02 abril 2026


A Páscoa Minhota 

e o Toque dos Sinos.

           

             Há tradições que o tempo não apaga, apenas as torna mais suaves, como um eco distante que ainda ressoa nas aldeias do Minho. A Páscoa minhota é uma dessas heranças vivas. Cada vez mais esbatida, é certo, mas ainda profundamente sentida por quem a vive e por quem a guarda na memória.

            O domingo de Páscoa começava cedo, com o compasso pascal a percorrer os caminhos de terra batida, de casa em casa, anunciando a ressurreição de Jesus. Não era apenas uma visita religiosa — era um momento de encontro, de comunidade, de portas abertas e corações também.

            Cada casa preparava-se com cuidado. À entrada, tapetes de flores desenhados à mão, com pétalas coloridas colhidas nos campos. Era um gesto simples, mas carregado de significado e orgulho.

            O compasso vinha composto por membros das confrarias e pelo senhor padre, figura central da celebração. À frente, uma ou duas crianças tinham a honra de tocar a sineta, anunciando a chegada. Era um som inconfundível. Leve e ritmado que fazia as pessoas interromperem o que estavam a fazer para receber a visita com respeito e alegria.

            Hoje, com a escassez de padres, são muitas vezes leigos que assumem essa missão. A tradição adapta-se, resiste, mas já não é bem a mesma coisa.

            E depois havia os sinos.

            Ah, os sinos da Páscoa.

            Nesse dia, a torre da igreja tornava-se território aberto. Os mais velhos deixavam, de propósito, as portas destrancadas, como um convite silencioso à ousadia dos mais novos. E nós corríamos pelo adro, pelas escadas estreitas da torre, numa corrida desenfreada para ver quem chegava primeiro.

            Tocar o sino era uma conquista. Uma alegria difícil de explicar. O peso da corda nas mãos, o som a encher o ar, a sensação de fazer parte de algo maior.

            Às vezes, aparecia um tio ou um vizinho mais experiente, mestre na arte dos repiques, que nos ensinava pequenos truques. O ritmo, a pausa, a força certa. Momentos que pareciam lições, mas eram muito mais do que isso. Eram passagens de testemunho.

            Claro que nem tudo era inocente. Havia sempre os mais atrevidos que, já com algum jeito e traquejo, arriscavam tocar o sino a defunto. Bastava isso para ver as janelas abrirem-se de repente e ouvir os vizinhos, entre o susto e a irritação, ameaçarem-nos com umas boas palmadas se não parássemos com a brincadeira.

            E nós ríamos. E corríamos. E voltávamos a tentar.

            Hoje, já não é assim. Tudo mudou. As torres estão fechadas, os sinos tocam sozinhos obedecendo a botões e horários, comandados por sistemas eletrónicos. As crianças estão em casa. Tudo mais controlado, mais seguro… e talvez um pouco mais vazio.

            São modernices.

            Mas dentro de quem viveu esses dias, o som dos sinos continua a tocar livre, imperfeito e cheio de vida, como naquele domingo de Páscoa em que ser criança era suficiente para nos sentirmos donos do mundo.

            E talvez seja isso que importa preservar.

            Não apenas o compasso, os tapetes de flores ou o toque dos sinos — mas a essência de uma Páscoa vivida em conjunto, com portas abertas, risos soltos e o coração disponível. Enquanto houver quem conte estas histórias, quem ainda abra a porta à cruz e quem sinta um arrepio ao ouvir um sino tocar, a Páscoa minhota não desaparecerá.