde eu nunca
imaginara ver um português. E isso, para um jovem apaixonado por automobilismo,
tinha um significado enorme.
Não falhava
um Grande Prémio. Estava sempre colado ao ecrã, a acompanhar em direto todo
aquele espetáculo, entre o rugido dos motores, as ultrapassagens e a emoção de
cada curva, sempre a torcer pelos meus dois heróis. Mas havia ali também algo
maior do que a paixão pela Fórmula 1. Havia o orgulho de ver um português lá
fora, entre os melhores, a levar consigo o nome de Portugal. Nós, portugueses,
temos uma forma muito própria de olhar para quem nos representa. Quando alguém
veste, leva ou simplesmente carrega as nossas cores por esse mundo fora,
sentimos que, de alguma maneira, também vai um pouco de nós. E naquela altura,
ver Pedro Lamy alinhar num Grande Prémio era precisamente isso. Era sentir que
Portugal também estava naquela grelha de partida.
Foi talvez
por isso que um dia me passou pela cabeça fazer uma pintura na parede da
garagem. Não era propriamente um artista, nem tinha a certeza de que aquilo iria
ficar como eu imaginava. Tinha apenas vontade de tentar. Primeiro, claro, veio
a parte mais difícil, que era obter a autorização
dos meus pais para aquela maluqueira. Ainda hoje me lembro de alguma
surpresa quando me disseram que sim. Afinal, não era propriamente uma pequena
experiência num papel. Era uma parede. E uma vez começada, não havia muito
espaço para arrependimentos.
Peguei nos
pincéis, nas tintas e na coragem de quem, naquela idade, acha que consegue
fazer quase tudo. Aos poucos, o desenho foi ganhando forma. Um carro de Fórmula
1, o piloto, a bandeira de xadrez e as letras que completavam aquela pequena
homenagem ao piloto português.
Não sei se,
hoje, teria coragem de fazer o mesmo. Provavelmente não. Também não sei se
naquela altura tinha verdadeira noção de como iria ficar quando começasse a
pintar. Mas lá fui conseguindo. Entre pinceladas mais certas e outras nem
tanto, entre erros que provavelmente só eu conheço, nasceu aquela pintura que
acabou por ficar muito mais tempo do que aquilo que alguma vez imaginei.
Passaram-se anos. Muitos.
Mudaram os
carros, mudaram os pilotos, mudaram as tecnologias e mudou também a própria
Fórmula 1 e desapareceu aquela paixão por este desporto. Ayrton Senna ficou
para sempre ligado à memória daquela geração. Pedro Lamy seguiu o seu caminho e
tornou-se parte da história portuguesa no automobilismo.
E eu também
mudei. Aquele jovem que um dia pegou num pincel já deixou há muito de ser o
mesmo. Vieram outras responsabilidades, outros sonhos, outras preocupações e
outras paixões. Mas há coisas que o tempo não consegue apagar completamente. Porque,
apesar de tudo, a pintura continua lá.
Na mesma
parede da garagem, talvez já com as marcas dos anos, continua aquele carro
vermelho e aquele piloto que pintei quando era jovem. E cada vez que olho para
ela, não vejo apenas uma pintura. Vejo um pedaço de mim. Vejo o rapaz que
gostava de Fórmula 1, que admirava Senna, que se orgulhava de ver um português
entre os grandes e que teve a ousadia de transformar essa paixão numa parede
pintada.
Talvez a
pintura não seja perfeita. Talvez hoje eu fizesse muitas coisas de maneira
diferente. Mas isso pouco importa. Porque há trabalhos que valem não pela perfeição, mas pela história que carregam.
E esta
parede guarda uma das minhas.

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