Tio Januário o Alfaiate.
Há pessoas
que, pela força da presença e pelo rasto que deixam na nossa infância, acabam
por se tornar personagens maiores do que a própria vida. Para mim, uma dessas
figuras foi o Januário ou
melhor, o Tio
Januário, como todos nós, crianças, éramos ensinados a chamar
aos mais velhos por respeito, mesmo que não houvesse qualquer laço de sangue.
Ainda assim, durante muito tempo, o seu verdadeiro nome nem sequer importava, para
todos ele era simplesmente o Tio Alfaiate. Naquele tempo, as profissões
colavam-se aos nomes como sobrenomes, apelidos ou alcunhas. Havia o Manel Moleiro, o João
Caiador, o Joaquim Carpinteiro, o Zé do Ferreiro… e havia o Januário, o
Alfaiate.
Ele aparecia
em casa do meu avô mais ou menos de quinze em quinze dias, quase sempre no
mesmo dia em que se cozia o pão. Não acredito que fosse coincidência. Naquele
tempo, nada havia em abundância, e muito menos comida. Mas o Januário sabia
escolher bem os dias de visita!
Chegava
sempre impecável, como mandava a sua arte, montado na bicicleta a pedal com uma
mola presa à perneira da calça para não tocar na corrente. Aquele cuidado era
quase um cartão-de-visita. Debaixo do seu elegante e obrigatório chapéu trazia
o mini-bigode sempre aparado, uma caixa de tabaco que parecia um estojo de ferramentas
e uma boa disposição que não cabia na sala. A destreza com que enrolava o
tabaco era fruto de anos de prática, mas nunca perdia a oportunidade de nos
avisar que aquilo era “coisa de homens”, e que não devíamos experimentar. Nós
ríamos e claro que acreditávamos até pelo cheiro que aquilo largava.
Quando o
Januário entrava pela porta, a casa iluminava-se. A máquina de costura parecia
ganhar vida própria ao toque das suas mãos, como se tocasse música. Ele sabia
remendar tudo. Calças já vencidas pelos anos, camisas gastas, roupas tão calejadas
pelo tempo que só o seu talento parecia capaz de lhes dar mais uma
oportunidade. Era um mestre das agulhas e linhas, daqueles que já não se
fabricam.
Entre ponto
e costura, vinha sempre carregado de histórias mirabolantes que deixavam a
criançada em êxtase. Quando se picava numa agulha, soltava o seu famoso “com seiscentos…”,
expressão herdada, dizia ele, dos tempos em que viveu em Angola. Muito mais
tarde vim a saber que o Januário era mais um dos tantos retornados que
regressaram sem nada, obrigados a recomeçar do zero numa freguesia vizinha.
Talvez por isso valorizasse tanto cada pequeno gesto, cada broa, cada
gargalhada.
E, claro,
nunca saía de mãos vazias. No fim do dia, seguia estrada fora, de sacola de
pano ao ombro, levando consigo uma broa de milho acabadinha de cozer, talvez a
sua jorna. Mas ainda antes disso, tinha direito a uma grande malga de broa com
vinho, a tão popular “sopa de vinho” que devorava com gosto para ganhar força
para a viagem.
Não sei se o
Januário tinha consciência do lugar que ocupava nas nossas memórias. Mas sei que,
para muitos de nós, ele foi mais do que um alfaiate ambulante. Foi personagem,
foi alegria, foi companhia. Um daqueles pequenos grandes fragmentos da infância
que ficam gravados para sempre, costurados a ponto firme no tecido do tempo.
Afinal, que seria
da nossa infância sem estas personagens que costuraram, ponto a ponto, as
memórias que hoje ainda nos aquecem o coração?

Olá Rui, adorei ler essa história do Tio Alfaiate,
ResponderEliminarrealmente ficam gravadas em nossas mentes, lindas histórias que se passaram na nossa infância, e como é bom recordá-las!
Lembro de muitas, também, são marcantes.
E o 'tio' não era bobo, sabia o dia certo de ir...kkk
Votos de felizes dias pela frente.
Abraços.
Como não consigo seguir seu blog aqui, ele está na minha lista dos "Blogs Amigos". Estou procurando saber o porquê não consigo seguir, me parece que há um certo limite de blogs a seguir.
EliminarOlá Tais! Era um senhor muito especial. Sempre a sorrir para a vida ainda que ela não lhe desse bons ares.
EliminarUm abraço e bom fim de semana.
Muito obrigado por incluir o meu "rabiscos" nos seus "Blogs Amigos".
EliminarOlá.
