Havia
qualquer coisa de mágico naquele ritual simples de comprar uma chiclete Gorila.
Não era pelo sabor, duro como pedra nos primeiros minutos, desafiando os dentes
e a paciência, mas pelo pequeno tesouro escondido lá dentro. Um cromo. Um
pedaço de papel que, para nós, valia mais do que qualquer moeda.
Lembro-me
bem destes aviões. Pequenos desenhos a preto e branco que nos transportavam
para um mundo distante. A I e a II Guerra Mundial, nomes complicados, países
que ainda mal sabíamos apontar no mapa, velocidades e altitudes que pareciam
coisa de ficção. Sem darmos conta, aprendíamos. Aprendíamos história,
geografia, tecnologia. Tudo isto enquanto mascavamos uma chiclete que,
convenhamos, parecia feita de borracha de pneu.
Colecionar
era uma aventura. Havia trocas no recreio, negociações dignas de diplomatas,
discussões acesas por causa de um cromo repetido que afinal não era assim tão
repetido. Cada coleção era um projeto, um compromisso, uma pequena obsessão que
nos ensinava mais do que muitos livros escolares.
E depois
veio a idade da parvalheira, aquela fase em que achamos que já somos crescidos
demais para estas coisas. Coleções? Coisa de miúdos. E assim, sem grande
cerimónia, muitas dessas relíquias acabaram no lixo. Hoje penso nisso e custa
um bocadinho. Não pelo valor material, mas pela história que levaram consigo.
Curioso
como o mundo dá voltas. Na altura, aqueles aviões eram quase heróis de papel,
símbolos de uma história distante que estudávamos com curiosidade. Hoje,
fala-se de guerra todos os dias, mas o cenário mudou. Já não são os aviões que
dominam os céus — são os drones, silenciosos, impessoais, quase invisíveis. A
guerra parece cada vez mais um jogo de computador, onde quem está longe carrega
num botão e tudo acontece no ecrã e nas nossas vidas.
Talvez por
isso estas memórias tenham ainda mais peso. Havia uma inocência na forma como
aprendíamos sobre conflitos — mediada por cromos, por desenhos, por histórias
contadas à distância do tempo. Hoje, a realidade é mais crua, mais próxima,
mais desconcertante.
Colecionar
nunca foi só juntar coisas. É uma forma de organizar o mundo, de o compreender
aos poucos, peça a peça. É aprender sem dar por isso, é criar ligações, é dar
valor ao detalhe. É, no fundo, crescer.
E talvez seja isso que mais falta faz hoje. Parar um pouco, juntar as peças com calma, e tentar perceber o mundo, mesmo que comece com algo tão simples como um cromo. Talvez ainda vá a tempo de recuperar um pouco disso. Não os cromos perdidos, mas o espírito de quem colecionava sem pressa, com curiosidade e encantamento. Porque no meio de tanta pressa, de tanta informação e de um mundo cada vez mais distante do toque humano, talvez colecionar memórias, histórias ou pequenos objetos seja uma forma silenciosa de resistir e de nos lembrarmos de quem fomos… e de quem ainda podemos ser.
No fundo, aquelas coleções nunca foram apenas sobre
completar séries ou encontrar o cromo raro. Eram sobre o tempo que investíamos
nelas, sobre as histórias que imaginávamos a partir de cada imagem, sobre a
forma como, sem darmos conta, dávamos significado a pequenos pedaços de papel.
Hoje, num mundo onde tudo é imediato e descartável, talvez o verdadeiro valor
esteja precisamente no contrário. No que guardamos, no que preservamos e no que
escolhemos não esquecer. Porque, crescer não devia ser deixar para trás, mas
sim saber levar connosco aquilo que nos fez.

Tantas boas recordações ao ler teu lindo texto. Quantos cromos para formar álbuns por nossa casa passaram... Tão bom recordar!Adorei! beijos, chica e um ótimo fim de semana!
ResponderEliminarObrigado amiga Chica!
EliminarUm abraço.
Ao colecionar esses cromos, estava, afinal, a envolver-se com os seus pares, na sua comunidade. Foram transportados a um mundo de fantasia onde também aprenderam boas lições.
ResponderEliminarTodos colecionamos qualquer coisa em qualquer idade.
Recordo-me de pensar que estava a “colecionar” livros de fadas e de princesas, que os meus pais me compravam.
Mais tarde, sem me aperceber, iniciei-me na diversidade cultural através da coleção de selos, muito antes de o conceito de multiculturalismo ter sequer nome. Depois foi a fase dos postais ilustrados e dos marcadores de livros. Depois foi a fase das malas. Depois....
Hoje, não faço coleções de nada.
Bom fim de semana!
Todos já colecionamos alguma coisa e todos aprendemos um pouco com essa atividade. Todas elas refletem a época em que as iniciamos. Atualmente coleciono apenas memórias aqui neste espaço.
EliminarUm abraço.
Nunca fui muito de coleccionar coisas, não tinha dinheiro para isso. Mais tarde, quando o tinha, só me interessava coleccionar namoradas, mas também essa mania depressa acabou!