ResponderEliminarAcho que em toda família há aqueles personagens que nos tocam na infância e que ficam na nossa memória décadas e décadas depois. Também tenho os meus personagens.
Foi bom ler esse teu texto cheio de afetividade por esse grande personagem costureiro que marcou tua vida.
Olá Eduardo. De certa forma estes personagens também ajudam a moldar a nossa forma de vermos a vida.
ResponderEliminarUm abraço e bom fim de semana.
Gostei muito da história e me fez lembrar de uma pessoa da minha infância que a tempos não me vinha a mente. Parabéns!
ResponderEliminarÉ esse o meu propósito neste blog.
EliminarFazer renascer as lembranças e desencantar sorrisos escondidos pelo tempo.
Um abraço e bom fim de semana.
O alfaiate era o Zé Andrade.
ResponderEliminarGajo porreiro, das amizades do meu avô.
Aquela máquina de costura era a da avó Maria Iria.
Ficou para a minha prima com a minha aquiescência.
Abraço, bfds
Uma máquina de guerra da marca Singer que ainda hoje trabalha.
ResponderEliminarUm abraço e bom fim de semana.
Através das suas historias, somos levados para esses tempos simples, que marcaram a vida e deixaram bordadas doces lembranças.
ResponderEliminarEra certamente um dia bem alegre e diferente para toda a família, a chegada do tio Januário.
A minha avó tinha uma maquina de costura semelhante a essa.
Um grande abraço
Olá Maria. Era mesmo assim. Um dia diferente cheio de alegria e muitas histórias.
EliminarArrisco a dizer que quase todas as casas dos avós tinham uma máquina daquelas!
Um abraço e boa semana.
Essa velhinha máquina de costura Singer não a conheci em casa das minhas avós, já que tive o infortúnio de crescer sem saber o quanto é bom sentir esse aconchego tão acolhedor.
ResponderEliminarQuem a possuía era minha Mãe e nela aprendi eu a costurar, que é como quem diz, coser a direito...
Perdoe-me, mas fico por aqui. Estas lembranças levam-me a muita dor, que não posso nem quero reviver.
Um abraço, Rui.
Olá Janita. Com certeza nem todos temos boas memórias da nossa infância. O importante é assumirmos que boas ou más todas tiveram o seu peso naquilo em que nos moldamos.
EliminarUm abraço.
Tenho muito boas lembranças da minha infância feliz e despreocupada, nem sequer a falha da presença das minhas avós, perturbou essa despreocupação. Ninguém sente falta do que não conhece e não teve. Penso que ter, e perder, será muito pior. Só muito mais tarde, quando fui avó e cobria o meu neto de beijos, comecei a pensar no que eu não tive, tanto mais que, naqueles tempos. o contacto físico não era usual.
EliminarSó voltei e remexi nessa parte, para que não lhe ficasse a ideia de que não tenho boas memórias da minha infância...
Ao meu avô pedíamos a benção, eu e a ranchada de netos e ele entendia a mão onde depositávamos um beijo, ao de leve, com a maior reverência...àparte isso, corria, trepava às romãzeiras do nosso quintal e brincava na rua...
Abraço.
Fez bem em voltar Janita. Esclarecimento feito e assim fico bem melhor.
EliminarUm abraço.
Ah, a infância: esse tenderilho de lembranças onde cada personagem é ponto de costura, cada linha um suspiro de fantasia. Sem eles, o tecido da nossa memória seria, quem sabe, um pano despido, sem costuras nem dobras que guardem o calor do tempo. São eles os artesãos invisíveis que, bordaram risos, medos e segredos, criando um manto que ainda hoje nos envolve quando o mundo parece grande demais. Que a gente os leia como um romance antigo: com reverência, gratidão e a certeza de que, por trás de cada encanto, há uma lição que ainda ilumina o caminho.
ResponderEliminarMuito obrigado pelas suas palavras.
EliminarSou muito grato pela infância que me propuseram. Tempos difíceis para quem me rodeava, mas que não deixaram passar essa dificuldade para mim.
Um abraço e boa semana.
Na minha aldeia também tinha um alfaiate e, como a miséria era muita, nele se viravam as calças do meu pai para se fazerem as do meu irmão, Era um senhor muito bem disposto e faleceu com 90 anos, sucedendo-lhe o filho. O meu marido que era seu vizinho, gostava de ir para lá ajudá-lo e, no fim recebia uns trocos; por isso, hoje, sabe muito bem passar umas calças de vinca; naquele tempo não havia as jeans. Os vizinhos mais velhos eram todos tratados por tios, como se pertencessem à família. Uma coisa que admiro nos brasileiros é os filhos tratarem as pessoas amigas por tios; até hoje, sou tia de muitas crianças, hoje adultas, que conheci quando lá vivia. Educadoras de infância, também eram tratadas por tias pelas crianças ; aqui, choca-me vê -las serem tratadas pelo nome, como se fossem suas coleguinhas; creio que poderiam, pelo menos tratá -las por Da...
ResponderEliminarSeria mais respeitoso,
Obrigada por, novamente, me teres levado à minha infância, recordando o tio Adão e essa máquina de costura que não podia faltar em casa; tudo era remendadinho pelas mães , à mão ou à máquina. Qualquer buraquinho numa meia era cerzido com muito cuidado. Hoje ? Vai para o lixo e encontra-se novas,
Bom fim de semana, vizinho!
Um beijo
Emília 🌾 🌻
Olá Emília. Que bom que ajudei nessa "viagem". Realmente estes alfaiates eram autênticos mágicos. Do nada ou do que achávamos que já era nada com as suas mãos faziam nascer novas peças de roupa.
EliminarTambém tenho saudades de ouvir chamar pelo tio!...
Boa semana vizinha.
Um abraço.
Desculpa o erro acima....e compra-se novas..
EliminarO tablet tem a mania de escrever por mim; se não presto atenção lá vai o erro
Emília 🌻
São as escritas "inteligentes". Temos que ter cuidado com elas, ainda nos mudam os discursos ;)
EliminarQue história encantadora, Correia!
ResponderEliminarTio Januário parece daquelas figuras que não apenas costuram roupas, mas alinhavam memórias ponto a ponto, afeto a afeto. É bonito perceber como alguém tão simples, com sua bicicleta, seu chapéu e seu ofício, podia iluminar uma casa inteira e marcar uma infância para sempre. No fim, alguns mestres da vida não precisam de títulos basta-lhes uma agulha, uma broa e um coração cheio de histórias.
Abraço
Fernanda
Era mesmo isso Fernanda. O Tio Januário iluminava aquela casa com a sua presença. Era um personagem!
EliminarUm abraço e boa semana.
Olá, R. Correia
ResponderEliminarEscreve muito bem, sabe? As histórias que nos conta
chegam aqui cheias de vida, os personagens ganham
dinamismo. Neste caso, do Tio Januário, quase que o
vemos com os seus apetrechos e a sua alegria.
Ponto a ponto costura as memórias em nós e delas não nos
queremos afastar.
Boa semana, amigo.
Abraço
Olinda
Olá Olinda.
EliminarMuito obrigado pelas suas palavras tão elogiosas.
Um abraço e uma boa semana.
Há pessoas que marcaram a nossa infância. Pessoas das quais conhecíamos as profissões que com elas se confundiam.
ResponderEliminarGostei de ver a máquina Singer. A ninha mãe também tinha uma que foi muito útil.
Uma boa semana.
Um beijo.
Houve uma geração que cresceu com essa máquina.
EliminarUm abraço e boa semana.
Naquele tempo (pelo menos até aos anos 60 do século passado) havia costureiras que faziam o seu trabalho na casa dos clientes. Nunca conheci qualquer alfaiate ambulante.
ResponderEliminarA sopas de vinho era muito populares, acreditava-se que eram boas para a saúde e que davam forças para o trabalho.
Gostei da sua crónica, uma visão do passado que é sempre bom recordar.
Boa semana.
Um abraço.
Olá amigo Jaime.
EliminarEste Tio Januário não era nenhum alfaiate ambulante, foi apenas uma expressão que usei para descrever o que ele fazia.
Bons tempos em que que uma boa "sopa" ajudava no trabalho
Um abraço.
A máquina fez-me regressar à infância.
ResponderEliminarSim, algumas pessoas marcaram a nossa infância e todas (ou quase) já estão em outra dimensão. Um dos dramas da velhice é esse.
Já lhe disse que escreve muito bem ?
Abraço, boa semana.
Olá São. Muito obrigado, fico muito lisonjeado pelo seu comentário. É sempre bom quando reconhecem o nosso trabalho.
EliminarUm abraço.
Na casa dos meus avós vi uma máquina Singer semelhante a essa. A minha mãe tinha uma Singer também, mas já com gabinete e automática. Ainda tentei usá-la para coser um pano de tabuleiro. E foi, então, que me apercebi que não tinha talento para a costura.
ResponderEliminarAlfaites e costureiras eram profissões de grande prestígio nos pequenos centros antes do pronto a vestir.
Mais uma bela estória que nos apresenta.
Estas eram as máquinas das avós!
EliminarMuito obrigado pelo seu comentário.
Um abraço.