ResponderEliminarEsse "tipo" de coleções nunca foi o meu forte!
EliminarUm abraço amigo Tintinaine.
O meu irmão fazia essa coleção e outras de jogadores da bola mas tudo foi pulverizado pela guerra. O meu pai era aviador e quando tínhamos boas notas e passavamos de ano, iamos com ele !
ResponderEliminarImagine que só há bem pouco tempo fiz a minha primeira viagem de avião...
EliminarUm abraço amiga Fatyly.
Nesse bons tempos, bastava tão pouco para a criançada ser feliz!...Essa ou outras colecções de cromos era ter motivos para um bom e salutar convívio com outros miúdos. Ir preenchendo a caderneta era algo que dava imenso orgulho e prazer.
ResponderEliminarEu, naqueles tempos idos em que fui feliz e não sabia, colecionei selos, e o meu filho muitos anos depois, preencheu uma caderneta com jogadores de futebol, caderneta essa, que anda por uma gaveta qualquer algures por aí. Igual aos Fanzines!!
Gostei especialmente desta publicação pois todos temos/tivemos, algo em comum.
Um abraço e um feliz fim de semana
Olá amiga Janita. Efetivamente já todos colecionamos alguma coisa. Gostava de ainda ter as minhas. Foram bons tempos que já não voltam. O mais importante é que fomos felizes com muito pouco.
EliminarUm abraço.
Eu colecionava selos! Era tão divertido!!!!!!!!
ResponderEliminarUm abracinho!
💙💙💙Megy Maia
Uma atividade que para além da diversão trás consigo muita aprendizagem. Além de ser um ótimo passatempo.
EliminarUm abraço.
Belíssimo texto. Para reconhecer a mensagem central deste texto, mostra como as coleções não visam apenas a quantidade ou a raridade, mas o tempo, a paciência e as histórias. As imagens tornam-se línguas com os quais lemos memórias. Num mundo de imediato, o texto lembra que o verdadeiro valor está no que protegemos, no que preservamos e não que não esquecemos conscientemente. Crescimento aqui não significa deixar as coisas ir, mas carregá-las — como achados da nossa identidade.
ResponderEliminarMuito obrigado pelo excelente comentário.
EliminarConseguiu em poucas palavras resumir aquilo que escrevi captando a essência da memória que apresentei.
Um abraço.
Ah amo colecionar, desde pequena. Eram figurinhas, fotos, bonecas e assim fui crescendo umas ficaram outras o tempo levou, mas em todas a sensação é a mesma.Bom conhecer teu espaço. Ótimo fim de semana. https://blogmingdolls.blogspot.com/
ResponderEliminarMuito obrigado pelo comentário e pela visita.
EliminarVolte mais vezes.
Um abraço.
Os cromos de futebolistas.
ResponderEliminarQue o meu avô comprou TODOS ao “menino” no segundo dia.
Mais de 120 escudos.
Há mais de cinquenta anos.
O Sá era um gajo do caraças!!
Abraço, boa semana
Um verdadeiro sortudo esse "menino"!
EliminarE o avô Sá também, pelo neto dos cromos.
Um abraço amigo Pedro!
Olá, R.Correia, delícia de texto, lembrei das minhas coleções,
ResponderEliminarficaram longo tempo comigo, depois... descartei, chegamos num tempo da vida em que o menos se torna mais, então estou reduzindo cada vez mais. Mas foram anos de alegria. Escrevi sobre uma de minhas coleções, "corujas", numa postagem. O triste é que em todas as datas só recebia corujas!
Sim, a gente se desfaz, mas não da memória!
Maravilhosa sua postagem, amigo!
Grata, abraços e uma linda semana.
Olá amiga Tais. Muito obrigado pelo seu comentário. Houve tempos em que qualquer objeto era colecionável. Era uma atividade que todos os miúdos praticavam. Hoje colecionam "likes". è sempre bom revisitar os baús das nossas memórias.
EliminarUm abraço e boa e santa semana.
Fabuloso texto! Obrigada pela partilha!
ResponderEliminarBjxxx,
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Obrigado pelo comentário e pela visita.
EliminarVolte mais vezes.
Um abraço.
Adoro ler as suas crónicas, pois para além de ver as suas memórias, embarco também numa viagem ao meu passado, relembrando esses momentos mágicos e bem especiais.
ResponderEliminarTambém fiz várias coleções e ainda tenho guardadas algumas delas. Era uma alegria conseguir um cromo que faltava, trocar com os amigos os repetidos, quantas saudades desses tempos simples mas cheios de felicidade.
Um grande abraço e uma Páscoa muito Feliz 🐰🐣
Muito obrigado pelo comentário Maria. É sempre bom perceber que do outro lado também existem outras pessoas com memórias semelhantes às por nós vividas.
EliminarUm abraço e uma Pascoa Feliz.
Fez-me recordar as minhas próprias colecções...
ResponderEliminarFeliz Abril, doce Páscoa e também um abraço :)
Todos nós as tivemos num tempo mais ou menos distante.
EliminarUm abraço e uma Pascoa doce neste novo mês de Abril.